Poesia: - Me
Gargal(h)o de mim
Lúcido-me tolo.
Olhos de análise, tudo sei
Menos o mim. Desminto-me.
Me mito ou me mato
Em suor e de lírio
Não sei se sei, se sou ou suo.
Cego, só ego sou
Cogito ergo sum.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgd82rdNBJlhSy6gX-R4Q8CVEX7hyphenhyphenUFWE8X2y5mJze402fNn8xMNCZT_iTLWkiBim7AFvcmh5aBhoA4IeH6m_6RvMhyphenhyphenEhIHY8SMQxhb-2IVLoth5uF0eU-EUv9tBbsN8Nxs30l_4D0AGhOEExVU-JZ1E7lTb366zSLyXWKWPqD4fuTJym2N9RMOQFt6fYc/s320/images.jpgInciente de mim
Não posso verme.
Imparcial, petulante,
Soslaio-me, infrutífero
E fero, voraz, implacável,
Tombo, incapaz-me
Delirante luz.
BARROS, Paulo Alberto M. Monteiro de (Artur da Távola). Calentura.
Entendendo
a poesia:
01
– Qual é o tema central abordado no poema e como ele se relaciona com o título "-Me"?
O tema central é
a crise de identidade, a busca pelo autoconhecimento e a divisão do
"eu". O título "-Me" e o uso constante do pronome
oblíquo reflexivo evidenciam essa introspecção e a tentativa do eu lírico de
analisar a si próprio como objeto de estudo.
02
– Como a frase filosófica "Cogito ergo sum" (Penso, logo existo), de
René Descartes, é ressignificada e ironizada no poema?
O eu lírico
contrapõe o racionalismo de Descartes à sua própria ignorância e cegueira sobre
si mesmo ("Olhos de análise, tudo sei / Menos o mim"). O pensamento
lógico não o ajuda a se compreender, transformando o "Penso, logo
existo" em um estado de dúvida e egocentrismo ("Cego, só ego sou").
03
– Qual o efeito de sentido produzido pelos jogos de palavras e sonoridades nos
versos "Me mito ou me mato / Em suor e de lírio" e "Não sei se
sei, se sou ou suo"?
O poema utiliza
aliterações, assonâncias e jogos de palavras (como "delírio" desmembrado
em "de lírio") para expressar a confusão mental, a angústia
existencial e o delírio do eu lírico, cujas certezas se dissolvem em dúvida
sobre sua própria existência e sentimentos.
04
– De que forma o eu lírico explora a neologização e a inversão da colocação
pronominal para expressar a tentativa de autoanálise?
O poeta cria
estruturas incomuns, como unir pronomes a adjetivos e substantivos (ex:
"Lúcido-me tolo", "Incapaz-me"), ou usar o pronome
antes de verbos que não admitem próclise na norma padrão ("Gargal(h)o de
mim"). Isso reflete a tentativa constante, porém frustrada, de voltar a
ação verbal contra si mesmo.
05
– Qual é a contradição vivida pelo eu lírico expressa nos versos finais do
poema?
A contradição
está no fato de o eu lírico se ver como alguém "imparcial",
"petulante" e analítico, mas ao mesmo tempo "incapaz" e
"infrutífero" de enxergar a si mesmo. Ele cai/tomba diante de uma
"delirante luz", demonstrando que excesso de análise não traz
lucidez, mas sim cegueira e desintegração do "eu".
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