Crônica: O Assalto
Carlos Drummond de Andrade
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjLH3TOIsFd7sg7__ZnU6QzqpFODEf57ijAkHAoBwWQetltxAqeJPkimLQTEWEN9mXBiyVipGzaY7UxmvImfZ0cV_KQo7XdOSWjLoZHgwVRBGbNpV4xI7SfTcf4L6EpAPC2vXZzohTZRJqfGUP_EuYpatw_0cgVeHmjdQ6v12tJ2KZRoIyuoS91fvSa80o/s320/assalto.png Na
feira, a gorda senhora protestou a altos brados contra o preço do chuchu:
—
Isto é um assalto!
Houve
um rebuliço. Os que estavam perto fugiram. Alguém, correndo, foi chamar o
guarda. Um minuto depois, a rua inteira, atravancada, mas provida de um
admirável serviço de comunicação espontânea, sabia que se estava perpetrando um
assalto ao banco. Mas que banco? Havia banco naquela rua? Evidente que sim, pois
do contrário como poderia ser assaltado?
—
Um assalto! Um assalto! — a senhora continuava a exclamar, e quem não tinha
escutado, escutou, multiplicando a notícia. Aquela voz subindo do mar de
barracas e legumes era como a própria sirena policial, documentando, por seu
uivo, a ocorrência grave, que fatalmente se estaria consumando ali, na
claridade do dia, sem que ninguém pudesse evitá-la.
Moleques
de carrinho corriam em todas as direções, atropelando-se uns aos outros.
Queriam salvar as mercadorias que transportavam. Não era o instinto de
propriedade que os impelia. Sentiam-se responsáveis pelo transporte. E no
atropelo da fuga, pacotes rasgavam-se, melancias rolavam, tomates
esborrachavam-se no asfalto. Se a fruta cai no chão, já não é de ninguém; é de
qualquer um, inclusive do transportador. Em ocasiões de assalto, quem é que vai
reclamar uma penca de bananas meio amassadas?
—
Olha o assalto! Tem um assalto ali adiante!
O
ônibus na rua transversal parou para assuntar. Passageiros ergueram-se, puseram
o nariz para fora. Não se via nada. O motorista desceu, desceu o trocador, um
passageiro advertiu:
—
No que você vai a fim do assalto, eles assaltam sua caixa.
Ele
nem escutou. Então os passageiros também acharam de bom alvitre abandonar o
veículo, na ânsia de saber, que vem movendo o homem, desde a idade da pedra até
a idade do módulo lunar. Outros ônibus pararam, a rua entupiu.
—
Melhor. Todas as ruas estão bloqueadas. Assim eles não podem dar no pé.
— É uma mulher que chefia o bando!
—
Já sei. A tal dondoca loira.
—
A loura assalta em São Paulo. Aqui é morena.
—
Uma gorda. Está de metralhadora. Eu vi.
—
Minha Nossa Senhora, o mundo está virado!
—
Vai ver que está caçando é marido.
—
Não brinca numa hora dessas. Olha aí sangue escorrendo!
—
Sangue nada, é tomate.
Na
confusão, circularam notícias diversas. O assalto fora a uma joalheria, as
vitrinas tinham sido esmigalhadas a bala. E havia joias pelo chão, braceletes,
relógios. O que os bandidos não levaram, na pressa, era agora objeto de saque
popular. Morreram no mínimo duas pessoas, e três estavam gravemente feridas.
Barracas
derrubadas assinalavam o ímpeto da convulsão coletiva. Era preciso abrir
caminho a todo custo. No rumo do assalto, para ver, e no rumo contrário, para
escapar. Os grupos divergentes chocavam-se, e às vezes trocavam de direção;
quem fugia dava marcha à ré, quem queria espiar era arrastado pela massa
oposta. Os edifícios de apartamentos tinham fechado suas portas, logo que o
primeiro foi invadido por pessoas que pretendiam, ao mesmo tempo, salvar o pelo
e contemplar lá de cima. Janelas e balcões apinhados de moradores, que
gritavam:
—
Pega! Pega! Correu pra lá!
—
Olha ela ali!
—
Eles entraram na Kombi ali adiante!
—
É um mascarado! Não, são dois mascarados!
Ouviu-se
nitidamente o pipocar de uma metralhadora, a pequena distância. Foi um
deitar-no-chão geral, e como não havia espaço uns caíam por cima de outros.
Cessou o ruído, Voltou. Que assalto era esse, dilatado no tempo, repetido,
confuso?
—
Olha o diabo daquele escurinho tocando matraca! E a gente com dor-de-barriga,
pensando que era metralhadora!
Caíram
em cima do garoto, que soverteu na multidão. A senhora gorda apareceu, muito
vermelha, protestando sempre:
—
É um assalto! Chuchu por aquele preço é um verdadeiro assalto!
A.ssal.to: substantivo
masculino
1. agressão para roubo; 2. Ataque; 3. cada
período de tempo de uma luta; 4. exorbitância de preço.
Entendendo a crônica:
01 – Ao dizer “Isto é um assalto!”,
em que sentido a senhora utilizou a palavra assalto?
Exorbitância de preço.
02 – A frase dita pela senhora provocou uma enorme
confusão. Por quê?
Porque as pessoas pensaram que era um assalto de verdade.
03 – Ocorreu comunicação entre as pessoas que
estavam no local dos fatos relatados no texto? Justifique sua resposta.
Não, porque ela disse uma coisa e as pessoas entenderam
outra.
04 – A frase “Assim eles não podem dar no
pé” está na linguagem informal. Reescreva-a na linguagem formal?
Assim eles não podem fugir.
05 – “Ouviu-se nitidamente o pipocar de uma
metralhadora”. O que levou as pessoas a pensarem que estavam ouvindo o
barulho de uma metralhadora?
Um escurinho trocando matraca.
06 – Que fato é responsável pelo humor da
charge ao lado do texto?
O fato de o homem querer parcelar o assalto em 12 vezes.
07 – Observe os significados da
palavra assalto e responda: ela foi usada com o mesmo sentido na
charge e no texto? Justifique sua resposta.
Não, porque no
texto foi usada como exorbitância de preço e na charge como agressão para
roubo.
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