Artigo de opinião: Em defesa da humanidade
José Tadeu Arantes
Tudo tem um preço. Nos últimos
trezentos anos, o preço que a humanidade pagou por seu extraordinário
desenvolvimento científico e tecnológico foi a perda da dimensão espiritual da
existência. O homem afastou-se de Deus, isto é, de sua realidade mais íntima, e
mergulhou numa profunda alienação. Esquecidos de quem somos, experimentamos
então um tríplice divórcio: da humanidade com a natureza (crise ecológica); dos
homens, uns com os outros (crise ética, política, social e econômica); do
indivíduo consigo mesmo (crise psicológica). Essas três contradições são
diferentes faces de uma crise maior, de fundo espiritual, que alcançou escala
planetária.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiCyNML_99-QxMdQdiOBi-OW8YIDHhcY1M4-nWPiOIF9DE3tkGV7jdAGNGtHOh-19hKQ-gdTkdbsG1dEyUbNtvcUFmZaCm-RHRCKHLKBMhQYs-NHQTOqDUOQps9vr3aY2xXxdYZ4B5IOY6SAMYzOmEfjCjWdMH1GNzz5hyphenhyphenc9KUuaX27zJg1oX5EIrtnt-s/s320/images.jpg Deslumbrados com os poderes da ciência
e da tecnologia, passamos a nos comportar como o aprendiz de feiticeiro do
conto infantil, agindo no mundo da maneira mais desastrada. Esquecemos que
todos os aspectos da realidade fazem parte de um tecido único e que é
impossível puxar uma ponta sem balançar as outras. A consequência mais sombria
desse comportamento irresponsável é que a humanidade tornou-se capaz de
extinguir a si própria. A natureza precisou de 15 bilhões de anos de evolução
material para produzir o corpo humano. Pela via das armas nucleares ou de um
desastre ecológico, essa maravilha da criação pode ser riscada da face do
universo num estalar de dedos.
Este ainda é o cenário dominante. Mas
uma nova perspectiva começa a se desenhar no mundo. Aqui e ali, as consciências
despertam e, escapando das armadilhas do materialismo, da superstição e do
fanatismo religioso, reencontram, pouco a pouco, os caminhos da
espiritualidade. É um movimento difícil – tão difícil quanto nadar num rio de
corredeira em sentido contrário ao da corrente. Pois busca alcançar as alturas,
quando tudo leva para baixo. E ainda tem que vencer barreiras formadas por
pedras pontiagudas, galhos emaranhados e redemoinhos aprisionantes. Tal
movimento não se confunde com a adesão a igrejas ou seitas. Pois – embora
possam abrigar em seu interior pessoas de espiritualidade autêntica – estas
constituem, na maioria dos casos, o principal obstáculo à experiência
espiritual, separando o homem de Deus por uma muralha de dogmas, preconceitos,
comportamentos massificados, interesses econômicos e mecanismos de poder.
Importantes cientistas deste século,
como Albert Einstein e Niels Bohr, perceberam que a ciência havia chegado a um
ponto que exigia o resgate da perspectiva espiritual. E procuraram nas grandes
tradições místico-filosóficas do passado as respostas que o árido materialismo
não podia oferecer.
Há pouco mais de dez anos, durante um
encontro realizado em Veneza, intelectuais de renome internacional – da
estatura de Abdus Salam (Prêmio Nobel de Física) e Jean Dausset (Prêmio Nobel
de Medicina) – assinaram uma declaração conjunta, na qual afirmam que a ciência
e as tradições espirituais são complementares e não contraditórias e que o
intercâmbio entre elas “abre as portas para uma nova visão da humanidade”.
Essas ideias vêm ganhando adeptos por toda parte. Mas ainda surpreendem e
escandalizam muita gente. entre os que se opõem a elas, há cientistas de
inegável valor, que confundem, porém, o pensamento científico com o
materialismo. Se estudassem a fundo a história da ciência, reformulariam seus
conceitos, pois foi no seio das tradições espirituais que o saber científico
nasceu e se desenvolveu. Os primeiros cientistas do mundo foram os xamãs
pré-históricos, que atuavam nas sociedades do período paleolítico como elos de
ligação entre o mundo do espírito e o mundo da matéria. Ao longo de milhares de
anos de prática intensiva, esses homens de conhecimento acumularam numerosas e
sofisticadas informações acerca dos reinos mineral, vegetal e animal; do
movimento dos astros e de sua relação com os acontecimentos da Terra; do espaço
geográfico e da história dos antepassados; da origem, evolução e cura das
doenças; das técnicas para induzir o transe e dos domínios contemplados em
estados incomuns de consciência.
Um longo e sinuoso caminho separa o
xamã ancestral do cientista contemporâneo. Seria preciso um livro inteiro – ou
mesmo um conjunto de livros – para descrevê-lo. Mas o vínculo entre o espírito
e a matéria, corporificado na figura do xamã, começa a ser resgatado na
atualidade. Ele aponta para uma nova visão de mundo, capaz de reconciliar a
humanidade com a natureza, os homens uns com os outros e o indivíduo consigo
mesmo. Esse reencontro talvez venha a ser a grande realização do próximo
século. Maior do que as mais extraordinárias promessas da informática, da
engenharia genética e da exploração espacial. Devemos somar toda a nossa
energia, o nosso afeto, o nosso humor, o nosso talento, a nossa criatividade
para tornar esse sonho real. Só então terão sentido as loucas palavras do
filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900): “Eu vos anuncio o
super-homem”.
ARANTES, José Tadeu.
Jornalista e professor, editor da revista Galileu/Globo Ciência. (Texto escrito
especialmente para este livro).
Fonte: Linguagem Nova.
Faraco & Moura. 8ª série. 15ª edição, 2ª impressão. Editora Ática. São
Paulo. 2003. p. 196-198.
Entendendo o artigo:
01
– Qual foi o preço pago pela humanidade ao alcançar um extraordinário
desenvolvimento científico e tecnológico nos últimos trezentos anos?
O preço foi a
perda da dimensão espiritual da existência. Esse afastamento gerou uma profunda
alienação e resultou em um tríplice divórcio: da humanidade com a natureza
(crise ecológica), dos homens entre si (crise ética, política, social e
econômica) e do indivíduo consigo mesmo (crise psicológica).
02
– A que o autor compara o comportamento humano diante dos poderes da ciência e
da tecnologia no segundo parágrafo?
O autor compara a
humanidade ao "aprendiz de feiticeiro" do conto infantil, agindo de
forma desastrada e irresponsável por esquecer que a realidade é um tecido único
interligado, a ponto de se tornar capaz de extinguir a si própria por meio de
armas nucleares ou de um desastre ecológico.
03
– Segundo o texto, a adesão a igrejas ou seitas é garantia de uma
espiritualidade autêntica? Por quê?
Não. O autor
afirma que as instituições religiosas muitas vezes constituem o principal
obstáculo à experiência espiritual, pois separam o homem de Deus por meio de uma
muralha de dogmas, preconceitos, comportamentos massificados, interesses
econômicos e mecanismos de poder.
04
– Qual a posição de grandes cientistas citados no texto, como Albert Einstein e
Niels Bohr, em relação à ciência e à espiritualidade?
Eles perceberam
que a ciência havia atingido um ponto que exigia o resgate da perspectiva
espiritual. Por isso, buscaram nas grandes tradições místico-filosóficas do
passado as respostas e o sentido que o materialismo árido não conseguia
oferecer.
05
– Qual foi a conclusão da declaração conjunta assinada por intelectuais de
renome internacional (como Abdus Salam e Jean Dausset) em Veneza?
Eles afirmaram
que a ciência e as tradições espirituais são complementares e não
contraditórias, e que a troca de conhecimentos entre ambas "abre as portas
para uma nova visão da humanidade".
06
– Por que, segundo o autor, é um equívoco histórico alguns cientistas
associarem o pensamento científico exclusivamente ao materialismo?
Porque o saber
científico nasceu e se desenvolveu no interior das próprias tradições
espirituais. O autor exemplifica lembrando que os primeiros cientistas do mundo
foram os xamãs pré-históricos, que atuavam como ponte entre o mundo espiritual
e o material, acumulando saberes profundos sobre medicina, astronomia e
natureza.
07
– O que o autor projeta como a "grande realização do próximo século",
superando até mesmo avanços da informática e da engenharia genética?
A grande
realização será o reencontro e a reconciliação entre o vínculo do espírito e da
matéria (espiritualidade e razão), capaz de curar as divisões do homem com a
natureza, com os seus semelhantes e consigo mesmo, tornando real a promessa de
uma humanidade plenamente realizada.
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