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terça-feira, 4 de agosto de 2026

ARTIGO DE OPINIÃO: EM DEFESA DA HUMANIDADE - JOSÉ TADEU ARANTES - COM GABARITO

 Artigo de opinião: Em defesa da humanidade

          José Tadeu Arantes

        Tudo tem um preço. Nos últimos trezentos anos, o preço que a humanidade pagou por seu extraordinário desenvolvimento científico e tecnológico foi a perda da dimensão espiritual da existência. O homem afastou-se de Deus, isto é, de sua realidade mais íntima, e mergulhou numa profunda alienação. Esquecidos de quem somos, experimentamos então um tríplice divórcio: da humanidade com a natureza (crise ecológica); dos homens, uns com os outros (crise ética, política, social e econômica); do indivíduo consigo mesmo (crise psicológica). Essas três contradições são diferentes faces de uma crise maior, de fundo espiritual, que alcançou escala planetária.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiCyNML_99-QxMdQdiOBi-OW8YIDHhcY1M4-nWPiOIF9DE3tkGV7jdAGNGtHOh-19hKQ-gdTkdbsG1dEyUbNtvcUFmZaCm-RHRCKHLKBMhQYs-NHQTOqDUOQps9vr3aY2xXxdYZ4B5IOY6SAMYzOmEfjCjWdMH1GNzz5hyphenhyphenc9KUuaX27zJg1oX5EIrtnt-s/s320/images.jpg


        Deslumbrados com os poderes da ciência e da tecnologia, passamos a nos comportar como o aprendiz de feiticeiro do conto infantil, agindo no mundo da maneira mais desastrada. Esquecemos que todos os aspectos da realidade fazem parte de um tecido único e que é impossível puxar uma ponta sem balançar as outras. A consequência mais sombria desse comportamento irresponsável é que a humanidade tornou-se capaz de extinguir a si própria. A natureza precisou de 15 bilhões de anos de evolução material para produzir o corpo humano. Pela via das armas nucleares ou de um desastre ecológico, essa maravilha da criação pode ser riscada da face do universo num estalar de dedos.

        Este ainda é o cenário dominante. Mas uma nova perspectiva começa a se desenhar no mundo. Aqui e ali, as consciências despertam e, escapando das armadilhas do materialismo, da superstição e do fanatismo religioso, reencontram, pouco a pouco, os caminhos da espiritualidade. É um movimento difícil – tão difícil quanto nadar num rio de corredeira em sentido contrário ao da corrente. Pois busca alcançar as alturas, quando tudo leva para baixo. E ainda tem que vencer barreiras formadas por pedras pontiagudas, galhos emaranhados e redemoinhos aprisionantes. Tal movimento não se confunde com a adesão a igrejas ou seitas. Pois – embora possam abrigar em seu interior pessoas de espiritualidade autêntica – estas constituem, na maioria dos casos, o principal obstáculo à experiência espiritual, separando o homem de Deus por uma muralha de dogmas, preconceitos, comportamentos massificados, interesses econômicos e mecanismos de poder.

        Importantes cientistas deste século, como Albert Einstein e Niels Bohr, perceberam que a ciência havia chegado a um ponto que exigia o resgate da perspectiva espiritual. E procuraram nas grandes tradições místico-filosóficas do passado as respostas que o árido materialismo não podia oferecer.

        Há pouco mais de dez anos, durante um encontro realizado em Veneza, intelectuais de renome internacional – da estatura de Abdus Salam (Prêmio Nobel de Física) e Jean Dausset (Prêmio Nobel de Medicina) – assinaram uma declaração conjunta, na qual afirmam que a ciência e as tradições espirituais são complementares e não contraditórias e que o intercâmbio entre elas “abre as portas para uma nova visão da humanidade”. Essas ideias vêm ganhando adeptos por toda parte. Mas ainda surpreendem e escandalizam muita gente. entre os que se opõem a elas, há cientistas de inegável valor, que confundem, porém, o pensamento científico com o materialismo. Se estudassem a fundo a história da ciência, reformulariam seus conceitos, pois foi no seio das tradições espirituais que o saber científico nasceu e se desenvolveu. Os primeiros cientistas do mundo foram os xamãs pré-históricos, que atuavam nas sociedades do período paleolítico como elos de ligação entre o mundo do espírito e o mundo da matéria. Ao longo de milhares de anos de prática intensiva, esses homens de conhecimento acumularam numerosas e sofisticadas informações acerca dos reinos mineral, vegetal e animal; do movimento dos astros e de sua relação com os acontecimentos da Terra; do espaço geográfico e da história dos antepassados; da origem, evolução e cura das doenças; das técnicas para induzir o transe e dos domínios contemplados em estados incomuns de consciência.

        Um longo e sinuoso caminho separa o xamã ancestral do cientista contemporâneo. Seria preciso um livro inteiro – ou mesmo um conjunto de livros – para descrevê-lo. Mas o vínculo entre o espírito e a matéria, corporificado na figura do xamã, começa a ser resgatado na atualidade. Ele aponta para uma nova visão de mundo, capaz de reconciliar a humanidade com a natureza, os homens uns com os outros e o indivíduo consigo mesmo. Esse reencontro talvez venha a ser a grande realização do próximo século. Maior do que as mais extraordinárias promessas da informática, da engenharia genética e da exploração espacial. Devemos somar toda a nossa energia, o nosso afeto, o nosso humor, o nosso talento, a nossa criatividade para tornar esse sonho real. Só então terão sentido as loucas palavras do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900): “Eu vos anuncio o super-homem”.

ARANTES, José Tadeu. Jornalista e professor, editor da revista Galileu/Globo Ciência. (Texto escrito especialmente para este livro).

Fonte: Linguagem Nova. Faraco & Moura. 8ª série. 15ª edição, 2ª impressão. Editora Ática. São Paulo. 2003. p. 196-198.

Entendendo o artigo:

01 – Qual foi o preço pago pela humanidade ao alcançar um extraordinário desenvolvimento científico e tecnológico nos últimos trezentos anos?

      O preço foi a perda da dimensão espiritual da existência. Esse afastamento gerou uma profunda alienação e resultou em um tríplice divórcio: da humanidade com a natureza (crise ecológica), dos homens entre si (crise ética, política, social e econômica) e do indivíduo consigo mesmo (crise psicológica).

02 – A que o autor compara o comportamento humano diante dos poderes da ciência e da tecnologia no segundo parágrafo?

      O autor compara a humanidade ao "aprendiz de feiticeiro" do conto infantil, agindo de forma desastrada e irresponsável por esquecer que a realidade é um tecido único interligado, a ponto de se tornar capaz de extinguir a si própria por meio de armas nucleares ou de um desastre ecológico.

03 – Segundo o texto, a adesão a igrejas ou seitas é garantia de uma espiritualidade autêntica? Por quê?

      Não. O autor afirma que as instituições religiosas muitas vezes constituem o principal obstáculo à experiência espiritual, pois separam o homem de Deus por meio de uma muralha de dogmas, preconceitos, comportamentos massificados, interesses econômicos e mecanismos de poder.

04 – Qual a posição de grandes cientistas citados no texto, como Albert Einstein e Niels Bohr, em relação à ciência e à espiritualidade?

      Eles perceberam que a ciência havia atingido um ponto que exigia o resgate da perspectiva espiritual. Por isso, buscaram nas grandes tradições místico-filosóficas do passado as respostas e o sentido que o materialismo árido não conseguia oferecer.

05 – Qual foi a conclusão da declaração conjunta assinada por intelectuais de renome internacional (como Abdus Salam e Jean Dausset) em Veneza?

      Eles afirmaram que a ciência e as tradições espirituais são complementares e não contraditórias, e que a troca de conhecimentos entre ambas "abre as portas para uma nova visão da humanidade".

06 – Por que, segundo o autor, é um equívoco histórico alguns cientistas associarem o pensamento científico exclusivamente ao materialismo?

      Porque o saber científico nasceu e se desenvolveu no interior das próprias tradições espirituais. O autor exemplifica lembrando que os primeiros cientistas do mundo foram os xamãs pré-históricos, que atuavam como ponte entre o mundo espiritual e o material, acumulando saberes profundos sobre medicina, astronomia e natureza.

07 – O que o autor projeta como a "grande realização do próximo século", superando até mesmo avanços da informática e da engenharia genética?

      A grande realização será o reencontro e a reconciliação entre o vínculo do espírito e da matéria (espiritualidade e razão), capaz de curar as divisões do homem com a natureza, com os seus semelhantes e consigo mesmo, tornando real a promessa de uma humanidade plenamente realizada.

 

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