Reportagem: Crianças na direção – Fragmento
RICARDO KOTSCHO
Nos confins da chapada do Araripe, em
Nova Olinda, cidade sertaneja de 12 mil habitantes, a 580 quilômetros de
Fortaleza (CE), esconde-se um pequeno império de arte e comunicação, a Fundação
Casa Grande-Memorial do Homem Kariri.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh9gRqz4wG9ai3qY3Qj5H0mBwJzS_hTdJgoCggJLAqxD_0BsqJte_YJ3HO5V2w8LYhqt5ZOsB5JSnK0Y9ivX_iT_32zpICWjVC1y4IStAgpmQJs_1pGljAnnxbyz9cha84dlfgB41l3257O-9OWpOF04EaNzPja7U7hlCyRWHEHp6cdVp9Sf-8FZjckw4k/s1600/images.jpg Não chega a ser uma Fundação Roberto
Marinho, mas a Casa Grande é uma ONG que já tem rádio, televisão, jornal,
editora, museu, grupos de teatro e de música. Detalhe: tudo é tocado por 70
crianças e adolescentes da cidade, artistas multimídia com idades que vão dos
três aos 18 anos.
Como dizem lá no sertão, a história
para ser bem entendida tem de ser contada desde o começo. Neste caso, vem de
muito antigamente, de quando foi construída a primeira casa grande nas terras
dos índios kariri, em 1717.
Comprada e reformada em meados do
século passado pela família de Neco Trajano, avô de Francisco Alemberg de
Souza, 36, o Alemberg Quindins, a casa foi abandonada em 1975 e estava servindo
de banheiro público.
Músico e pesquisador, Alemberg rodou o
Brasil por dez anos, trabalhando ao lado da mulher, Rosiane Limaverde, 36,
cantora e percussionista. Em 92, o casal voltou para Nova Olinda. Como
precisasse de um canto para guardar o material recolhido durante as viagens, no
rastro do universo geográfico dos kariri, Alemberg pediu a velha casa à família
e ajuda à prefeitura para restaurá-la.
Quem conta essa história nos mínimos
detalhes aos visitantes que chegam a Nova Olinda são os adolescentes Alderiana
Tavares Siebra e Francisco Cordeiro Teles, os dois com 13 anos. Entre outras
funções, eles são também os guias do museu. "O povo mais antigo foi
contando as histórias para a gente", explica Francisco.
Escola
e trabalho
A ideia de criar a Escola de
Comunicação da Meninada do Sertão surgiu ainda durante as obras, quando algumas
crianças começaram a se interessar pelo trabalho de Alemberg e Rosiane. "O
nosso maior desafio era trocar as enxadas das crianças que largavam a escola para
trabalhar na lavoura pela tecnologia da comunicação", lembra Alemberg.
Além da prefeitura, o projeto foi
ajudado desde o começo pelo Unicef, o que permitiu ao Casa Grande montar os
laboratórios de rádio, televisão e editoração. Outras parcerias foram surgindo
com o governo do Ceará, universidades e, mais recentemente, com o Instituto
Airton Senna.
"Aqui tudo se cria, nada se copia.
Casa Grande FM, a rádio que educa. Amanhã, à uma da tarde em ponto, volto com a
melhor música infantil aqui no programa ‘Submarino Amarelo’. Boa tarde",
anuncia ao microfone a locutora Jossamiris Alves Muniz, 9, ao lado da aprendiz
Ana, 5, filha de Alemberg e Rosiane.
Produção, operação e apresentação, além
das vinhetas montadas em computador, tudo na FM 105.9, que alcança cinco
cidades vizinhas, fica por conta de crianças como Jossamiris.
Há três anos no ar, das 5h às 22h, a
rádio comunitária Casa Grande apresenta o noticiário da cidade, também
preparado pelas crianças, de meia em meia hora. A programação musical vai do
jazz e blues à música clássica, cantoria de viola, MPB e ao forró de pé de
serra. Um dos grandes sucessos é o "Baú do Raul", um programa só com
músicas de Raul Seixas.
Só podem participar das atividades
multimídias crianças e adolescentes que frequentam a escola regular e tiram
boas notas. "Aqui ninguém ganha dinheiro, só se ganha conhecimento. E quem
comanda tudo é a meninada", diz Alemberg, orgulhoso da sua obra, enquanto
caminha pelos bem arborizados jardins da casa. Em volta, atrás de cada porta,
há sempre grupos estudando e trabalhando.
Meires Moreira, 16, gerente da editora,
mostra a uma turma de sete crianças como foram produzidas as 11 publicações da
Casa Grande. "São revistas de histórias em quadrinhos com material
pedagógico, que tratam desde educação sexual até campanha contra o fumo",
diz a jovem. Além disso, a editora já imprimiu 28 edições do
"Karirizinho", jornal quinzenal de circulação interna com tiragem de
dez cópias.
[...]
Toda a comunicação visual dos
diferentes núcleos da Fundação Casa Grande e do Memorial do Homem Kariri foi
desenvolvida pelos próprios meninos e meninas da chapada do Araripe, que
acabaram mesmo trocando a enxada pela tecnologia digital em menos de uma
década.
KOTSCHO, Ricardo. Crianças na direção. Folha de São Paulo, 11 jul. 2001,
p. E1.
Fonte: Linguagem Nova.
Faraco & Moura. 6ª série. 17ª edição, 2ª impressão. Editora Ática. São
Paulo. 2003. p. 96-98.
Entendendo a reportagem:
01
– O que é a Fundação Casa Grande e onde ela está localizada?
A Fundação Casa
Grande-Memorial do Homem Kariri é uma ONG descrita como um "pequeno
império de arte e comunicação" que possui rádio, televisão, jornal,
editora, museu, além de grupos de teatro e música. Ela fica localizada nos
confins da chapada do Araripe, em Nova Olinda, uma cidade sertaneja com 12 mil
habitantes, a 580 quilômetros de Fortaleza (CE).
02
– Quem são os responsáveis por comandar e tocar as atividades da Fundação Casa
Grande?
Todas as atividades e
núcleos da Fundação são tocados por 70 crianças e adolescentes da própria
cidade. Eles atuam como artistas multimídia e suas idades variam dos três aos
18 anos.
03
– Qual era o estado da "casa grande" antes de ser restaurada por
Alemberg Quindins e Rosiane Limaverde?
A casa,
construída originalmente em 1717 nas terras dos índios kariri e reformada no
século passado pelo avô de Alemberg, havia sido abandonada em 1975 e estava
servindo como banheiro público antes da restauração.
04
– Como surgiu a ideia de criar a "Escola de Comunicação da Meninada do
Sertão"?
A ideia surgiu
durante as obras de restauração da velha casa, quando algumas crianças da
região começaram a demonstrar interesse pelo trabalho de pesquisa e
recolhimento de materiais que estava sendo feito por Alemberg e Rosiane.
05
– Qual foi o maior desafio apontado por Alemberg Quindins no início do projeto?
O maior desafio
era social e educativo: consistia em trocar as enxadas das crianças — que
costumavam abandonar a escola regular para trabalhar na lavoura — pela
tecnologia da comunicação.
06
– Quais são os requisitos obrigatórios para que as crianças e adolescentes
possam participar das atividades multimídia da ONG?
De acordo com o texto, só
podem participar das atividades da Fundação Casa Grande os jovens e crianças
que frequentam regularmente a escola tradicional e que tiram boas notas. Além
disso, o trabalho não é remunerado ("ninguém ganha dinheiro, só se ganha
conhecimento").
07
– O que a gerente Meires Moreira, de 16 anos, revela sobre as publicações
produzidas pela editora da Fundação?
Meires explica
que a editora produziu 11 publicações, que consistem em revistas de histórias
em quadrinhos com conteúdo pedagógico, abordando temas importantes como
educação sexual e campanhas contra o fumo. Além disso, a editora também imprime
o "Karirizinho", um jornal quinzenal de circulação interna.
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