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quinta-feira, 4 de junho de 2026

LENDA: DO SENHOR JUSTO DA PIEDADE - GENTIL MARQUES - COM GABARITO

 Lenda: Do Senhor Justo da Piedade

         Como sempre acontece, o espírito do povo joeira e adorna a tradição a seu bel-prazer. Das várias versões que conheço referentes à fundação da igreja do Senhor Jesus da Piedade, em Elvas, prefiro a que vou contar.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi8LaJZvh6IHhZTHLalW-xOxPxUk3Npnv2oBc3WgsxTBnDFpRBdlQZSNUjkcQsX48bcYIS1-hKqnm5OKl6cFugY1Ss5mcBvhyViSBpVpSJWrQezMsHtoAZ2ZV3s5cruErt5s5O9LFWheTt4t_V2XtvLNo1rlZxG9lVrM76AjRPeeIG_sVCSQCLVIPjmRRQ/s320/piedade.png 


        Ali, na estrada praticamente deserta, havia apenas um tosco cruzeiro, a assinalar o caminho. E no cruzeiro, um Cristo batido pelas chuvas e pelos ventos era o único farol de Fé a iluminar os viandantes desnorteados.
        Ora, certa tardinha, vinham por aquela mesma estrada pai e filho, que regressavam de uma romaria. Vinham a discutir.

        — Já te disse, José, que não deves proceder assim. Um rapaz da tua idade tem de portar-se como deve ser. De outro modo irás por mau caminho.

        O rapaz mostrou-se azedo.

        — Sabe que mais? Estou farto dos seus sermões. Fartíssimo! Julga que sou algum gaiato? Já tenho barba na cara, não o esqueça?

        O homem retorquiu, zangado:

        — E isso leva-te a deixares de ser meu filho?

        O rapaz encolheu os ombros.

        — Claro que não. Mas não estou disposto a andar agarrado pelos cueiros, como se fosse um mocinho!

        — E que és tu, afinal, senão uma criança? Pelo menos a maneira como te portaste hoje de manhã assim o prova.

        O rapaz teve outro gesto de enfado.

        — Lá vem o pai outra vez com a mesma história! Que raio! Não sabe falar noutra coisa!

        O sangue subiu às faces do velho.

        — José, tem respeito pelo teu pai! Já tenho alguns anos em cima de mim, mas possuo ainda a mão bastante leve para...

        O rapaz interrompeu-o.

        — Deixe-se de lérias! Isso deve ser do vinho que bebeu a mais...
        A cólera quase superou o homem.

        — Que dizes, tratante? Insinuas que estou bêbedo? Tu é que bebeste demais! Parecias um odre sem fundo. E talvez fosse por isso que me quiseste roubar!

        O rapaz deu um salto de desespero.

        — Que está para aí a dizer? Olhe que a paciência tem limites! Já lhe afirmei que só quero aquilo que é meu! Ou pensa que todo o dinheiro da venda lhe pertence?

        O homem gritou:

        — Pois pertence! Enquanto for vivo, quem governa o dinheiro sou eu!

        — Histórias da carochinha! Já não vou nisso, deixei de andar de olhos tapados! Já sabe: daqui em diante quero o meu dinheiro, para o governar como entender, ouviu bem?

        — Endoideceste?

        — Não, não endoideci quero o meu dinheiro! E que isto fique dito de uma vez para sempre!

        Nesse momento preciso, pai e filho iam passando junto do velho cruzeiro. E aos ouvidos do rapaz soou uma voz semivelada:

        — Teu pai tem razão. És o seu filho. Deves-lhe obediência. Terás de seguir sempre os seus conselhos…

        O rapaz voltou-se, surpreendido.

        — De quem é esta voz? Foi vossemecê quem falou?

        O homem também se mostrou admirado:

        — Falar, eu? Agora não disse nada… Não me deste tempo para isso!
        Mas já o pai escutava, por seu turno, um murmúrio ao seu ouvido:

        — Não sejas severo em demasia com o teu filho. Lembra-te de que já não é criança. Trata-o como um homem igual a ti, e ele compreender-te-á.

        O homem olhou o filho.

        — Quem está aqui a falar?

        — Eu não! Também ouviu uma voz?

        — Ouvi. Mas... aqui não está mais ninguém. A não ser...

        — A não ser o quê?

        Pai e filho olharam a imagem do Cristo de pedra. Mas logo o rapaz retorquiu, enfadado:

        — Não me diga que julga que a fala vem dali.

        E apontava com um arremesso de cabeça a imagem do Cristo.

        — Sabe-se lá!

        — Agora vejo que está realmente bêbedo!
        O pai voltou a gritar:

        — Cala-te, imbecil!

        — Imbecil será vossemecê!

        A cólera tingiu de vermelho as faces do velho.

        — Ainda hoje não te livras de uma sova!

        Num ar rufião, o rapaz provocou-o:

        — Ora experimente!

        Os insultos seguiram-se. Mas continuaram caminhando, deixando para trás o Cristo de pedra. E porque ambos iam toldados pelo vinho, o inevitável aconteceu. O dinheiro voltou a ser o fulcro da discussão. Como o pai negasse, o rapaz fez menção de lho tirar. O primeiro empurrão surgiu. O agredido respondeu. E num instante os dois homens lutavam como se não fossem do mesmo sangue. Como se o próprio vento tivesse ficado surpreendido, uivou na encruzilhada, batendo forte, também, no rosto dos contendores. O velho caiu por terra. O rapaz vencera. Sacou das algibeiras do pai todo o dinheiro e abalou correndo, deixando o pai a gemer dolorosamente.

        Abandonado pelo filho no caminho deserto, o homem levantou-se depois de algum esforço. Chorando copiosamente, voltou para trás até junto do cruzeiro. Aí caiu de joelhos. Soluçava alto, como desvairado. Depois, um pouco mais sereno, sentindo viva a união do seu espírito ao Espírito Divino de Cristo, implorou:

        — Oh meu Jesus! Tu, que também foste homem, abaixa o Teu olhar sobre mim e derrama sobre o velho que hoje sou a Tua Misericórdia! O meu filho, aquele que eu criei, roubou-me e faltou-me ao respeito. É um ladrão e talvez um assassino, pois pouco se lhe dá que eu morra para aqui, abandonado. Não sei voltar à terra onde vivi. Mas não queria morrer sabendo que ele é um ladrão. Salva-me, pois, e salva-o a ele! Salva o meu filho, e eu Te juro que todo o meu dinheiro será para construir aqui, neste local, uma capelinha digna de Ti, ó meu Senhor Jesus! Salva-nos! Desce o Teu olhar sobre nós, ó Jesus de tanta Piedade!

        O vento zuniu mais forte sobre o silêncio que as palavras do homem deixaram ao extinguir-se. Mas logo outras palavras se ouviram:

        — Tem fé, e ser-te-á dada a salvação!

        O homem gritou:

        — Senhor! E ele? E o meu filho?

        A voz tornou, complacente:

        — Escuta o seu apelo... Ele vem implorar-te perdão. Sê razoável...

        Perdoa as ofensas, como desejas que o Pai Celeste perdoe as tuas!

        O homem curvou a cabeça. Chorava. De súbito ouviu-se uma voz que vinha de longe e se aproximava cada vez mais:

        — Pai, meu pai, onde está?... Responda-me, meu pai!

        O coração do homem bateu com violência. E gritou, rouquejando:

        — Filho! Estou aqui... junto ao cruzeiro!

        O rapaz acorreu. Agarrou as mãos do pai e implorou:

        — Por amor de Deus, perdoe-me e esqueça o que fiz! Eu devia estar louco! Se soubesse como sofro!

        O homem encostou a cabeça grisalha ao ombro do filho, chorando. Mal se ouviram as suas palavras de perdão. Por fim, desencostou-se. Já não chorava. Perguntou, movido por uma estranha curiosidade:

        — Filho! Porque voltaste?

        O rapaz respondeu como se estivesse a recordar um sonho:

        — Se soubesse o que me aconteceu! Quando ia a fugir, caí num barranco. Tão alto que nem sei como não me feri. Mas não conseguia sair de lá. De repente, senti medo. Um medo estranho. Tinha a sensação de ter caído vivo no Inferno. Foi nessa altura que me lembrei da voz que ouvi quando passámos por este cruzeiro. Então pedi ao Senhor Jesus que me salvasse, em troca do meu sincero arrependimento!

        Calou-se o rapaz por alguns instantes. Depois, continuou:

        — Mal havia feito este propósito... sem bem saber como... senti forças para erguer-me do barranco e vir até aqui!

        O vento levou até à imagem de pedra do Senhor Jesus esta elevação da alma de um pai agradecido:

        — Obrigado, meu Deus! Obrigado pela Vossa Piedade, meu Senhor Jesus Cristo!

        Pouco tempo depois, a promessa feita em circunstâncias tão dramáticas, num local ermo e batido pelo vento, foi cumprida pelos dois alentejanos. Ali mandaram construir uma capelinha. Mais tarde, essa capela humilde nascida de um voto transformou-se na igreja sumptuosa que hoje existe em Elvas, em memória do Senhor Jesus da Piedade.


Gentil Marques 

Entendendo a lenda:

01 – No início da narrativa, antes do clímax do conflito, pai e filho ouvem uma voz semivelada junto ao cruzeiro. De que maneira os conselhos dados por essa voz individualmente a cada um refletiam a raiz do problema que eles enfrentavam?

        A voz aborda diretamente a falha de postura de ambos no relacionamento familiar. Para o rapaz, a voz reforça a necessidade de respeito e obediência, combatendo a sua soberba e insolência juvenil. Para o pai, o conselho é de moderação, sugerindo que ele reconheça a transição do filho para a idade adulta e evite a severidade excessiva. O conflito existia justamente porque nenhum dos dois conseguia equilibrar esses papéis: o filho exigia independência com agressividade e o pai tentava impor autoridade com base no autoritarismo e no controle financeiro.

02 – O dinheiro é o fulcro (o ponto central) da discussão entre pai e filho. Explique como a questão financeira revela visões de mundo diferentes entre as duas personagens antes da reconciliação.

      O dinheiro simboliza o poder e a transição de autonomia. Para o pai, a gestão do dinheiro representa a manutenção da sua autoridade e liderança familiar ("Enquanto for vivo, quem governa o dinheiro sou eu!"). Para o filho, o dinheiro da venda é o passaporte para a sua independência e a afirmação de que deixou de ser criança. A disputa financeira materializa o choque de gerações, onde o pai se recusa a abrir mão do controle e o filho tenta tomá-lo à força, sem maturidade para dialogar.

03 – Descreva o cenário natural em que a história se passa e disserte sobre como os elementos da natureza (como o vento e a tempestade) funcionam como um espelho do estado psicológico das personagens.

      A lenda se passa em uma estrada praticamente deserta, marcada por um tosco cruzeiro e condições climáticas adversas. Os elementos da natureza funcionam como um reflexo patético da intensidade dramática da cena. Conforme a fúria e o orgulho das personagens aumentam, o vento "uiva na encruzilhada" e bate forte em seus rostos, emoldurando a violência física entre pai e filho. Mais tarde, quando o homem se ajoelha para rezar, o zunido forte do vento sublinha o silêncio e a solidão de seu desespero, mostrando que o ambiente externo acompanha o tumulto interno dos corações dos protagonistas.

04 – Após ser agredido e roubado pelo próprio filho, o pai recorre à oração. Quais são os dois pedidos principais que ele faz ao Senhor Jesus e o que essa prece revela sobre os seus sentimentos paternos?

      O pai pede a sua própria salvação (conforto e direção na solidão) e, principalmente, a salvação de seu filho, implorando para que ele não permaneça no erro como um ladrão ou assassino. Essa prece revela que, apesar da profunda dor, humilhação e violência sofridas, o amor paterno sobrepujou o orgulho e o desejo de vingança. O pai prioriza a restauração moral e espiritual do filho em detrimento da punição, demonstrando um espírito de sacrifício e misericórdia que ecoa a própria figura do Cristo a quem ele roga.

05 – A voz divina impõe uma condição ao pai para que ele receba a salvação que tanto pedia. Que condição é essa e qual a sua importância teológica ou moral dentro do contexto da lenda?

      A voz exige que o pai perdoe as ofensas do filho, utilizando o princípio de que para receber o perdão divino (do Pai Celeste), o ser humano deve primeiro ser capaz de perdoar o seu semelhante ("Perdoa as ofensas, como desejas que o Pai Celeste perdoe as tuas!"). Do ponto de vista moral e teológico, essa condição quebra o ciclo de ódio e violência. Ela estabelece que a verdadeira piedade e a salvação não vêm de barganhas ou promessas puramente materiais, mas sim de uma transformação interna baseada na empatia, no amor e na reconciliação.

06 – O rapaz decide voltar para os braços do pai após viver uma experiência traumática. Explique o que aconteceu com ele durante a fuga e de que forma esse evento operou o seu arrependimento.

      Durante a fuga, o rapaz caiu em um barranco profundo e, embora não tenha se ferido gravemente, viu-se incapaz de sair. O isolamento e a escuridão do local provocaram um medo avassalador, fazendo-o sentir como se tivesse caído "vivo no Inferno". Esse choque de realidade e a vulnerabilidade física desarmaram a sua soberba arrogante. Diante do desespero, ele se lembrou da voz misteriosa do cruzeiro e compreendeu a gravidade do seu ato, convertendo o seu medo em um sincero propósito de arrependimento e pedido de perdão.

07 – A lenda cumpre a função tradicional de explicar a origem de um monumento real. Com base no desfecho do texto, explique a promessa feita e como ela originou a Igreja do Senhor Jesus da Piedade em Elvas.

      No momento de maior desespero, o pai jurou que, se ele e o filho fossem salvos daquela ruína moral e física, utilizaria todo o seu dinheiro para construir uma capelinha digna no exato local do velho cruzeiro. Após a reconciliação milagrosa promovida pela fé, pai e filho cumpriram o voto construindo uma humilde capela naquele ermo alentejano. Com o passar do tempo e a devoção popular, essa estrutura inicial foi ampliada e modificada, transformando-se na "igreja sumptuosa" que hoje existe em Elvas, perpetuando a memória do milagre da piedade e do perdão familiar.

 

 

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