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quarta-feira, 10 de junho de 2026

CONTO: UM CRIME QUASE PERFEITO - PARTE FINAL - ROBERTO ARLT - COM GABARITO

Conto: UM CRIME QUASE PERFEITO – Parte Final

 

        Chamei o garçom, paguei a bebida que não tomara, embarquei num táxi e fui à casa da criada. No quarto, me sentei à frente dela.

        — Olhe-me nos olhos – disse-lhe – e veja bem o que vai responder: a senhora Stevens tomava uísque com gelo ou sem gelo?

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgiodpkbtZDoGkHI_To4Ri4tUIJEOa0BfPgSdnOG42xEKXcoq3D3Je6z8ksKL9YRPN7fONKgfx_93tkSqfer4XQxeDa5GrK0K4KSeXUaYaSywzS5SlBpied1gsrfRT1AAfN4jaJV5io9420ltbhvj7HYy18ErPswOaM8gjKE9bClqbCIOZfaKUTJ_5_s_k/s1600/CRIME.jpg


        —   Com gelo, senhor.

        —  Onde comprava o gelo?

        — Não comprava, senhor. Em casa há uma geladeira pequena que faz gelo em cubinhos – e a criada, como acordando, prosseguiu:      — Agora me lembro, a geladeira estava estragada. Ontem, o senhor Pablo a consertou num instante.

        Uma hora depois nos encontrávamos na residência da senhora Stevens: o químico de nosso laboratório, o técnico da fábrica que vendera a geladeira, o juiz de instrução e eu. O técnico retirou a água do depósito do congelador e vários cubinhos de gelo. O químico iniciou seu trabalho e, minutos depois, disse:

        — A água está envenenada, os cubos também.

        Olhamo-nos, contentes. O mistério tinha terminado.

        Agora era um mero jogo a reconstituição do crime. O doutor Pablo, ao trocar o fusível da geladeira (era este o defeito, segundo o técnico), lançara no congelador certa quantidade de veneno dissolvido em água. Sem suspeitar, a senhora Stevens preparava seu uísque. Retirara um cubinho do congelador (o que explicava o prato com gelo derretido, encontrado na mesa) e o colocara no copo.  Sem imaginar que a morte a esperava em seu vício, passara a ler o jornal, até que, julgando o uísque suficientemente gelado, tomara um gole. Os efeitos não tardaram.

        Faltava prender o veterinário. Em vão o esperamos em sua casa. Ignoravam onde estava. No laboratório da indústria leiteira nos informaram que lá chegaria só às dez da noite.          

        Às onze, o juiz, meu superior e eu nos apresentamos no laboratório da Erpa. O doutor Pablo, quando nos viu em grupo, levantou o braço, como se quisesse anatematizar nossas conclusões. Abriu a boca e despencou ao lado de uma mesa de mármore. Um infarto o matara. Em seu armário estava o frasco do veneno. Foi o assassino mais engenhoso que conheci.

 

ARLT, Roberto. Um crime quase perfeito. Trad. Sérgio Faraco. In: Flávio Moreira Costa (org.) Os 100 melhores contos de crime e mistério da literatura universal. 2.ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. P. 607 – 609.

 

Entendendo o conto:

01 – Qual é afinal, a terceira hipótese para o crime?

      A terceira hipótese é a de que o veneno não havia sido colocado diretamente na bebida, na comida ou no copo, mas sim dentro da água do congelador da geladeira, misturando-se aos cubos de gelo que a vítima usaria mais tarde.

 

02 – Qual a primeira atitude do narrador ao imaginar essa última hipótese para o crime? Por quê?

      A primeira atitude do narrador foi chamar o garçom, pagar a bebida que nem chegou a tomar, pegar um táxi e ir direto à casa da criada da senhora Stevens. Ele fez isso porque precisava confirmar urgentemente se a vítima tomava uísque com gelo e de onde vinha esse gelo.

 

03 – Quem se tornou o suspeito número um? Explique por que razão.

      O doutor Pablo tornou-se o suspeito número um. A razão é que a criada revelou que a geladeira estava estragada e que ele a havia "consertado" no dia anterior. Isso deu a ele a oportunidade perfeita para colocar o veneno na água do congelador sem que ninguém desconfiasse.

 

04 – A reconstituição é a história do crime contada de acordo com uma hipótese baseada em fortes evidências. Explique com suas palavras como o crime foi cometido.

      O doutor Pablo foi até a casa da vítima com o pretexto de consertar a geladeira (que era apenas um fusível queimado). Enquanto fazia o conserto, ele jogou veneno dissolvido na água do depósito do congelador. Mais tarde, sem saber de nada, a senhora Stevens preparou seu uísque e colocou um cubo daquele gelo envenenado no copo. Enquanto ela lia o jornal, o gelo derreteu, liberando o veneno na bebida. Ao dar o primeiro gole, ela morreu.

 

05 – Em que lugares o assassino foi procurado?

      Ele foi procurado primeiro em sua própria casa e, como não estava lá, foi procurado e encontrado no laboratório da indústria leiteira (Erpa), onde trabalhava.

 

06 – O assassino foi preso? O que aconteceu?

      Não, ele não chegou a ser preso pelas autoridades. Ao ver o narrador, o juiz e o superior entrando juntos no laboratório, o doutor Pablo percebeu que havia sido descoberto, teve um infarto fulminante e caiu morto ali mesmo.

 

07 – Onde foi encontrado o envoltório do veneno?

      O frasco contendo o veneno foi encontrado dentro do armário do doutor Pablo, no laboratório.

 

08 – Podemos dizer que o final foi surpreendente? Por quê?

      Sim, por dois motivos principais: primeiro, pela engenhosidade do crime (o veneno estava escondido no gelo, algo difícil de rastrear antes de derreter); e segundo, pelo destino do assassino, que morreu de causas naturais (um ataque cardíaco provocado pelo susto/pressão de ser pego) segundos antes de receber a voz de prisão, frustrando o desfecho tradicional de um julgamento.

 

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