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quarta-feira, 10 de junho de 2026

CONTO: UM CRIME QUASE PERFEITO - 2ª PARTE - ROBERTO ARLT - COM GABARITO

 Conto: Um crime quase perfeito – 2ª parte

 

      E havia outra questão: os irmãos da morta eram três malandros.  Os três, em menos de dez anos, tinham posto fora os bens herdados dos pais, e seus atuais rendimentos não eram satisfatórios: Juan trabalhava como ajudante de um advogado especializado em divórcios. Mais de uma vez sua conduta anterior se mostrara suspeita, dando margem à presunção de chantagem. Esteban era corretor de seguros e havia feito um seguro para sua irmã, sendo ele mesmo o beneficiário. Quanto a Pablo: era veterinário, mas tivera seu registro profissional cancelado pela justiça após ser condenado por dopar cavalos. Para não morrer de fome empregara-se na indústria leiteira, no setor de análises.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhgAwwyVdrnDcmqWgn2H7oDID9yLE6FJHtAVHXkE0ICxp2ZfR_pW2c_3tqRt89oUYo1ZUaYBOPAbuBDuIARjFzPlwDmGYa_5L9W8K9mtBYLYAuIpYMCSC8dp80reR9kRAaqY_AALX3YiIQqi_FrIb_rU_0wC3A0DZEzOWaq5DN5vg5RehLCxi8hpvJR7MA/s1600/CRIME.jpg


        Assim eram os irmãos.

        Já a senhora Stevens tinha enviuvado três vezes. No dia de seu “suicídio” estava completando 68 anos, mas era uma mulher extraordinariamente conservada, corpulenta, forte, enérgica, de cabelos viçosos, e tinha condições de pretender novo casamento. Dirigia a casa com alegria e pulso firme. Adepta dos prazeres da mesa, sua despensa estava magnificamente provida de vinhos e comestíveis, e não há dúvida de que, sem aquele “acidente”, teria vivido cem anos. Supor que uma mulher como ela seria capaz de suicidar-se era desconhecer a natureza humana. Sua morte beneficiaria cada um dos três irmãos com duzentos e trinta mil pesos.

        O cadáver foi descoberto pelo porteiro e pela criada às sete da manhã, quando esta, não conseguindo abrir a porta, que estava trancada por dentro, chamou o homem para ajudá-la. Às onze da manhã, como creio ter dito anteriormente, estava em nosso poder a informação do laboratório. Às três da tarde, eu deixava o quarto em que estava detida a empregada, em sua própria casa, com uma ideia na cabeça: o assassino arrancara um vidro da janela para entrar na casa e após deitar veneno ao copo recolocara o vidro no lugar. Era uma fantasia de romance policial, mas convinha verificar a hipótese.

      Saí da residência da senhora Stevens decepcionado. Minha especulação era falsa. A massa dos vidros não tinha sido removida.

      Decidi caminhar e pensar um pouco, o “suicídio” da senhora Stevens me preocupava bastante. Não policialmente, mas, diria, esportivamente. Estava diante de um sagaz, possivelmente um dos três irmãos, que se valera de um expediente simples e ao mesmo tempo misterioso, impossível de ser detectado na nitidez daquele vazio.

      Absorvido em minhas conjeturas, entrei num café, tão ausente do mundo que, embora detestasse bebidas alcoólicas, pedi um uísque. Quanto tempo esteve a bebida, sem ser tocada, diante dos meus olhos? Não sei. De repente, vi o copo de uísque, a garrafa d'água, o pratinho com gelo. Atônito, fiquei olhando aquilo. Uma hipótese dava grandes saltos no meu cérebro.

 

ARLT, Roberto. Um crime quase perfeito. Parte 1. Trad. Sérgio Faraco. In: Flávio Moreira Costa (org.) Os 100 melhores contos de crime e mistério da literatura universal. 2.ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. P. 607 – 609.

Entendendo o conto:


01 – Como a vítima é descrita física e psicologicamente?

      Fisicamente: A senhora Stevens, apesar de ter 68 anos, era uma mulher "extraordinariamente conservada, corpulenta, forte, enérgica, de cabelos viçosos".

      Psicologicamente: Era alegre, dirigia sua casa com "pulso firme" e era uma apreciadora dos prazeres da mesa (gostava de comer e beber bem). O texto ressalta que ela tinha tanta vitalidade que poderia viver até os cem anos.


02 – Qual era a situação dos irmãos da vítima? Essa situação fez deles suspeitos em potencial. Por quê?

      A situação financeira e moral dos irmãos era péssima: os três eram chamados de "malandros", tinham gastado toda a herança dos pais em menos de dez anos e possuíam históricos duvidosos. Eles se tornaram suspeitos em potencial por dois grandes motivos:

      O ganho financeiro: Cada um receberia uma fortuna de 230 mil pesos com a morte dela.

      Os históricos e profissões: Juan trabalhava com divórcios e já era suspeito de chantagem; Esteban era corretor e tinha feito um seguro de vida para a irmã, sendo ele mesmo o beneficiário; e Pablo era um veterinário cassado por dopar cavalos, que agora trabalhava analisando leite (ou seja, tinha acesso a substâncias químicas / venenos).

 

03 – No terceiro parágrafo desse trecho, o narrador apresenta evidências que enfraquecem a hipótese de suicídio. Quais são elas?

      As evidências são o próprio perfil e o comportamento da vítima: ela era uma mulher cheia de vida, alegre, enérgica, saudável, que comandava a casa com firmeza e tinha planos inclusive de se casar novamente. O narrador afirma que "supor que uma mulher como ela seria capaz de suicidar-se era desconhecer a natureza humana".


04 – Onde a criada ficou detida?

      A criada ficou detida em sua própria casa, no quarto onde o narrador a estava interrogando.


05 – Quem descobriu o cadáver da vítima? Onde ele foi encontrado?  

      O cadáver foi descoberto pelo porteiro e pela criada às sete horas da manhã. Ele foi encontrado dentro da casa da senhora Stevens, em um quarto cuja porta estava trancada por dentro.     

                                                  

06 – Nesse ponto da narrativa, o policial cogita uma segunda hipótese. Qual é essa hipótese? Ela se confirma? Por quê?

      A segunda hipótese do policial (que ele mesmo chama de "fantasia de romance policial") era a de que o assassino teria retirado um vidro da janela para entrar na casa, colocado o veneno no copo e depois recolocado o vidro perfeitamente no lugar usando massa de vidraceiro. Ela não se confirma, pois ao examinar o local, o detetive percebeu que a massa dos vidros da janela estava intacta e não tinha sido removida.


07 – O narrador utiliza a palavra suicídio entre aspas. Por quê?

      Ele usa aspas porque a polícia e as primeiras aparências tratavam o caso formalmente como "suicídio" (já que a porta estava trancada por dentro), mas o detetive, no fundo, já sabia ou desconfiava fortemente de que se tratava de um assassinato disfarçado. As aspas servem para ironizar ou questionar essa versão oficial.


08 – Vamos pensar nos suspeitos? Releia as duas partes do conto para completar os espaços que estão em branco. Tenha em mente duas hipóteses: a de suicídio e a de assassinato. Seja fiel ao texto. 

      Vítima: Senhora Stevens (68 anos, viúva três vezes, rica, cheia de vida).

      Hipótese de Suicídio (Falsa): Parecia real porque o quarto estava trancada por dentro, e foi encontrado um copo com veneno e um prato com gelo derretido na mesa.

      Hipótese de Assassinato (Verdadeira): Cometido por envenenamento por meio do gelo da geladeira.

      Suspeito 1 (Juan): Ajudante de advogado, suspeito de chantagem. Motivo: Ganhar 230 mil pesos.

      Suspeito 2 (Esteban): Corretor de seguros, fez uma apólice para a irmã sendo ele o beneficiário. Motivo: Ganhar os 230 mil pesos da herança + o seguro.

      Suspeito 3 (Pablo – Culpado): Veterinário cassado por dopar cavalos, trabalhava com análises na indústria leiteira. Motivo: Dinheiro. Oportunidade: "Consertou" a geladeira da irmã no dia anterior, jogando veneno na água do congelador.

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