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sexta-feira, 22 de maio de 2026

CONTO CHINESES: REMÉDIO PARA CAVALO - SÉRGIO CAPPARELLI - COM GABARITO

 Conto: Remédio para cavalo

        Em Urumqi, um taoísta vendia remédios no mercado e algumas pessoas diziam:

        — Esse aí é feiticeiro. E dos grandes!

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhlsNSzSkEZozW_YvGP321Ue7qNMoMi-ncjVfiMGlaS4hmGPONAOIlkKTvYQUpz3tyR5C3YPhmW8QrJ_ekAhNRdICzfN7QfR4o2LprA8zY1QWR-9cS8_nEHB-QifQ__wE4VK4UyP89FLlvRm3RsmUdkYmHB77ITJ2vPNCc6CYFWdJKc_tl8kh6SL914b38/s1600/CHINES.jpg


        Ele tinha sido visto em um albergue e, pouco antes de dormir, abriu uma bolsa que trazia na cintura. De dentro da bolsa tirou uma menor. E nessa menor, pegou dois comprimidos de cor escura. Imediatamente duas mulheres belíssimas apareceram no quarto para dormir com ele. Elas só deixaram o quarto de madrugada.
No dia seguinte, alguém perguntou como tudo tinha acontecido. Ele fez cara de desentendido. Negou de pé junto que soubesse alguma coisa.

        Eu me lembro de ter lido nos “Trabalhos Ininterruptos”, de Zhou Yuexi, uma explicação de que pessoas como esse monge taoísta são “caçadores de almas”. Como essa magia perde a eficácia se a pessoa comer carne de cavalo, e como um cavalo acabava de morrer na guarnição, enviei um ajudante com instruções secretas ao dono do albergue. Ele devia dizer ao taoísta que havia boa carne de cavalo e que ele estava convidado para comer um pouco.

        O taoísta moveu a cabeça de um lado para o outro.

        — Carne de cavalo? Claro que não — disse.

        Isso reforçou minhas suspeitas e decidi tomar providências.
Meu colega, general Chen Tiqiao, foi contra:

        — Que moças estejam com o taoísta é impossível saber, porque você não viu com seus próprios olhos. E não viu igualmente se ele come ou não carne de cavalo. Fiar-se a boatos não verificados para abrir um processo às pressas me parece perigoso. Nessa região, não se tem o direito de prender um indivíduo com base apenas na suspeita: melhor pedir a repartição competente para expulsá-lo do território e o assunto fica resolvido.

        Estava pensando nos passos a dar quando o general Wen soube da história e disse:

        — Querer ir a fundo nessa questão é ir longe demais.

        Suponhamos que por medo de castigo esse homem confesse qualquer coisa. O assunto ficaria então muito grave e seria preciso tomar outras providências.

        Como não existe nenhuma prova ainda, como fazer para pôr um fim nisso? Expulsá-lo do território não resolve, por que ele vai para outro lugar, dá um golpe e declara que viveu durante muito tempo em Urumqi. Quem ficaria com a responsabilidade?

        Todas as guarnições devem interrogar, investigar, examinar todos os indivíduos de comportamento suspeito. Se existem provas reais, ele será entregue à autoridade competente. Caso contrário, melhor enviá-lo ao lugar de onde ele veio, para que ele não engane o povo. Não é uma boa solução?

        Nós ficamos admirados com a sabedoria dos senhores generais.

Contos Chineses. Sérgio Capparelli.

Entendendo o conto:

 

01 – Qual foi o acontecimento misterioso presenciado no albergue que levou o povo de Urumqi a suspeitar que o monge taoísta era um grande feiticeiro?

      As suspeitas começaram quando o taoísta foi visto no albergue a abrir uma pequena bolsa que trazia na cintura e a retirar dela dois comprimidos de cor escura. Imediatamente após esse ato, duas mulheres belíssimas apareceram no seu quarto para passar a noite com ele, desaparecendo misteriosamente apenas de madrugada.

02 – Com base na leitura de "Trabalhos Ininterruptos", o narrador suspeita que o monge seja um "caçador de almas". Qual foi o teste estratégico elaborado pelo narrador para confirmar essa suspeita e qual foi a reação do taoísta?

      O narrador sabia que a magia de um "caçador de almas" perdia totalmente a eficácia se a pessoa consumisse carne de cavalo. Aproveitando que um cavalo tinha acabado de morrer na guarnição, ele enviou um ajudante com instruções secretas para convidar o monge a comer a carne. O taoísta, contudo, recusou o convite abanando a cabeça, o que reforçou as suspeitas de que ele evitava o alimento para proteger os seus poderes mágicos.

03 – O general Chen Tiqiao posicionou-se contra a abertura imediata de um processo contra o taoísta. Quais foram os argumentos legais e práticos que ele utilizou?

      O general Chen Tiqiao argumentou que o narrador não tinha visto as mulheres nem a recusa da carne com os próprios olhos, tratando-se apenas de boatos não verificados. Ele alertou que, naquela região, era perigoso e ilegal prender alguém com base apenas em suspeitas. Por isso, sugeriu uma medida mais rápida e prática: pedir à repartição competente para expulsar o monge do território, encerrando o assunto.

04 – O general Wen discordou da simples expulsão do monge e propôs uma visão diferente sobre a responsabilidade das autoridades. Qual era o receio dele em relação à expulsão e o que ele sugeriu fazer?

      O general Wen temia que, ao ser simplesmente expulso, o monge fosse para outra região aplicar golpes usando o nome de Urumqi como referência, o que mancharia a reputação da guarnição. Ele sugeriu que todas as guarnições fizessem um interrogatório e exame minucioso. Se houvesse provas reais, ele seria entregue à justiça; caso contrário, o melhor seria enviá-lo de volta diretamente para a sua terra natal, impedindo-o de continuar a enganar o povo em outros territórios.

05 – O conto termina com o narrador e os outros personagens admirados com a "sabedoria dos senhores generais". O que essa conclusão revela sobre a forma como a justiça e a burocracia eram conduzidas naquela região?

      A conclusão revela uma administração que valorizava a prudência, a ordem e o bom senso em detrimento do impulso ou da superstição. Em vez de iniciarem uma caça às bruxas com base em feitiçaria e boatos, os generais preferiram adotar uma postura burocrática e preventiva, focada na segurança pública, na verificação de provas reais e na devolução do suspeito ao seu local de origem para evitar problemas futuros.

 

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