Conto: Remédio para cavalo
Em Urumqi, um taoísta vendia remédios no mercado e algumas
pessoas diziam:
—
Esse aí é feiticeiro. E dos grandes!
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhlsNSzSkEZozW_YvGP321Ue7qNMoMi-ncjVfiMGlaS4hmGPONAOIlkKTvYQUpz3tyR5C3YPhmW8QrJ_ekAhNRdICzfN7QfR4o2LprA8zY1QWR-9cS8_nEHB-QifQ__wE4VK4UyP89FLlvRm3RsmUdkYmHB77ITJ2vPNCc6CYFWdJKc_tl8kh6SL914b38/s1600/CHINES.jpg Ele
tinha sido visto em um albergue e, pouco antes de dormir, abriu uma bolsa que trazia
na cintura. De dentro da bolsa tirou uma menor. E nessa menor, pegou dois
comprimidos de cor escura. Imediatamente duas mulheres belíssimas apareceram no
quarto para dormir com ele. Elas só deixaram o quarto de madrugada.
No dia seguinte, alguém perguntou como tudo tinha acontecido. Ele fez cara de
desentendido. Negou de pé junto que soubesse alguma coisa.
Eu
me lembro de ter lido nos “Trabalhos Ininterruptos”, de Zhou Yuexi, uma
explicação de que pessoas como esse monge taoísta são “caçadores de almas”.
Como essa magia perde a eficácia se a pessoa comer carne de cavalo, e como um
cavalo acabava de morrer na guarnição, enviei um ajudante com instruções
secretas ao dono do albergue. Ele devia dizer ao taoísta que havia boa carne de
cavalo e que ele estava convidado para comer um pouco.
O
taoísta moveu a cabeça de um lado para o outro.
—
Carne de cavalo? Claro que não — disse.
Isso
reforçou minhas suspeitas e decidi tomar providências.
Meu colega, general Chen Tiqiao, foi contra:
—
Que moças estejam com o taoísta é impossível saber, porque você não viu com
seus próprios olhos. E não viu igualmente se ele come ou não carne de cavalo.
Fiar-se a boatos não verificados para abrir um processo às pressas me parece
perigoso. Nessa região, não se tem o direito de prender um indivíduo com base
apenas na suspeita: melhor pedir a repartição competente para expulsá-lo do
território e o assunto fica resolvido.
Estava
pensando nos passos a dar quando o general Wen soube da história e disse:
—
Querer ir a fundo nessa questão é ir longe demais.
Suponhamos
que por medo de castigo esse homem confesse qualquer coisa. O assunto ficaria
então muito grave e seria preciso tomar outras providências.
Como
não existe nenhuma prova ainda, como fazer para pôr um fim nisso? Expulsá-lo do
território não resolve, por que ele vai para outro lugar, dá um golpe e declara
que viveu durante muito tempo em Urumqi. Quem ficaria com a responsabilidade?
Todas
as guarnições devem interrogar, investigar, examinar todos os indivíduos de
comportamento suspeito. Se existem provas reais, ele será entregue à autoridade
competente. Caso contrário, melhor enviá-lo ao lugar de onde ele veio, para que
ele não engane o povo. Não é uma boa solução?
Nós
ficamos admirados com a sabedoria dos senhores generais.
Contos Chineses. Sérgio Capparelli.
Entendendo o conto:
01 – Qual foi o
acontecimento misterioso presenciado no albergue que levou o povo de Urumqi a
suspeitar que o monge taoísta era um grande feiticeiro?
As suspeitas
começaram quando o taoísta foi visto no albergue a abrir uma pequena bolsa que
trazia na cintura e a retirar dela dois comprimidos de cor escura.
Imediatamente após esse ato, duas mulheres belíssimas apareceram no seu quarto
para passar a noite com ele, desaparecendo misteriosamente apenas de madrugada.
02 – Com base na
leitura de "Trabalhos Ininterruptos", o narrador suspeita que o monge
seja um "caçador de almas". Qual foi o teste estratégico elaborado
pelo narrador para confirmar essa suspeita e qual foi a reação do taoísta?
O narrador sabia
que a magia de um "caçador de almas" perdia totalmente a eficácia se
a pessoa consumisse carne de cavalo. Aproveitando que um cavalo tinha acabado
de morrer na guarnição, ele enviou um ajudante com instruções secretas para
convidar o monge a comer a carne. O taoísta, contudo, recusou o convite
abanando a cabeça, o que reforçou as suspeitas de que ele evitava o alimento
para proteger os seus poderes mágicos.
03 – O general Chen
Tiqiao posicionou-se contra a abertura imediata de um processo contra o
taoísta. Quais foram os argumentos legais e práticos que ele utilizou?
O general Chen
Tiqiao argumentou que o narrador não tinha visto as mulheres nem a recusa da
carne com os próprios olhos, tratando-se apenas de boatos não verificados. Ele
alertou que, naquela região, era perigoso e ilegal prender alguém com base
apenas em suspeitas. Por isso, sugeriu uma medida mais rápida e prática: pedir
à repartição competente para expulsar o monge do território, encerrando o
assunto.
04 – O general Wen
discordou da simples expulsão do monge e propôs uma visão diferente sobre a
responsabilidade das autoridades. Qual era o receio dele em relação à expulsão
e o que ele sugeriu fazer?
O general Wen
temia que, ao ser simplesmente expulso, o monge fosse para outra região aplicar
golpes usando o nome de Urumqi como referência, o que mancharia a reputação da
guarnição. Ele sugeriu que todas as guarnições fizessem um interrogatório e
exame minucioso. Se houvesse provas reais, ele seria entregue à justiça; caso
contrário, o melhor seria enviá-lo de volta diretamente para a sua terra natal,
impedindo-o de continuar a enganar o povo em outros territórios.
05 – O conto termina
com o narrador e os outros personagens admirados com a "sabedoria dos
senhores generais". O que essa conclusão revela sobre a forma como a
justiça e a burocracia eram conduzidas naquela região?
A conclusão
revela uma administração que valorizava a prudência, a ordem e o bom senso em
detrimento do impulso ou da superstição. Em vez de iniciarem uma caça às bruxas
com base em feitiçaria e boatos, os generais preferiram adotar uma postura
burocrática e preventiva, focada na segurança pública, na verificação de provas
reais e na devolução do suspeito ao seu local de origem para evitar problemas
futuros.
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