Artigo de opinião: A RAIVA DE SER ÍNDIO – Fragmento
Por Daniel
Munduruku
A gente não pede para nascer, apenas
nasce. Alguns nascem ricos, outros pobres; outros brancos, outros negros; uns
nascem num país onde faz muito frio, outros em terras quentes; enfim, nós não
temos muita opção mesmo. O fato é que, quando a gente percebe, já nasceu.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjEjOWdQyQCmU06vPCfzxHC4_EdwNrED0JeRLYC1DNQxFH26k_azznE5DoeVYqDyKOLcLX2CXMi86HUZ7f5VaYWIkf8jrwiEdghUuLo0jfIGRg4mHGv2LoZdgzbheTrk3hllcMdTf-_XqHh4xY6JDFUoLqegBk9bVVGwuOhraCjogMnppWDu3Ewi_5t0po/s1600/INDIO.jpg Eu nasci índio. Mas não nasci como
nascem todos os índios. Não nasci numa aldeia, rodeada de mato por todo lado.
com um rio onde as pessoas pescam peixe quase com a mão de tão límpida que
é a água. Não nasci dentro de uma Uk’a Munduruku. Eu nasci na cidade. Acho que
dentro de um hospital. E nasci numa cidade onde a maioria das pessoas se parece
com índio: Belém do Pará.
[...]
Só não gostava de uma coisa: que me
chamassem de índio. Não. Tudo menos isso! Para meu desespero, nasci com cara de
índio, cabelo de índio (apesar de um pouco loiro), tamanho de índio. Quando
entrei na escola primária, então, foi um deus-nos-acuda. Todo mundo vivia
dizendo: “Olha o índio que chegou à nossa escola”.
Meus primeiros colegas logo, logo se
aproveitaram pra me colocar o apelido de Aritana. Não precisa me dizer que
isso me deixou fulo da vida e foi um dos principais motivos das brigas nessa
fase da minha história – e não foram poucas brigas, não. Ao contrário, briguei
muito e, é claro, apanhei muito também.
E por que eu não gostava que em
chamassem de índio? Por causa das ideias e imagens que essa palavra trazia.
Chamar alguém de índio era classificá-lo como atrasado, selvagem, preguiçoso.
E, como já contei, eu era uma pessoa
trabalhadora que que ajudava meus pais e meus irmãos e isso era uma honra para
mim. Mas era uma honra que ninguém levava em consideração. Para meus colegas só
contava a aparência… e não o que eu era e fazia.
[...]
Daniel Munduruku. A
RAIVA DE SER ÍNDIO. 15.01.2017. https://www.xapuri.info/cultura/daniel-munduruku-indio/.
Fonte: Coleção Rotas.
Língua Portuguesa. Ensino fundamental. Anos finais. 8º ano/Sandra Moura
Severino (org.) – Brasília – Editora Edebê Brasil, 2020. p. 302.
Entendendo o artigo:
01
– Onde o autor nasceu e por que ele afirma que não nasceu "como nascem
todos os índios"?
Daniel Munduruku
nasceu na cidade (provavelmente em um hospital em Belém do Pará), e não em uma
aldeia cercada de mato, rios límpidos ou dentro de uma Uk’a (casa) tradicional
Munduruku. Ele destaca essa diferença para mostrar que a identidade indígena não
está presa apenas ao cenário da floresta.
02
– Qual era o sentimento do autor em relação à palavra "índio" durante
sua infância?
Ele sentia
rejeição e "desespero" ao ser chamado de índio. Embora reconhecesse
suas características físicas (rosto, cabelo e tamanho), ele não aceitava o
rótulo e chegava a brigar frequentemente com os colegas por causa disso.
03
– Por que o apelido "Aritana" causava tanta irritação no autor?
O apelido era
usado pelos colegas de escola como uma forma de reforçar o estereótipo e a
exclusão. Para o autor, ser chamado por nomes que remetiam à sua origem
indígena era o principal motivo de suas brigas, pois ele sentia que sua
identidade estava sendo usada contra ele.
04
– Segundo o texto, quais eram os preconceitos carregados pela palavra
"índio" naquela época?
O autor não
gostava do termo porque, na visão da sociedade da época, chamar alguém de índio
era o mesmo que classificá-lo como atrasado, selvagem e preguiçoso. Eram
imagens negativas que não correspondiam à realidade de quem ele era.
05
– Qual era o conflito entre a "aparência" do autor e o seu
"comportamento" perante os colegas?
Enquanto os
colegas o julgavam apenas pela aparência indígena (associando-a à preguiça), o
autor se considerava uma pessoa muito trabalhadora que ajudava seus pais e
irmãos. Ele sentia que sua honra e suas ações não eram levadas em consideração,
pois o preconceito dos colegas era baseado apenas em estereótipos visuais.
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