Política de Privacidade

domingo, 22 de março de 2026

CRÔNICA DA ABOLIÇÃO - MACHADO DE ASSIS - COM GABARITO

 Crônica da abolição

Machado de Assis

 Eu pertenço a uma família de profetas “après coup”*, “post factum”, “depois do gato morto”, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, juro se necessário for, que toda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhtmy9sD277cbnrjwVJl-qr9tNxUk-2eysCjiCcxOhe-th2iqnYtZtEzxknbH7EkOOwY_iiBxyxPIsLuc155lc2fCAkioM6XZ0TtbguyJLctYDVChL1dHmRhXIjQsLtGlsHPs4Qqra7YJOMqtIfAJIVWUdkJynUQeWk89r446aHdxrv-5RhojEAPpXSTG8/s320/Praca-Quinze-Rio-de-Janeiro-Jean-Baptiste-Debret.jpg


Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.

No golpe do meio (“coupe do milieu”, mas eu prefiro falar a minha língua) levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que, acompanhando as ideias pregadas por Cristo há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas ideias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus que os homens não podiam roubar sem pecado.

Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça e pediu à ilustre assembleia que correspondesse ao ato que acabava de publicar brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo: fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.

No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:

            — Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida, e tens mais um ordenado, um ordenado que...

            — Oh! meu senhô! Fico.

            — Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo: tu cresceste imensamente.

Quando nasceste eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos...

            — Artura não qué dizê nada, não, senhô...

            — Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis: mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.

            — Eu vaio um galo, sim, senhô.

            — Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.

Pancrácio aceitou tudo: aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.

Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio: daí para cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas todas que ele recebe humildemente e (Deus me perdoe!) creio que até alegre. [...]

MACHADO DE ASSIS

http://portal.mec.gov.br 

Entendendo o texto

01. Por que o narrador decide alforriar (libertar) o jovem Pancrácio na segunda-feira antes da lei ser votada?

a. Porque ele sempre foi contra a escravidão e esperava por esse momento.

b. Para parecer um "profeta" que previu a lei e ganhar fama de bondoso antes dos outros.

c. Porque Pancrácio pediu a liberdade para poder se casar.

d. Porque ele não tinha mais dinheiro para sustentar o escravo.

02. Como foi a comemoração da liberdade de Pancrácio organizada pelo patrão?

a. Uma festa simples apenas para a família na cozinha.

b. Uma missa na igreja da cidade em agradecimento a Deus.

c. Um dia de folga para que Pancrácio pudesse visitar seus parentes.

d. Um jantar solene, chamado de banquete, com discursos e brindes de champanhe.

03. O que o narrador ofereceu a Pancrácio para que ele continuasse trabalhando na casa após ser libertado?

a. Uma sociedade nos negócios da família.

b. Apenas moradia e comida, sem pagamento em dinheiro.

c. Um pequeno ordenado (salário), que ele disse que poderia crescer no futuro.

d. Uma casa própria nos fundos do terreno.

04. No dia seguinte à liberdade, o narrador dá um "peteleco" em Pancrácio. Qual foi a justificativa dada pelo patrão para esse ato?

a. Ele afirmou que era um "impulso natural" e que isso não tirava o direito civil de liberdade de Pancrácio.

b. Ele disse que o peteleco era uma forma de carinho.

c. Ele alegou que Pancrácio o havia agredido primeiro.

d. Ele disse que agora que Pancrácio era livre, precisava apanhar para aprender a trabalhar.

05. Qual é a principal ironia presente no final do texto, quando o narrador fala sobre os chutes e puxões de orelha que dá em Pancrácio?

a. A ironia de que Pancrácio agora é quem manda no patrão.

b. A ironia de que, embora Pancrácio seja legalmente livre, a sua condição de vida e o tratamento agressivo do patrão continuam os mesmos.

c. A ironia de que o patrão ficou pobre após libertar o escravo.

d. A ironia de que Pancrácio ficou muito rico com o salário que recebeu.

06. Como Pancrácio reage ao tratamento do patrão (pontapés e insultos) após a abolição, segundo o narrador?

a. Ele reage com violência e tenta bater no patrão.

b. Ele decide ir embora da casa imediatamente.

c. Ele recebe tudo humildemente e o narrador acredita que ele fica até alegre.

d. Ele denuncia o patrão para as autoridades da época.

07. O que Machado de Assis pretende criticar com esta crônica?

a. A rapidez com que a Lei Áurea foi aprovada.

b. O comportamento de pessoas que se diziam "boazinhas" e abolicionistas, mas mantinham preconceitos e práticas violentas.

c. A falta de festas e banquetes na cidade do Rio de Janeiro.

d. A dificuldade de se encontrar bons empregados domésticos naquela época.

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário