Crônica da abolição
Machado de Assis
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhtmy9sD277cbnrjwVJl-qr9tNxUk-2eysCjiCcxOhe-th2iqnYtZtEzxknbH7EkOOwY_iiBxyxPIsLuc155lc2fCAkioM6XZ0TtbguyJLctYDVChL1dHmRhXIjQsLtGlsHPs4Qqra7YJOMqtIfAJIVWUdkJynUQeWk89r446aHdxrv-5RhojEAPpXSTG8/s320/Praca-Quinze-Rio-de-Janeiro-Jean-Baptiste-Debret.jpgNeste jantar, a que meus amigos deram o nome de
banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as
notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um
aspecto simbólico.
No golpe do meio (“coupe do milieu”, mas eu
prefiro falar a minha língua) levantei-me eu com a taça de champanha e declarei
que, acompanhando as ideias pregadas por Cristo há dezoito séculos, restituía a
liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia
acompanhar as mesmas ideias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade
era um dom de Deus que os homens não podiam roubar sem pecado.
Pancrácio, que estava à espreita, entrou na
sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que
é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça e pediu à ilustre assembleia que
correspondesse ao ato que acabava de publicar brindando ao primeiro dos
cariocas. Ouvi cabisbaixo: fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta
ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí
na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão
pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.
No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe
com rara franqueza:
—
Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida, e
tens mais um ordenado, um ordenado que...
—
Oh! meu senhô! Fico.
—
Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo: tu
cresceste imensamente.
Quando nasceste eras um pirralho deste tamanho;
hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos...
—
Artura não qué dizê nada, não, senhô...
—
Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis: mas é de grão em grão que a
galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.
—
Eu vaio um galo, sim, senhô.
—
Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com
oito. Oito ou sete.
Pancrácio aceitou tudo: aceitou até um peteleco
que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da
liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não
podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele
continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.
Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio: daí para
cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e
chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas todas que ele
recebe humildemente e (Deus me perdoe!) creio que até alegre. [...]
MACHADO DE ASSIS
Entendendo o texto
01. Por que o narrador
decide alforriar (libertar) o jovem Pancrácio na segunda-feira antes da lei ser
votada?
a.
Porque ele sempre foi contra a escravidão e esperava por esse momento.
b. Para parecer um "profeta" que previu a lei e ganhar
fama de bondoso antes dos outros.
c.
Porque Pancrácio pediu a liberdade para poder se casar.
d.
Porque ele não tinha mais dinheiro para sustentar o escravo.
02. Como foi a comemoração
da liberdade de Pancrácio organizada pelo patrão?
a.
Uma festa simples apenas para a família na cozinha.
b.
Uma missa na igreja da cidade em agradecimento a Deus.
c.
Um dia de folga para que Pancrácio pudesse visitar seus parentes.
d. Um jantar solene, chamado de banquete, com discursos e brindes de
champanhe.
03. O que o narrador
ofereceu a Pancrácio para que ele continuasse trabalhando na casa após ser
libertado?
a.
Uma sociedade nos negócios da família.
b.
Apenas moradia e comida, sem pagamento em dinheiro.
c. Um pequeno ordenado (salário), que ele disse que poderia crescer
no futuro.
d.
Uma casa própria nos fundos do terreno.
04. No dia seguinte à
liberdade, o narrador dá um "peteleco" em Pancrácio. Qual foi a
justificativa dada pelo patrão para esse ato?
a. Ele afirmou que era um "impulso natural" e que isso não
tirava o direito civil de liberdade de Pancrácio.
b.
Ele disse que o peteleco era uma forma de carinho.
c.
Ele alegou que Pancrácio o havia agredido primeiro.
d.
Ele disse que agora que Pancrácio era livre, precisava apanhar para aprender a
trabalhar.
05. Qual é a principal
ironia presente no final do texto, quando o narrador fala sobre os chutes e
puxões de orelha que dá em Pancrácio?
a.
A ironia de que Pancrácio agora é quem manda no patrão.
b. A ironia de que, embora Pancrácio seja legalmente livre, a sua
condição de vida e o tratamento agressivo do patrão continuam os mesmos.
c.
A ironia de que o patrão ficou pobre após libertar o escravo.
d.
A ironia de que Pancrácio ficou muito rico com o salário que recebeu.
06. Como Pancrácio reage
ao tratamento do patrão (pontapés e insultos) após a abolição, segundo o
narrador?
a.
Ele reage com violência e tenta bater no patrão.
b.
Ele decide ir embora da casa imediatamente.
c. Ele recebe tudo humildemente e o narrador acredita que ele fica
até alegre.
d.
Ele denuncia o patrão para as autoridades da época.
07. O que Machado de
Assis pretende criticar com esta crônica?
a.
A rapidez com que a Lei Áurea foi aprovada.
b. O comportamento de pessoas que se diziam "boazinhas" e
abolicionistas, mas mantinham preconceitos e práticas violentas.
c.
A falta de festas e banquetes na cidade do Rio de Janeiro.
d.
A dificuldade de se encontrar bons empregados domésticos naquela época.
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