Artigo de Opinião: Previsões de especialistas
HÉLIO
SCHWARTSMAN
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhETgDHueEuEydgufmR_KB4kWMPfBdYGS6FEfzXX9WeMQn55JhaCyxWZyOUOIgi-ioMPKzmRC0w6RhL9Fy7WaqqYY7_P6dkpi6PHg0QAq3FMorGuWH5Z0vfGFxK0r8TKfGBAn2DHxsYyXsI-PI-uJH4hS8rI5bVkcfPxJC5ZYEyYkSo3OafcozBASnZ45E/s1600/dan.jpg Uma boa tentativa é o recém-lançado livro do
escritor e jornalista Dan Gardner. As passagens mais divertidas do livro são
sem dúvida aquelas em que o autor mostra, com exemplos e pesquisas científicas,
quão precária é a previsão econômica e política.
Num célebre discurso de 1977, por exemplo, o
então presidente dos E.U.A., Jimmy Carter, ancorado nos conselhos dos principais experts do
planeta, conclamou os americanos a reduzir drasticamente a dependência de
petróleo de sua economia, porque os preços do hidrocarboneto subiriam e jamais
voltariam a cair, o que inevitavelmente destruiria o “American way”. Oito anos
depois, as cotações do óleo despencaram e permaneceram baixas pelas duas
décadas seguintes.
Alguém pode alegar que Gardner escolhe de
propósito alguns exercícios de futurologia que deram errado apenas para
ridicularizar a categoria toda.
Para refutar essa objeção, vamos conferir
algumas abordagens do problema.
Em 1984, uma revista britânica pediu a 16
pessoas que fizessem previsões sobre taxas de crescimento, câmbio, inflação e
outros dados econômicos. Quatro dos entrevistados eram ex-ministros de
finanças; quatro eram presidentes de empresas multinacionais; quatro,
estudantes de economia de Oxford; e quatro, lixeiros de Londres. Uma década
depois, as predições foram contrastadas com a realidade e classificadas pelos
níveis de acerto. Os lixeiros terminaram empatados com os presidentes de
corporações em primeiro lugar. Em último, ficaram os ministros – o que ajuda a
explicar uma ou outra coisinha sobre governos.
A razão para tantas dificuldades em adivinhar o
futuro é de ordem física. Nós nos habituamos a ver a ciência prevendo com
enorme precisão fenômenos como eclipses e marés. Só que esses são sistemas
lineares ou, pelo menos, sistemas em que dinâmicas impostas pelo caos podem ser
desprezadas. E, embora um bom número de fenômenos naturais seja linear, existem
muitos que não o são. Quando o homem faz parte da equação, pode-se esquecer a
linearidade.
Nossos cérebros também trazem de fábrica alguns
vieses que tornam nossa espécie presa fácil para adivinhos. Procuramos tão
avidamente por padrões que os encontramos até mesmo onde não existem. Temos
ainda compulsão por histórias, além de um desejo irrefreável de estar no
controle. Assim, alguém que ofereça numa narrativa simples e envolvente a
previsão do futuro pode vendê-la facilmente a incautos. Não é por outra razão
que oráculos, profecias e augúrios estão presentes em quase todas as religiões.
Como diz Gardner, “vivemos na Idade da
Informação, mas nossos cérebros são da Idade da Pedra”. Eles não foram
concebidos para processar o papel do acaso, no cerne do conhecimento científico
atual. Nós continuamos a tratar as falas dos especialistas como se fossem
auspícios** divinos. Como não poderia deixar de ser, frequentemente quebramos a
cara.
HÉLIO SCHWARTSMAN
Adaptado de
www1.folha.uol.com.br, 30/06/2011
Entendendo
o texto
01. Qual é o paradoxo
apresentado pelo autor logo no primeiro parágrafo?
a.
Os especialistas sempre acertam, mas ninguém acredita neles.
b. Os especialistas erram com frequência, mas as pessoas continuam
recorrendo a eles.
c.
A mídia não gosta de especialistas, mas é obrigada a contratá-los.
d.
O futuro é fácil de prever, mas os jornalistas complicam as explicações.
02. O exemplo do discurso
do presidente Jimmy Carter em 1977 serve para mostrar que:
a. Até mesmo os principais especialistas do mundo podem errar
previsões sobre o petróleo.
b.
Os políticos sempre sabem o que vai acontecer com a economia.
c.
Os Estados Unidos nunca dependeram de petróleo estrangeiro. d. O "American Way" foi destruído
conforme a previsão dos especialistas.
03. No experimento
realizado pela revista britânica em 1984, qual grupo de pessoas obteve o mesmo
nível de acerto que os presidentes de multinacionais?
a.
Os ex-ministros de finanças.
b.
Os estudantes de economia de Oxford.
c. Os lixeiros de Londres.
d.
Os editores da própria revista.
04. De acordo com o
texto, por que é mais fácil prever eclipses e marés do que fenômenos
econômicos?
a. Porque os fenômenos naturais são lineares e precisos, enquanto
fenômenos que envolvem o homem são caóticos e não lineares.
b.
Porque os astrônomos estudam mais do que os economistas.
c.
Porque o sol e a lua são objetos pequenos e fáceis de observar. d. Porque a
ciência ainda não inventou aparelhos para medir a economia.
05. O autor afirma que
nosso cérebro traz "vieses de fábrica". O que isso significa na
prática?
a.
Que nascemos sabendo tudo sobre matemática e estatística.
b. Que temos uma tendência natural de procurar padrões e histórias
simples, o que nos torna alvos fáceis para adivinhos.
c.
Que nossos cérebros são modernos demais para entender as religiões antigas.
d.
Que somos incapazes de aprender coisas novas sobre o futuro.
06. Qual é o significado
da frase de Dan Gardner: “vivemos na Idade da Informação, mas nossos cérebros
são da Idade da Pedra”?
a. Que, apesar de termos muita tecnologia, nossa biologia ainda
busca segurança e padrões da mesma forma que nossos ancestrais faziam.
b.
Que não temos computadores suficientes para processar dados.
c.
Que os homens das cavernas faziam previsões melhores do que os especialistas
atuais.
d.
Que o cérebro humano está diminuindo de tamanho com o passar do tempo.
07. Qual é a conclusão do
autor sobre a forma como tratamos as falas dos especialistas?
a.
Que devemos segui-las cegamente, pois são como avisos divinos.
b.
Que a economia se tornou uma nova religião oficial.
c. Que frequentemente "quebramos a cara" porque tratamos
opiniões de especialistas como verdades absolutas, ignorando o papel do acaso.
d.
Que os especialistas deveriam ser proibidos de falar na televisão.
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