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domingo, 22 de março de 2026

CONTO: O ENCANTAMENTO - BARROS FERREIRA - COM GABARITO

CONTO: O ENCANTAMENTO

                Barros Ferreira

    Júlio olhou. Ali estava a cena de que muito ouvira falar e lhe contestava a veracidade. No alto da copa retorcida de uma goiabeira, estava um bem-te-vi aflito, condenado à morte. Um fio invisível prendia-o e puxava-o inexoravelmente. Ele piava numa extrema aflição. Sabia que ia morrer, mas não conseguia libertar-se.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiNcOXqgSs4mMprP8H5aPHumiTnTK4p6yYLWlktUv0EfAKIOa8vpTD23FfQCdiPmAiTJJKmLY9UHsMKkDuuV_C02L03dFxFNj9yfumPU-fm1gElbiFOaKtUovRyUzqvOsUDuqnVxWM-znsQCFnB-T3zj2VRxKaaI6B5hGc4kmEGYAUIR_op-aQlanGUasA/s320/BEM%20TE%20VI.jpg
 

   Embaixo, de cabeça erguida e coleante, estava uma jararaca. Seu olhar fixo prendia o pobre bem-te-vi, que não conseguia livrar-se daquele encantamento. O réptil forçava o pássaro a descer. Hipnotizara-o. Mantinha-o preso desde o momento em que a ave, curiosa, baixara o olhar para verificar a origem do farfalhar, que se levantava do chão. Os dois olhares cruzaram-se. O réptil prendeu o pássaro. Fulminara-lhe a vontade. Não podia mais voar. E piando plangentemente pulou para o ramo que estava logo abaixo do seu pequeno corpo.

     Júlio teve ímpetos de matar a cobra. Mas um desejo cruel de assistir ao desfecho o manteve imóvel.

     O bem-te-vi deu novo pio e novo salto. Não era mais o seu canto vibrante, agudo, que traspassava a mata. Tinha algo de um grito plangente, de um apelo de socorro que quebrasse o mortal encantamento. Júlio teve pena do pássaro. Sabia que bastaria uma pedrada ou apenas um grito pra libertar o bem-te-vi, pois a serpente procuraria ver de onde partia o perigo. Também o réptil estava sujeito ao medo. E desde que voltasse a cabeça interromperia a sujeição hipnótica. A ave poderia fugir. Mas a sua curiosidade era maior. Queria ver o fim.

    E esse não tardou. O bem-te-vi soltou um pio ainda mais plangente e com as asas abertas pousou no chão.

    A jararaca moveu-se lentamente, num avanço cauteloso. Estava agora a pouco mais de um metro da ave aterrorizada.

   Mentalmente, Júlio torceu para que o pássaro reagisse e levantasse voo. Supunha, ainda, que a ave não percebera o réptil, confundido com o chão devido ao desenho da pele e cor de massapé. Mas não havia possibilidade de engano. A jararaca conseguira hipnotizar a ave, quando acertara o seu frio olhar, mortal, no olhar do pássaro, que imprudentemente espiara do alto para verificar o que era aquela mancha amarela a mover-se. E fora como se uma flecha lhe penetrasse no cérebro, matando- lhe a vontade. A fome do réptil mantinha-o preso, com firmeza. O bem-te-vi soltou mais um pio triste. A cobra avançou mais um palmo.

    No íntimo de Júlio, travou-se dura batalha entre a misericórdia e a curiosidade. O coração pulsava-lhe doidamente. Parecia ouvir-lhe as pancadas como se fosse na pele de um tambor. O pássaro desengonçado, o bico aberto, as asas distendidas, deu um passo em direção à jararaca, soltando o pio estrídulo, que traduzia o desespero do condenado à perda da vida.

   Foi então que no coração de Júlio reboou urna pancada mais forte. Venceu o sentimento de solidariedade com os mais fracos. Deitou a mão frenética a um galho seco. O estalido forte do lenho que parte foi acompanhada de um berro!        — Desgraçada!

 Ao mesmo tempo, o galho partido caía pesadamente no tronco da jararaca, que ficou aturdida.

  Quebrara-se o encanto malévolo.

  O bem-te-vi, liberto do olhar, que o mantinha cativo, ruflou as asas e disparou num voo fulminante, como flecha saída do arco. Surpreendida e contundida, a cobra desfez as suas roscas e coleou com rapidez a refugiar-se em um lugar de capim alto, onde ficaria mais segura.

   Erguendo o olhar para o céu, onde grossas nuvens eram tangidas pelo vento, Júlio exclamou, satisfeito consigo mesmo:

 — Puxa! Foi mesmo na horinha!

                                                                         (Barros Ferreira)

Entendendo o texto 

01. No início do texto, o bem-te-vi é descrito como "condenado à morte". Por que ele não conseguia voar para longe?

a. Porque ele estava com uma das asas quebradas por causa de um galho.

b. Porque ele estava sob um "encantamento" ou hipnose causado pelo olhar fixo da jararaca.

c. Porque ele decidiu que queria enfrentar a cobra para proteger seu ninho.

d. Porque ele estava preso em um visgo invisível colocado por caçadores

02. Qual foi o conflito interno vivido pelo personagem Júlio ao observar a cena?

a. Ele estava em dúvida se matava a cobra para comê-la ou se a deixava fugir.

b. Ele sentia medo de que a cobra o atacasse caso ele se aproximasse.

c. Ele travou uma batalha entre a misericórdia (pena do pássaro) e a curiosidade cruel de ver o final da cena.

d. Ele não sabia se o bem-te-vi era um pássaro verdadeiro ou apenas uma ilusão da mata.

03. O texto afirma que a jararaca também estava "sujeita ao medo". O que seria necessário para quebrar o encanto hipnótico sobre o pássaro?

a. Que o pássaro fechasse os olhos por alguns segundos.

b. Que algo fizesse a serpente voltar a cabeça, interrompendo o contato visual.

c. Que o sol se escondesse atrás das nuvens, escurecendo a mata. d. Que Júlio desse comida para a cobra para que ela perdesse a fome.

04. Como o comportamento do pássaro mudou à medida que ele descia da goiabeira?

a. Seu canto tornou-se um pio plangente, um grito de socorro de quem perdeu a vontade própria.

b. Ele começou a cantar mais alto e vibrante para assustar a jararaca.

c. Ele ficou em silêncio absoluto para tentar se esconder entre as folhas.

d. Ele começou a bicar os próprios pés para tentar acordar do sono.

05. O que finalmente motivou Júlio a agir e interromper a cena?

a. O medo de que a cobra ficasse ainda maior depois de comer o pássaro.

b. O barulho de outras pessoas chegando na mata.

c. O fato de a cobra ter tentado atacar o próprio Júlio.

d. A vitória do sentimento de solidariedade com os mais fracos sobre a sua curiosidade.

06. De que forma Júlio conseguiu libertar o bem-te-vi?

a. Ele deu um tiro de espingarda na cabeça da jararaca.

b. Ele jogou um galho seco no tronco da cobra e soltou um berro, quebrando a concentração dela.

c. Ele subiu na goiabeira e pegou o pássaro com as mãos.

d. Ele assobiou tão alto que a cobra ficou atordoada com o som.

07. Qual foi o desfecho da história para os dois animais envolvidos?

a. O bem-te-vi fugiu em um voo veloz e a cobra se refugiou, ferida e surpresa, no capim alto.

b. O bem-te-vi atacou a cobra depois de liberto e a jararaca morreu. 

c. A cobra conseguiu picar o pássaro antes de Júlio intervir, mas Júlio a matou depois.

d. Júlio levou o bem-te-vi para casa para cuidar dele e a cobra fugiu para a floresta.

 

  

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