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quinta-feira, 19 de março de 2026

ARTIGO DE OPINIÃO: OS MENINOS DO BRASIL - CLÓVIS ROSSI - COM GABARITO

 Artigo de Opinião: Os meninos do Brasil

                              Clóvis Rossi

          SÃO PAULO - Primeiro, foi o "arrastão" nas praias do Rio. Logo depois, nas praias de Fortaleza. Um pouco mais adiante, na festa do Círio de Nazaré, em Belém do Pará. Desceu, em seguida, para a praça da Sé em São Paulo. Chegou ontem a Londrina, no norte do Paraná, cidade em que uma dúzia de lojas foi "arrastada" por bandos de menores movidos a cola de sapateiro.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjQVFcJ55U5kDORCTvbo_l0oofYJ1vqMFf4HJgRUgIkTxsNZ5CZvKeGmMqICDnrmolIX8Sl8ftMmOFo4guZbvQMMl44YtzeY-JrLMQfPQyGdDZuwf3SOXDzPF3Hht0VX70qZuyA760phZBVz_PBlfjYFrMUMXlSqY_oedjC39faz7ONv_SIeI5_Ne9f-Ao/s320/barraca_leme.jpg 


          Vê-se que já não dá sequer para o tolo conformismo de achar que essa espécie de guerrilha urbana está restrita aos grandes centros, depósitos habituais de todos os problemas do subdesenvolvimento. Londrina parece ser apenas uma dessas cidades médias abençoadas pela alta qualidade de vida interiorana.

          É evidente que deve haver, nessa onda de "arrastões", um pouco de modismo. O pessoal vê pela televisão um grupo "arrepiando bacanas" no Rio de Janeiro e resolve fazer a mesma coisa na sua própria cidade. Copiar comportamentos alheios, muito divulgados pela mídia, é um fenômeno até certo ponto corriqueiro.

         O problema é que a matéria-prima para a repetição dos "arrastões" sobra no país. O Brasil, que sempre foi exemplo extremo de má distribuição de renda, tornou-se selvagem nestes muitos anos de estagnação econômica. Se há alguma indústria nacional que não sofre os efeitos da recessão é a fábrica de produzir miseráveis e marginalizados. Da marginalização à marginalidade e dela à brutalidade, a distância costuma ser curta.

        Consequência inevitável; os "bacanas" já estão todos arrepiados. Pior: tornam-se cada vez mais inúteis os discursos sobre a miséria, sobre a infância desamparada, sobre as injustiças sociais. A fábrica de produzir retórica sobre essa temática é, aliás, outro setor que não entrou em recessão.

         Seria altamente conveniente que admitíssemos de uma vez por todas que estamos, todos, desequipados para agir, em vez de discursar a respeito. Não é um problema que se possa resolver apenas por meio do poder público. Não é um problema que a filantropia de meia dúzia vá sequer atenuar. É uma guerra. Não serve de consolo saber que produziu poucas vítimas fisicamente até agora. Todo o país é vítima quando seus "bacanas" começam a odiar os meninos do Brasil.  

(Folha de S. Paulo, 30/10/92.)

 Entendendo o texto

01. De acordo com o primeiro parágrafo, a ocorrência de "arrastões" em Londrina demonstra que:

a) O fenômeno está restrito apenas às capitais litorâneas do país.

b) A criminalidade juvenil deixou de ser um problema exclusivo dos grandes centros urbanos.

c) O policiamento no interior do Paraná é mais ineficiente que no Rio de Janeiro.

d) As cidades com alta qualidade de vida estão imunes aos problemas do subdesenvolvimento.

e) O uso de cola de sapateiro é a única causa da violência em cidades médias.

02. O autor atribui a rápida disseminação do comportamento dos "arrastões" por diversas cidades brasileiras principalmente ao(à):

a) Organização nacional de facções criminosas juvenis.

b) Falta de opções de lazer para os jovens no interior.

c) Influência da mídia e da televisão, que gera um efeito de "modismo" e cópia.

d) Aumento repentino do preço da cola de sapateiro.

e) Inexistência de leis que punam menores de idade.

03. No trecho "Se há alguma indústria nacional que não sofre os efeitos da recessão é a fábrica de produzir miseráveis e marginalizados", o autor utiliza uma metáfora para criticar:

a) O crescimento do setor industrial brasileiro apesar da crise.

b) A eficiência do governo em gerar empregos para a população carente.

c) O agravamento das desigualdades sociais e da pobreza decorrentes da estagnação econômica.

d) A exportação de mão de obra desqualificada para outros países. e) A qualidade dos produtos fabricados nas periferias das grandes cidades.

04. Qual é a principal crítica feita pelo autor no penúltimo parágrafo em relação aos discursos sobre a miséria?

a) Os discursos são necessários para convencer os "bacanas" a serem filantropos.

b) A retórica sobre a injustiça social tornou-se inútil e repetitiva, sem gerar ações práticas.

c) Não existem intelectuais suficientes falando sobre a infância desamparada.

d) Os discursos ajudam a diminuir a violência nas ruas de São Paulo.

e) Apenas o poder público tem o direito de discursar sobre a marginalidade.

05. Ao concluir que "todo o país é vítima quando seus 'bacanas' começam a odiar os meninos do Brasil", Clóvis Rossi sugere que:

a) O ódio entre classes sociais é a solução para acabar com os arrastões.

b) A sociedade deve se armar para combater os menores carentes. c) O problema é meramente policial e deve ser resolvido com repressão física.

d) A ruptura social e o preconceito contra os jovens pobres representam uma derrota para toda a nação.

e) Os "bacanas" são as únicas vítimas reais da situação descrita.

 

 

 

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