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domingo, 22 de março de 2026

ARTIGO DE OPINIÃO: DO BOM USO DO RELATIVISMO - LEONARDO BOFF - COM GABARITO

 Artigo de Opinião: Do bom uso do relativismo

                              Leonardo Boff

Hoje pela multimídia, imagens e gentes do mundo inteiro nos entram pelos telhados, portas e janelas e convivem conosco. É o efeito das redes globalizadas de comunicação. A primeira reação é de perplexidade que pode provocar duas atitudes: ou de interesse para melhor conhecer que implica abertura e dialogo ou de distanciamento que pressupõe fechar o espírito e excluir. De todas as formas, surge uma percepção incontornável: nosso modo de ser não é o único. Há gente que, sem deixar de ser gente, é diferente. Quer dizer, nosso modo de ser, de habitar o mundo, de pensar, de valorar e de comer não é absoluto. Há mil outras formas diferentes de sermos humanos, desde a forma dos esquimós siberianos, passando pelos yanomamis do Brasil até chegarmos aos sofisticados moradores de Alfavilles onde se resguardam as elites opulentas e amedrontadas. 

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhH4l5oHnotC088QVUBOsP15HUcRur8H109xHQc16J9vm0-X5KaJyYXNd2cUPNGR3Sr6l0tulah2aTLz4qsOaCHGFKVGTw7Qc3T8wSkl9ReGt6lNdzjEe_wJAisS5WWjS4ezImNtGTaW60Pau5a49uUDuw7ZIbFba90zmF3x-n0kVDqupAQmNyyJQKWB7g/s1600/relativismo1-6d330290.jpg


O mesmo vale para com as diferenças de cultura, de língua, de religião, de ética e de lazer. Deste fato surge, de imediato, o relativismo em dois sentidos: primeiro, importa relativizar todos os modos de ser; nenhum deles é absoluto a ponto de invalidar os demais; impõe-se também a atitude de respeito e de acolhida da diferença porque, pelo simples fato de estar-ai, goza de direito de existir e de co-existir; segundo, o relativo quer expressar o fato de que todos estão de alguma forma relacionados. Eles não podem ser pensados independentemente uns dos outros porque todos são portadores da mesma humanidade. Devemos alargar, pois, a compreensão do humano para além de nossa concretização. Somos uma geosociedade una, múltipla e diferente. Todas estas manifestações humanas são portadoras de valor e de verdade. Mas é um valor e uma verdade relativos, vale dizer, relacionados uns aos outros, auto-implicados, sendo que nenhum deles, tomado em si, é absoluto. Então não há verdade absoluta? Vale o every thing goes de alguns pós modernos? Quer dizer, o “vale tudo”? Não é o vale tudo. Tudo vale na medida em que mantém relação com os outros, respeitando-os em sua diferença. Cada um é portador de verdade, mas ninguém pode ter o monopólio dela. Todos, de alguma forma, participam da verdade. Mas podem crescer para uma verdade mais plena, na medida em que mais e mais se abrem uns aos outros. Bem dizia o poeta espanhol António Machado: ”Não a tua verdade. A verdade. Vem comigo buscá-la. A tua, guarde-a”. Se a buscarmos juntos, no diálogo e na cordialidade, então mais e mais desaparece a minha verdade para dar lugar a Verdade comungada por todos. A ilusão do Ocidente é de imaginar que a única janela que dá acesso à verdade, à religião verdadeira, à autêntica cultura e ao saber crítico é o seu modo ver e de viver. As demais janelas apenas mostram paisagens distorcidas. Ele se condena a um fundamentalismo visceral que o fez, outrora, organizar massacres ao impor a sua religião e, hoje, guerras para forçar a democracia no Iraque e no Afeganistão. Devemos fazer o bom uso do relativismo, inspirados na culinária. Há uma só culinária, a que prepara os alimentos humanos. Mas ela se concretiza em muitas formas, as várias cozinhas: a mineira, a nordestina, a japonesa, a chinesa, a mexicana e outras. Ninguém pode dizer que só uma é a verdadeira e gostosa e as outras não. Todas são gostosas do seu jeito e todas mostram a extraordinária versatilidade da arte culinária. Por que com a verdade deveria ser diferente?

Entendendo o texto

01.Segundo o primeiro parágrafo, qual é a principal causa da nossa convivência atual com imagens e pessoas do mundo inteiro?

a. O efeito das redes globalizadas de comunicação e da multimídia.

b. A vontade das pessoas de morarem em outros países.

c. O aumento do turismo em massa para o Brasil.

d. A leitura de livros antigos sobre diferentes culturas.

02. O autor afirma que a percepção de que nosso modo de ser não é o único é "incontornável". O que isso significa no contexto do texto?

a. Que podemos facilmente ignorar as outras culturas.

b. Que é impossível não perceber que existem outras formas de viver além da nossa.

c. Que as outras culturas são menos importantes que a nossa.

d. Que todos os seres humanos pensam e comem da mesma maneira.

03. Qual é o primeiro sentido de "relativismo" apresentado pelo autor?

a. Que cada um deve viver isolado em seu próprio mundo.

b. Que as elites devem ser protegidas em condomínios fechados.

c. Que nenhum modo de ser é absoluto e todos merecem respeito e acolhida.

d. Que a nossa cultura é a única que possui a verdade total.

04. O autor utiliza a expressão "vale tudo" para explicar o relativismo?

a. Sim, ele defende que qualquer comportamento é aceitável, mesmo sem respeito.

b. Sim, ele acredita que não existem regras na sociedade moderna. c. Não, ele afirma que apenas a cultura ocidental tem as regras corretas.

d. Não, ele diz que "tudo vale" apenas na medida em que se mantém a relação e o respeito pela diferença do outro.

05. Qual é a crítica que Leonardo Boff faz ao "Ocidente" no texto?

a. A ilusão de achar que o seu modo de ver e viver é a única janela para a verdade.

b. Que o Ocidente não tem tecnologia suficiente para a comunicação.

c. O fato de o Ocidente gostar muito de culinária estrangeira.

d. A falta de interesse do Ocidente em organizar guerras e massacres.

06. Para explicar o bom uso do relativismo, o autor faz uma comparação com qual área do conhecimento humano?

a. A Engenharia, comparando os povos a grandes construções.

b. A Culinária, mostrando que existem várias cozinhas gostosas e verdadeiras.

c. A Medicina, comparando a verdade a um remédio para a alma.  d. O Esporte, dizendo que a vida é uma competição entre as nações.

07. No final do texto, ao citar o poeta António Machado, qual é a mensagem transmitida sobre a "Verdade"?

a. Que cada pessoa deve guardar sua verdade e nunca compartilhá-la.

b. Que a verdade não existe e ninguém deve procurá-la.

c. Que a verdade pertence apenas aos poetas e escritores famosos.

d. Que a verdade é algo que se busca junto, no diálogo e na convivência.

 

 

 

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