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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

REPORTAGEM: INFLUÊNCIA AFRICANA NA NOSSA LÍNGUA - FRAGMENTO - CHICO ALENCAR - COM GABARITO

 Reportagem: Influência Africana na nossa língua – Fragmento

        [...]

        O Brasil ficava negro na língua, graças à influência dos dialetos africanos falados na Colônia:

        -- Ô Iaiá! Falei pro seu caçula pará com aquele batuque! Quero tirá um cochilo antes de ir pra quitanda, mas com esse banzé todo não tem jeito! O moleque fica pra cá e pra lá, que nem um camundongo... Só xingando!

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjaSy8wexU0A-yLic6ENC5bgV0Is_d71yTeNWVck4NP3Q8NG4Isw5B119L1G8jww742zOlUFIxeNkkpnQ3Rlqlt8hBvHHf0YN4xyK4kVw_ldxtsL0EUxx-LLt2-e9a2Tl97pjpF5uP2ohKMwMnyj6Ur-Qinkej9SJiiL6zOMDjmyQdRUPYWUyI7HiDO56s/s320/images.jpg


        As crianças, as amas-de-leite e os negros velhos contadores de histórias da sua terra fizeram como as cozinheiras das casas-grandes: tiraram das palavras os espinhos e os ossos. Só ficavam as sílabas moles, gostosas e fáceis de dizer. Apareciam então as palavras de sabor africano, que se desmanchavam na boca, como observa Gilberto Freyre no seu livro Casa-grande & Senzala:

        [...] as Antônias ficaram Dondons, Toninhas, Totonhas; as Teresas, Tetés; os Manuéis, Manés; os Franciscos, Chicos. Chiquinhos, Chicós; os Pedros, Pepés; os Albertos, Bebetos, Betinhos. Isto sem falarmos das Iaiás, dos Ioiôs, das Sinhás, das Manus, Calus, Bembéns, Dedés, Marocas, Gegês.

        [...]

In: Chico Alencar, Marcus Venicio Ribeiro e Claudius Ceccon. Brasil vivo – uma nova história da nossa gente. 4. ed. Petrópolis, Vozes, 1988. v. 1, p. 56.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 163.

Entendendo a reportagem:

01 – Com base no texto, como se deu a transmissão da influência das línguas africanas no cotidiano do Brasil Colonial e quem foram os principais agentes desse processo?

      A transmissão ocorreu por meio da convivência íntima e diária no ambiente doméstico e comunitário do Brasil Colonial. Os principais agentes desse processo foram as amas de leite, as crianças, os negros velhos (contadores de histórias) e as cozinheiras das casas-grandes. Por estarem em contato direto com a criação dos filhos dos colonizadores, essas pessoas introduziram vocábulos, entonações e formas afetuosas de falar que moldaram o português falado no Brasil.

02 – O que significa a metáfora "tiraram das palavras os espinhos e os ossos" usada no segundo parágrafo do texto?

      A metáfora sugere que o português falado no Brasil passou por um processo de suavização e simplificação fonética. "Tirar os espinhos e os ossos" significa eliminar encontros consoantes duros ou sonoridades complexas e rígidas do português europeu, tornando a pronúncia mais fluida, musical e acessível, resultando em "sílabas moles, gostosas e fáceis de dizer".

03 – No trecho do diálogo apresentado ("-- Ô Iaiá! Falei pro seu caçula pará com aquele batuque!..."), identifique pelo menos três palavras de origem ou influência africana e explique a função delas no contexto do texto.

      As palavras são: Iaiá, caçula, batuque, cochilo, quitanda, banzé, moleque e camundongo.

      Função no contexto: Elas demonstram como os vocábulos de origem africana se impregnaram no vocabulário cotidiano brasileiro para nomear atitudes, objetos, laços afetivos/familiares e situações do dia a dia, evidenciando a transformação da língua falada na Colônia.

04 – Qual é o papel dos hipocorísticos (apelidos e formas carinhosas de nomes) citados na citação de Gilberto Freyre para a construção da identidade do português brasileiro?

      Os hipocorísticos (como Dondons, Totonhas, Tetés, Chiquinhos, Bebetos) mostram a tendência da língua no Brasil para a afetividade, o encurtamento e a redução silábica. Essa marca linguística reflete a intimidade do convívio social e o abrandamento das formas nominais rígidas trazidas de Portugal, conferindo um tom mais acolhedor e popular ao idioma.

05 – Em que medida o fragmento exemplifica a tese de que "O Brasil ficava negro na língua"?

      O fragmento exemplifica essa tese ao demonstrar que a contribuição africana não se limitou à introdução de palavras isoladas, mas alterou a própria estrutura fonética, o ritmo e a expressividade do português brasileiro. A presença contínua e a oralidade dos escravizados e seus descendentes reconfiguraram o modo de falar de toda a sociedade colonial, tornando o português do Brasil profundamente marcado pela matriz africana.

 

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