Reportagem: Influência Africana na nossa língua – Fragmento
[...]
O Brasil ficava negro na língua, graças
à influência dos dialetos africanos falados na Colônia:
-- Ô Iaiá! Falei pro seu caçula pará
com aquele batuque! Quero tirá um cochilo antes de ir pra quitanda, mas com
esse banzé todo não tem jeito! O moleque fica pra cá e pra lá, que nem um
camundongo... Só xingando!
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjaSy8wexU0A-yLic6ENC5bgV0Is_d71yTeNWVck4NP3Q8NG4Isw5B119L1G8jww742zOlUFIxeNkkpnQ3Rlqlt8hBvHHf0YN4xyK4kVw_ldxtsL0EUxx-LLt2-e9a2Tl97pjpF5uP2ohKMwMnyj6Ur-Qinkej9SJiiL6zOMDjmyQdRUPYWUyI7HiDO56s/s320/images.jpg As crianças, as amas-de-leite e os
negros velhos contadores de histórias da sua terra fizeram como as cozinheiras
das casas-grandes: tiraram das palavras os espinhos e os ossos. Só ficavam as
sílabas moles, gostosas e fáceis de dizer. Apareciam então as palavras de sabor
africano, que se desmanchavam na boca, como observa Gilberto Freyre no seu
livro Casa-grande & Senzala:
[...] as Antônias ficaram Dondons,
Toninhas, Totonhas; as Teresas, Tetés; os Manuéis, Manés; os Franciscos,
Chicos. Chiquinhos, Chicós; os Pedros, Pepés; os Albertos, Bebetos, Betinhos.
Isto sem falarmos das Iaiás, dos Ioiôs, das Sinhás, das Manus, Calus, Bembéns,
Dedés, Marocas, Gegês.
[...]
In: Chico Alencar,
Marcus Venicio Ribeiro e Claudius Ceccon. Brasil vivo – uma nova história da
nossa gente. 4. ed. Petrópolis, Vozes, 1988. v. 1, p. 56.
Fonte: Língua
Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C.
Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição –
São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 163.
Entendendo a reportagem:
01
– Com base no texto, como se deu a transmissão da influência das línguas
africanas no cotidiano do Brasil Colonial e quem foram os principais agentes
desse processo?
A transmissão
ocorreu por meio da convivência íntima e diária no ambiente doméstico e
comunitário do Brasil Colonial. Os principais agentes desse processo foram as
amas de leite, as crianças, os negros velhos (contadores de histórias) e as
cozinheiras das casas-grandes. Por estarem em contato direto com a criação dos
filhos dos colonizadores, essas pessoas introduziram vocábulos, entonações e
formas afetuosas de falar que moldaram o português falado no Brasil.
02
– O que significa a metáfora "tiraram das palavras os espinhos e os
ossos" usada no segundo parágrafo do texto?
A metáfora sugere
que o português falado no Brasil passou por um processo de suavização e
simplificação fonética. "Tirar os espinhos e os ossos" significa
eliminar encontros consoantes duros ou sonoridades complexas e rígidas do
português europeu, tornando a pronúncia mais fluida, musical e acessível,
resultando em "sílabas moles, gostosas e fáceis de dizer".
03
– No trecho do diálogo apresentado ("-- Ô Iaiá! Falei pro seu caçula pará
com aquele batuque!..."), identifique pelo menos três palavras de origem
ou influência africana e explique a função delas no contexto do texto.
As palavras são:
Iaiá, caçula, batuque, cochilo, quitanda, banzé, moleque e camundongo.
Função no contexto: Elas
demonstram como os vocábulos de origem africana se impregnaram no vocabulário
cotidiano brasileiro para nomear atitudes, objetos, laços afetivos/familiares e
situações do dia a dia, evidenciando a transformação da língua falada na
Colônia.
04
– Qual é o papel dos hipocorísticos (apelidos e formas carinhosas de nomes)
citados na citação de Gilberto Freyre para a construção da identidade do
português brasileiro?
Os hipocorísticos
(como Dondons, Totonhas, Tetés, Chiquinhos, Bebetos) mostram a tendência da
língua no Brasil para a afetividade, o encurtamento e a redução silábica. Essa
marca linguística reflete a intimidade do convívio social e o abrandamento das
formas nominais rígidas trazidas de Portugal, conferindo um tom mais acolhedor
e popular ao idioma.
05
– Em que medida o fragmento exemplifica a tese de que "O Brasil ficava
negro na língua"?
O fragmento exemplifica essa
tese ao demonstrar que a contribuição africana não se limitou à introdução de
palavras isoladas, mas alterou a própria estrutura fonética, o ritmo e a
expressividade do português brasileiro. A presença contínua e a oralidade dos
escravizados e seus descendentes reconfiguraram o modo de falar de toda a
sociedade colonial, tornando o português do Brasil profundamente marcado pela
matriz africana.
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