Crônica: Quereis encontrar marido? – Aprendei!...
Lima Barreto
A
Livraria Schetino, desta cidade, há tempos, editou um pequeno opúsculo de doze
páginas, tipo graúdo, entrelinhado, com este soberbo título: Quereis
encontrar Marido? – Aprendei!...
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhzRxw2-AVecRrRMEA_lcoo2LoxqigAR0h_phf87kUzUyPs4MhdfDadpUXH-WLKR8OaI6nCCvBksbPzn6irHQHCV6Lcfyj9T63JhAoIw2gsxQf5wx_LlT0ZLcyvvW8TgmKP87x1f47XSuWFacjTNxwy9iyWtY5PHGHMza0v0wlpXdNVNzwaiYz83ZAOm3w/s320/images.jpg É
autor do livro uma senhora, da. Diana D’Alteno, que, a seguir a regra geral,
nunca encontrou o seu. Digo isto porque, na quase totalidade, todas as pessoas
que se propõem a fornecer tal coisa ou outra aos seus semelhantes, não a
possuem. Haja vista os feiticeiros, negromantes, cartomantes, adivinhos,
hierofantes, que estão sempre prontos a dar fortuna aos outros, mas que,
entretanto, não têm níquel, pois precisam de espórtulas e gratificações para os
seus generosos serviços.
Da. Diana D’Alteno começa o seu
interessante opúsculo assim, deste modo, que transcrevo tal e qual: “Gentis e
amáveis moças solteiras. É a vós que dedico estes meus escritos. O motivo que
me induz a traçar estas linhas é um dos mais vitais, e quiçá dos mais graves.”
Depois
desta invocação às suas caras leitoras, a autora entra de pronto no
“argumento”.
Sabem
qual é este argumento? Pois fale ela. Eis as suas palavras: Permiti, pois, que
vos fale disso como coisa nova.
“Se
trata do terrível dépeuplement!, a diminuição progressiva do
crescimentos, que poderá um dia ser causa de tremendos conflitos entre as
nações, aproveitando-se umas sobre as outras de maior a menor número de
combatentes.”
Vejam
os senhores só como esta senhora está adiantada em matéria de previsão
histórica e como a sua sociologia é muito obstétrica e ginecológica.
O
despovoamento pode ser um dia causa de tremendos conflitos, fenômeno terrível
que ela qualifica mais adiante: “espada de Dâmocles suspensa sobre a cabeça de
boa parte do gênero humano”. A senhora D’Alteno, ao acabar de fazer tão curiosa
descoberta, não fica satisfeita. Parece que o seu gênio é como a atividade
catequizadora de São Francisco Xavier; quer ir mais longe, mais
longe. Amplius!
Então
toma a palavra pela segunda vez e descobre a causa. Mais uma vez passo para
aqui as palavras da ilustre socióloga:
“Pela
segunda vez, peço permissão de tomar a palavra e explicar
sem ambages qual seja esse motivo: é a diminuição dos matrimônios. É
o caso de dizer: ‘a pequenas causas, grandes efeitos’ e na verdade, os
matrimônios se tornam cada vez mais raros e mais difíceis.”
Peço
licença para observar à ilustre senhora coisas simples. Antes, tenho a dizer
que nada entendo dessas coisas sociais, mesmo em se tratando de casamentos. Não
é atividade da minha seara intelectual, mas já foi dito que cada qual tem o
direito de ter uma opinião e de dize-la. Eu julgo que o casamento nada tem com
o despovoamento. Pode haver multiplicação da humanidade sem ele, como pode haver
com ele. O “crescei e multiplicai-vos” não subentende casamento algum. Há
muitas espécies animais que obedecem ao preceito bíblico e prescindem de
semelhante cerimônia. Por acaso entre os nossos animais domésticos que crescem
e se multiplicam, apesar das pestes, das facas das cozinheiras, do choupo,
etc., há pastores e sacerdotes encarregados de realizar casamentos? Não.
Estou
bem certo que a autora não se zangará comigo, apesar do seu nome que,
entretanto, não é também propício aos destinos do seu singular folheto. Mas...
Afirma da. Diana que “o homem (o grifo é dela) tem medo do matrimônio.
Um sacro terror se apoderou dele a tal palavra”.
Ainda
uma vez peço licença à ilustre autora para discordar. O “homem” não tem medo do
matrimônio; o “homem” o quer sempre. A culpa é da mulher que escolhe muito. Se
ela casasse com o primeiro que encontrasse, a tal história não se daria. Eu,
por exemplo, atiro ao terreiro um grão de milho; se não houver um galináceo que
o coma, ele germina logo. Agora, se ele quiser terra especial ou a terra quiser
um grão especial, a coisa é outra. Vai ver a ilustre autora como me vai dar
razão nas suas penúltimas palavras que são estas:
“Permanecei
‘mulher’, se quereis um dia ser mãe – a ‘Maternidade!’ é esta a maior vitória
que glorifica a mulher; é esta a sua grandiosa obra.”
Não
falaria eu com tanto calor, mas diria a mesma coisa com simplicidade, chãmente.
Vossa excelência, porém, está no seu direito, apesar de Diana, de faze-lo da
forma que o fez.
E
essas suas palavras vêm à pelo agora quando várias senhoritas se assanham para
entrar para a Estrada de Ferro, para o Tesouro, como funcionárias públicas.
Há
nisto vários erros, uns de ordem política, outros de ordem social.
Os
de ordem política consistem em permitir que essas moças se inscrevam em
concurso para aspirar um cargo público, quando a lei não permite que elas o
exerçam.
Não
sou inimigo das mulheres, mas quero que a lei seja respeitada, para sentir que
ela me garante.
Nos
países em que se há permitido que as mulheres exerçam cargos públicos, os
respectivos parlamentos têm votado leis especiais nesse sentido. Aqui, não.
Qualquer ministro, qualquer diretor se julga no direito de decidir sobre
matéria tão delicada. É um abuso contra o qual eu já protestei e protesto.
Quando
era ministro Joaquim Murtinho – da Fazenda – é preciso saber – uma moça
requereu inscrever-se em concurso para o Tesouro. Sabem o que ele fez, depois
de ouvir as repartições competentes? Indeferiu o pedido, por não haver lei que
tal autorizasse.
Nos
Telégrafos e Correios, as moças têm acesso, porque os respectivos regulamentos
– autorizados pelo congresso – permitem. Nas outras repartições, não; é abuso.
Mulher
não é, no nosso direito, cidadão.
Está
sempre em estado de menoridade. Por aí iria longe; por isso convém parar.
Spencer,
na Introdução à Ciência Social observa que desde que o serviço
militar obrigatório foi instituído em França, para todos os rapazes entre
dezoito e vinte e um anos, o que obrigou as raparigas a virem a fazer os
serviços que competiam àqueles, as exigências de altura, talhe, etc., para os
recrutas foram pouco a pouco diminuindo; o trabalho da mulher tinha influído
na geração...
Krafft-Ebbing
diz, não sei onde, que a profissão da mulher é o casamento; por isso
cumprimento da. Diana D’Anteno por ter escrito o seu interessante
opúsculo: Quereis’ encontrar Marido? – Aprendei!
Hoje, Rio, 26-6-1919.
Entendendo a crônica:
01 – Qual é a contradição inicial apontada por
Lima Barreto em relação à autora do livro e de que maneira o cronista ironiza
sua autoridade no assunto?
Lima Barreto aponta a ironia de a autora, Da. Diana D’Alteno,
ter escrito um guia sobre como encontrar marido sem nunca ter se casado. O
cronista satiriza essa posição ao compará-la a charlatães — como cartomantes,
adivinhos e feiticeiros —, que prometem riqueza e soluções aos outros, mas
continuam sem recursos próprios e dependem de gratificações para sobreviver.
02 – Como a autora do opúsculo associa a queda
nos casamentos ao cenário geopolítico global e qual é a crítica do autor a essa
visão?
A autora relaciona a escassez de matrimônios ao despovoamento
(dépeuplement), prevendo que a falta de crescimento populacional gerará
conflitos internacionais graves devido à desigualdade no número de soldados
entre as nações. Lima Barreto ridiculariza a abordagem classificando-a como uma
sociologia "obstétrica e ginecológica", criticando o alarmismo do
argumento e desconstruindo o rigor de sua análise.
03 – De que forma o autor rebate a ideia de que
o casamento é indispensável para a preservação e o crescimento da espécie
humana?
O cronista desvincula o preceito de proliferação do
matrimônio formal. Ele argumenta que o mandamento "crescei e
multiplicai-vos" não exige ritos matrimoniais, exemplificando com os
animais domésticos, que continuam a se multiplicar sem a necessidade de
sacerdotes, pastores ou cerimônias cartorárias para formalizar a união.
04 – Qual é a divergência entre Lima Barreto e
a autora no que diz respeito ao "medo do matrimônio" por parte dos
homens?
Enquanto a autora sustenta que os homens sentem um
"sacro terror" do casamento, Lima Barreto afirma que os homens estão
dispostos a se casar, mas atribui o entrave às exigências das mulheres na
escolha dos parceiros. O autor utiliza a metáfora do grão de milho atirado ao
terreiro: a semente germina facilmente, a menos que a terra exige condições
excessivamente específicas.
05 – Qual é o posicionamento do cronista em
relação ao ingresso das mulheres no serviço público e qual o argumento legal
utilizado?
Lima Barreto manifesta-se contrário à entrada de mulheres em
cargos públicos sem legislação prévia favorável. O argumento central apoia-se
no princípio da legalidade: por não serem consideradas cidadãs de pleno direito
pela legislação da época e estarem juridicamente em "estado de
menoridade", sua admissão por decisão unilateral de diretores ou ministros
constituiria um abuso administrativo.
06 – Como o autor fundamenta seu protesto
contra a atuação de autoridades no acesso de mulheres às repartições públicas,
citando um exemplo histórico?
O cronista cita a decisão do ex-ministro da Fazenda, Joaquim
Murtinho, que indeferiu a inscrição de uma mulher em concurso público por falta
de amparo legal. O autor destaca que a presença feminina só é legítima onde há
regulamentação aprovada pelo Congresso — a exemplo dos Correios e Telégrafos —,
classificando qualquer concessão fora dessas diretrizes como uma violação das
leis vigentes.
07 – De que modo o texto articula as teorias de
Spencer e Krafft-Ebing para respaldar a tese de que a função primordial da
mulher seria o casamento?
O autor recorre a Herbert Spencer para ilustrar como o
trabalho físico feminino — decorrente do recrutamento militar dos homens na
França — teria impactado negativamente a formação biológica das novas gerações.
Na sequência, cita Krafft-Ebing para chancelar a tese de que a ocupação natural
da mulher é o matrimônio. Com essa fundamentação, o cronista encerra o texto
validando a premissa central do folheto de Diana D'Alteno.
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