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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

CRÔNICA: O CHEFE POLÍTICO E O SEU ELEITOR - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: O chefe político e o seu eleitor

            Lima Barreto

 

        Seu doutor, eu vim incomodá-lo; mas precisava muito ficar bem com minha consciência.

        – Que há?

        – Eu não voto no doutor Rui.

        – Como você vai votar no Epitácio?

        – Nem num nem noutro.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj0Gwsd8DhhF5XRAOb3qomZBaWBy5IFbKO_rYBsC5r9RtV97yEyrzyv7VaQUnjihWyvuavrcJxuG3lVXk1sgPAgnTkff_PiXsKTpfBCibIxc_3jJHwYDOs-d2DWuKwmYz-ScL3CVlzSYSknQ8fI0EruuzIneclS_t88vlhk7UZRMDuUdbeX-Xr6MIQqONo/s1600/images.jpg


        – Você está ficando indisciplinado; não é mais o correligionário disciplinado de antigamente. Que diabo foi isso?

        – Eu não tenho sido companheiro para você?

        – Sim senhor. Devo ao doutor todos os obséquios desta vida, pelo que lhe sou muito agradecido. Foi o doutor que abaixo de Deus, salvou a Marocas, minha mulher, sem cobrar nada... Quando foi o enterro do meu filho Dodoca, o doutor me ajudou muito...

        – Isso tudo não vem ao caso. Falemos...

        – Não; vem sim, doutor! Quero que o senhor não pense que sou mal agradecido. Se estou empregado, devo ao dou­tor e...

        – Se você continuasse no partido, podia subir ou nós ar­ranjávamos uma equiparação ou mesmo um aumento de venci­mentos; mas...

        – Continuo no partido, doutor...

        – Como? Você não vota conosco...

        – Mas não voto no outro.

        – É o mesmo.

        – Não é doutor.

        – É sim Felício! Em política, quem não é por mim é contra mim. Você sabe disso, não é?

        – É e não é. Não estou contra o senhor não senhor! É que me deu uma coisa cá dentro e eu...

        – Que foi que deu em você?

        – Eu me explico, tanto mais que tenho pensado muito no caso. O senhor quer me ouvir?

        – Ouço, mas você não demora muito.

        – Não demoro não senhor.

        – Conte lá a história.

        – Vou contar. Trata-se – não é verdade? – de escolher o homem que vai governar isto tudo. Quero dizer que ele vai governar todos os brasileiros, inclusive eu.

        – Daí?

        – Espere doutor! Pensei, então, eu cá com os meus botões: vou escolher uma pessoa que deve mandar em mim, na minha mulher, nos meus filhos, na minha casa até – pre­ciso cuidado. Não é doutor?

        – Mais ou menos, é, pois há a lei que ...

        – Isto de lei é história. Quem governa é ele mesmo...

        – Vamos adiante.

        – Um homem que vai ter tanto poder sobre mim, sobre os meus e sobre as minhas coisas para ser escolhido por mim mesmo, deve ser meu conhecido velho. Voluntariamente pela minha própria vontade, vou escolher um dono para mim, e sendo assim o meu dever é estar inteirado do sujeito que é – não acha?

        – Sim, não há dúvida. Mas você sabe bem quem é o Rui, penso eu.

        – Conheço. É um homem muito inteligente...

        – A maior glória do Brasil.

        – É um grande talento.

        – É um gênio.

        – Sei de tudo isto doutor. Mas daí não posso concluir que ele possa mandar-me.

        – Porque?

        – Pode ser caprichoso, implicante ...

        – Ora!

        – Quer dizer que ele nunca me enxergará, não é?

        – Não é bem isso...

        – Ele pode não me enxergar, mas um dia enxerga outro por ele, e lá estou eu a braços com um homem de veneta.

        – Não digo que ele seja...

        – E o Epitácio?

        – Esse ouço dizer que também é inteligente, doutor, tem sido muita coisa...

        – Mas não é o Rui.

        – Sei, doutor. Rui Barbosa não tem igual.

        – Mas porque você não vota nele?

        – Não voto porque não o conheço intimamente, de perto, como já disse ao senhor. Antigamente...

        – Você não pensava assim – não é?

        – É verdade; mas, de uns tempos a esta parte, dei em pensar.

        – Faz mal. O partido...

        – Não falo mal do partido. Estou sempre com ele, mas não posso por meu próprio gosto dar sobre mim tanta força a um homem, de que eu não conheço o gênio muito bem.

        – Mas, se é assim, você terá pouco que escolher a não ser, nós colegas e nós amigos de você.

        – Entre esses eu não escolho, porque não vejo nenhum que tenha as luzes suficientes; mas tenho outros conhecidos, entre os quais posso procurar a pessoa para me governar, guiar e aconselhar.

        – Quem é?

        – É o doutor.

        – Eu?

        – Sim, é o senhor.

        – Mas, eu mesmo? Ora...

        – É a única pessoa de hoje que vejo nas condições e que conheço. O senhor é do partido, e votando no senhor, não vou contra ele.

        – De forma que você...

        – Voto no senhor, para presidente da república.

        – É voto perdido...

        – Não tem nada; mas voto de acordo com o que penso. Parece que sigo o que está no manifesto assinado pelo senhor e outros. “Guiados pela nossa consciência e obedecendo o dever de todo republicano de consultá-la”...

        – Chega Felício.

        – Não é isso?

        – É, mas você deve concordar que um eleitor arregimentado tem de obedecer ao chefe.

        – Sei, mas isto é quando se trata de um deputado ou senador, mas para presidente, que tem todos os trunfos na mão, a coisa é outra. É o que penso. Demais...

        – Você está com teorias estranhas, subversivas...

        – Não tenho teoria alguma, doutor. Consultei a minha consciência e a minha gratidão, e voto no senhor.

        – Mas... já sou deputado.

        – Que tem? Sobe mais um posto, ganha mais...

        – Não preciso, já ganho na clínica muito.

        – Com o lugar de deputado? Então pra que quis ir para a Câmara?

        – Para nada.

        – Doutor, eu decididamente não compreendo nada disto. Essa política é mesmo igual aos mistérios dos padres... Passe bem.

O Malho, Rio, 1-4-1919.

Entendendo a crônica:

01 – Qual é o conflito principal estabelecido no diálogo entre o "doutor" (chefe político) e o seu eleitor, Felício?

      O conflito surge do fato de Felício decidir não votar nos candidatos oficiais indicados pelo partido para a presidência (Rui Barbosa e Epitácio Pessoa). O chefe político enxerga essa decisão como um ato de insubordinação partidária e rompimento de fidelidade ("quem não é por mim é contra mim"). Por outro lado, Felício argumenta que sua decisão se baseia em uma busca por coerência moral e na sua própria consciência, desafiando a lógica tradicional do voto cabresto e da disciplina cega do partido.

 

02 – Como a crônica retrata as práticas do clientelismo e do coronelismo da Primeira República no Brasil?

      A crônica evidencia o clientelismo por meio das alusões às trocas de favores entre o "doutor" e Felício. O chefe político lembra ao eleitor a ajuda prestada em momentos difíceis (atendimento médico da esposa, custos do enterro do filho e indicação para o emprego público). Em contrapartida, esperava-se a obediência cega no momento do voto. O chefe encara o voto não como um direito de escolha cívica do eleitor, mas como uma obrigação de retribuição ou subserviência partidária.

 

03 – Qual é a lógica utilizada por Felício para recusar o voto nos candidatos renomados como Rui Barbosa e Epitácio Pessoa?

      Felício argumenta que o Presidente da República exercerá um enorme poder direto sobre a vida do cidadão e de sua família. Para ele, inteligência ou reputação nacional (atributos de Rui e Epitácio) não garantem que esses líderes conheçam ou respeitem o eleitor comum. Felício defende que só deveria votar em alguém de cujo caráter e comportamento íntimo ele tivesse conhecimento direto e pessoal. Como não conhece os candidatos nacionais "de perto", prefere não lhes dar tal poder.

 

04 – Qual é a ironia contida na decisão de Felício em votar no próprio "doutor" para Presidente da República?

      A ironia reside no fato de Felício usar a própria retórica do partido ("obedecendo o dever de todo republicano de consultar sua consciência") e sua gratidão pessoal para votar em seu chefe local. Embora Felício acredite estar sendo plenamente coerente e gratificado, do ponto de vista do sistema político o seu voto no "doutor" é considerado um "voto perdido", já que o chefe não é candidato ao cargo. O gesto de Felício desarma o político, revelando que a lógica puramente formal do discurso partidário contraria o sentido prático cobrado nas urnas.

 

05 – De que forma o chefe político reage à autonomia de pensamento de Felício e o que essa reação revela sobre o sistema eleitoral da época?

      O chefe político reage com estranhamento e acusa Felício de estar "indisciplinado" e adotando "teorias estranhas, subversivas" simplesmente porque o eleitor começou a pensar por conta própria. Essa reação revela que, na Primeira República, a autonomia e o exercício crítico da cidadania por parte das classes populares eram vistos pelas elites políticas como uma ameaça ou uma anomalia, já que a manutenção do poder dependia do controle rígido sobre a massa votante.

 

06 – Como a frase final de Felício — "Essa política é mesmo igual aos mistérios dos padres..." — sintetiza a visão do cidadão comum sobre a política institucional?

      A frase expressa o perplexo distanciamento do cidadão humilde em relação às contradições e negociatas da política profissional. Felício percebe que a política não opera com base na lógica moral ordinária ou na transparência, mas em um conjunto de dogmas, rituais e interesses ocultos (à semelhança dos "mistérios da religião") que fogem à compreensão das pessoas comuns e servem apenas para manter as elites no poder.

 

07 – Análise o papel da linguagem e do tom na crônica de Lima Barreto para a construção da crítica social.

      Lima Barreto utiliza um diálogo dinâmico e coloquial para contrapor dois mundos: o da política formal e burocrática (representado pelo "doutor") e o da vida concreta e do bom senso popular (representado por Felício). O tom predominantemente irônico e bem-humorado desconstrói as pretensões da elite política da época, mostrando como a pretensa racionalidade do sistema eleitoral da Primeira República era, na verdade, pautada por contradições, interesses pessoais e ausência de verdadeira representatividade democrática.

 

 

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