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domingo, 20 de setembro de 2026

CRÔNICA: O CONDE E O VISCONDE: DOIS GENEROSOS - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: O conde e o Visconde; Dois generosos

             Lima Barreto

 

        Jamais, desde aqueles memoráveis dias em que, na minha meninice, estudei história, deixei de me lembrar daquela ateniense que votava pelo ostracismo (banimento) de Aristides porque estava cansado de ouvir chamá-lo de justo.

        Muito depois de aprovado, ainda ia procurar o meu João Ribeiro, História Antiga (Oriente e Grécia), para lá ler a ane­dota histórica. Eis como o sábio professor a narra:

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEigY4SF_c50dMW1lr2ZqS5HHVXJPnaekmEnbq1SZ1fWxYharclifwO4J5OH7HhkMvpy4L4AuRkipIdnvby7RANTQ3bfeqF9mQnQbx2XL7UZa92fNDGTalRVcQryPuPczagcHFS-WueSj5tn_kb_npQlyHJebxq6kfuVCtBHrnD4ITuX7FBhvw46LlHSNE0/s320/images.jpg


        “Conta-se que durante a votação popular (para o banimento) um cidadão que não sabia ler nem escrever, pediu ao próprio Aristides, a quem não conhecia, que escrevesse o seu voto. – Mas, Aristides ofendeu-te? – Não, replicou o votante. Mas estou cansado de ouvir chamá-lo de justo.”

        Muitas coisas graves, interessantes e pitorescas andei aprendendo; mas, de todas elas, uma das que mais profun­damente ficou-me gravada no cérebro foi essa anedota.

        Quando vejo por aí toda a gente a dizer que fulano é justo, é sério, é virtuoso, é santo, não fico cansado para bem dizer, mas espero um dia para apea-lo do nicho e, se for ainda capaz de arrependimento, faze-lo ajoelhar-se e penitenciar-se da sua “homenagem à virtude” (vide La Rochefoucauld).

        Há nesta cidade dois homens conhecidíssimos por muitos motivos, um dos quais não é certamente as grandes fortunas de que são possuidores. Um é o conde da Pátena e o outro é o visconde de Loques. Um, é político brasileiro; o outro, não o é nem português, por economia.

        Ambos são tidos como homens de grande coração, genero­síssimos.

        Antigamente, não entrava ninguém num veículo que não ouvisse, a um canto, dizerem:

        – Oh! O Pátena! Aquilo sim é que é homem! Ele olha para a pobreza; ele atende aos pequeninos. Veja você só! Quando ele esteve na construção do túnel daqui para Niterói, quanta gente ele empregou? Era só chegar a ele e pedir.

        – Mas, Castrioto, a verba estourou e muita gente ainda está para receber dinheiro.

        – Que tem isto? Ele, ao menos empregava... O doutor Pátena não sabe dizer “não”. É um coração!

        – De fato – eu observei – quando o conde Pátena se põe à testa de um importante serviço público, as verbas não chegam nunca para pagar empregados e para faire marcher l’argent, até às algibeiras dos camaradas. É um mãos-abertas... Torna-se logo suntuosamente generoso com o dinheiro dos... cofres públicos. Os amigos do peito, arruinados ou pobres de origem, enriquecem em meses; e não há pobre-diabo que não consiga, quando Pátena está na ponta, arranjar com ele um emprego em que ganhe seis mil-réis por dia, para “engabelamento” da sua miséria, durante seis meses.

        Um outro milionário que gozava de igual fama, era o visconde de Loques. É uma figura curiosa. Os seus começos mo­destos, mesmo humildes, deram-lhe o hábito de usar um único fraque até esfarelar-se. Há uma anedota, naturalmente fan­tástica, que diz não ser permitido no Banco de Inglaterra espanarem-se as teias de aranha. Elas são a felicidade da casa...

        O visconde só muda de fraque quando este chega a fiapos. É tradição e segurança, de sua fortuna e prosperidade. Ele tem meia centena de milhares de contos; mas não com­pra dois fraques...

A fama no seu bom coração corria a cidade. Havia uma porção de anedotas a tal respeito.

        De manhã, diziam, o visconde quando chega de Paquetá, só na ponte das Barcas distribui mais de cem mil-réis de esmolas. E isto todos os dias!

        Certa manhã, depois de ter notivagado a noite, fui apreciar o espetáculo.

        Pus-me ao lado e talvez com a secreta vontade de lhe pedir também uma espórtula. Juvenal subia o Esquilino, pe­la manhã, embrulhado em trapos, curtindo frio, para mendigar alguns sestércios aos poderosos senadores de Roma...

        Fui apreciar, dizia eu, o espetáculo. Lá estavam a postos os clientes do visconde. Eram vinte ou trinta.

        Havia de tudo: um resumo do nosso povoamento.

        Ei-lo que chega. Atravessa verdadeiramente por uma ala. Dá uma moeda pra cá, dá outra pra lá; e vai-se.

        Aproximam-se do lugar onde estou, dois clientes do visconde.

        Pergunta um ao outro:

        – Quanto ele te deu?

        – Um cruzado. E a ti?

        – Duzentos réis. Foste mais feliz do que eu.

        Calcule. Na média, trezentos réis a cada um; são trinta, no máximo: logo – nove mil-réis. Eis aí em que ficaram os cem mil-réis diários!

        Ainda assim havia mais generosidade no visconde que no conde. Aqueles nove mil-réis eram dele, do seu bolso; e a magnificência do conde era à custa alheia, à custa do país.

        Passaram-se anos; os aluguéis de casa sobem pavorosamente e só ouço, nos trens, nos bondes, nos cafés, queixas contra os senhorios, principalmente contra o visconde e o conde que são grandes, senão os maiores proprietários na cida­de:

        – Você já viu?

        – O que?

        – Aquele sorna do visconde, logo de assentada, aumentou-me o valor do aluguel de um terço – veja você só.

        – Ué! Dizem que ele é tão bom de coração...

        – Vá atrás dele!

        Mais adiante escuto:

        – Não voto mais nesse malvado.

        – Em quem?

        – No Pátena.

        – Porque?

        – Aumentou de repente o aluguel de minha casa de quarenta por cento.

        – É coisa! Entretanto, ele é bom...

        – Pro fogo!

        Diante disto, continuo ainda a lembrar-me daquele ateniense que bania Aristides por estar cansado de ouvir chama-lo de justo. Há muito tempo, já teria eu banido esse visconde e esse conde, por estar cansado de ouvir chamá-los de generosos. E eu tinha razão, como estão vendo.

Careta, Rio, 6-8-1921.

Entendendo a crônica:

01 – Qual é a anedota histórica sobre o ostracismo de Aristides citada por Lima Barreto e qual o seu papel no tema central da crônica?

      O cronista relembra o episódio grego em que um cidadão analfabeto pede ao próprio Aristides que escreva seu voto para bani-lo de Atenas, simplesmente porque estava cansado de ouvir todos o chamarem de "o Justo". Lima Barreto utiliza essa anedota para ilustrar seu ceticismo em relação às virtudes e reputações impecáveis atribuídas publicamente às pessoas, servindo de gancho para questionar a fama de "generosos" que o Conde da Pátena e o Visconde de Loques ostentavam na sociedade.

 

02 – Como é caracterizada a suposta generosidade do Conde da Pátena e qual é a crítica de Lima Barreto a essa conduta?

      O Conde da Pátena era visto pelo público como um homem de grande coração por dar empregos a amigos e necessitados sempre que liderava grandes obras públicas. O autor desmascara essa benevolência ao demonstrar que ela era exercida à custa dos cofres públicos: as verbas estouravam, as contas ficavam sem pagar e os amigos enriqueciam rapidamente. Trata-se de uma crítica ao fisiologismo e à falsa caridade feita com o dinheiro do Estado.

 

03 – Quais são as peculiaridades da figura do Visconde de Loques descritas no texto e qual era o mito em torno de sua caridade diária?

      O Visconde de Loques é retratado como um homem de origem humilde e dono de enorme fortuna, mas com hábitos de extrema pão-durice — como o de vestir o mesmo fraque até virar fiapos por superstição. A fama popular dizia que ele distribuía diariamente mais de cem mil-réis em esmolas para os pobres na ponte das barcas de Paquetá ao desembarcar na cidade.

 

04 – O que o cronista constatou pessoalmente ao presenciar a distribuição de esmolas pelo Visconde de Loques?

      Ao acompanhar o ritual de perto, o narrador ouviu a conversa entre dois beneficiados e descobriu que o Visconde dava quantias irrisórias (como 200 ou 400 réis), totalizando cerca de nove mil-réis para o grupo de trinta mendigos. O autor expõe o abismo entre a realidade da esmola e o boato popular, que multiplicava o valor doado por mais de dez vezes.

 

05 – Qual a comparação que o autor faz entre as "generosidades" do Conde da Pátena e do Visconde de Loques?

      Lima Barreto conclui que, apesar de insignificante, a caridade do Visconde de Loques continha mais mérito real do que a do Conde da Pátena. A razão é que as moedas distribuídas pelo Visconde saíam do seu próprio bolso, enquanto a magnificência do Conde era custeada pelo Tesouro e com prejuízo para o país.

 

06 – Que evento posterior revelou a verdadeira face econômica dos dois aristocratas e transformou a opinião pública sobre eles?

      A alta avassaladora dos aluguéis na cidade expôs a ambição dos dois titulares, que figuravam entre os maiores proprietários de imóveis do Rio de Janeiro. Ao reajustarem os aluguéis de seus inquilinos em taxas abusivas (de um terço a 40%), ambos provocaram a revolta da população nos bondes e trens, desfazendo a ilusão da caridade e revelando a busca gananciosa pelo lucro.

 

07 – Como a metáfora final do banimento de Aristides é retomada para sintetizar a crítica social de Lima Barreto?

      No desfecho, o autor reafirma a validade do seu ceticismo inicial ao declarar que há muito tempo já teria "banido" o Conde e o Visconde pelo simples cansaço de ouví-los aclamados como generosos. A derrocada da boa fama dos dois personagens comprova a tese do cronista de que as reputações virtuosas construídas na esfera pública frequentemente escondem hipocrisia, interesses pessoais ou exploração.

 

 

 

 

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