Artigo de Opinião: Um relato verídico de uma cidadã
Brasília
pede socorro – Ivanildes Silva
Domingo,
noite de 14 de outubro de 2012, centro da cidade de Brasília, W3 Sul, Setor
Comercial Sul. Eu e minha filha ao retornarmos de um passeio que julgava ser
promissor, experimentamos os momentos de medo e terror em pleno centro da
capital, a alguns metros da Esplanada dos Ministérios, Praça dos Três Poderes.
A volta para casa tinha tudo para terminar bem, porém não foi bem assim.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiWcWedg4PGVCeahlpE32K2XDfeCVL-o_cx-HBEpm4KGpOIE9e_DZ1KtMwy_aky-G3VEl23ADirpLTn_BNYfi_7PGDS11fT96Ron2c0G7JfpPCUk-R8jgXthq44dYP9-8u8iSbMLSjy-gCjqlRaDQF9_jXDnMfgP7zpBhl2Jvgra2Z7GLfftWhOoozv-Is/s320/images.jpg Viemos de um shopping, perto da Nova
Rodoviária. A Estação do Metrô fechou às 19 horas e foi necessário pegar um
transporte para um local onde pudéssemos tomar outro até nosso destino final:
Sobradinho. Perto da Nova Rodoviária, a parada de ônibus mal localizada, mal
iluminada, e, na qual, embora estivesse uma placa de proibição de
estacionamento, isso era desobedecido. Já que não havia fiscais para ordenar o
tráfego no local, os passageiros ficaram no meio dos veículos estacionados.
Tomamos o ônibus e a ideia era descer em um local mais seguro, pois em toda a
extensão da W3 Sul, as paradas estavam vazias e escuras. A opção foi saltar em
frente a um local mais movimentado e bem iluminado.
Assim
que descemos do ônibus na W3 Sul, entre as 20 e 20h30min, percebemos um clima
não muito agradável. Justo bem em frente a um grande e famoso shopping, estavam
ali meninas, meninos, homens, crianças, comercializando drogas, disputando o
local de venda de “seus produtos” com os transeuntes e intimidando os passageiros
que esperavam o ônibus. A parada de ônibus foi completamente ocupada por essas
pessoas. Os bancos foram ocupados e nós ficamos em pé, tentando nos distanciar
daquilo e todos juntos, como se estivéssemos agarrados a uma tábua como único
meio de salvação num barco que lentamente naufragava.
A
Praça do Setor Comercial Sul, um dos endereços mais famosos de Brasília, tinha
sido tomada por “comerciantes” de todas as idades, transformando-se em um
shopping popular. Enquanto isso, temíamos acontecer algo de mais grave conosco.
Além disso, o outro problema era a demora do ônibus. Foi aterrorizante, pois
imaginávamos que, a qualquer hora, alguém tomasse ou arrebatasse nossos
pertences e nosso dinheiro. Toda hora vinha um pedir um trocado para comprar um
lanche. Mas sabemos que aquela conversa era “para boi dormir”, pois, na
verdade, queria angariar um dinheiro para alimentar seu vício. Isso era
flagrante na feição do jovem. Quando um viu passar uma viatura, avisava aos
demais que debandavam para as galerias do Setor Comercial Sul ou atravessavam
para os arredores do shopping e se escondiam, momentaneamente, sabendo que nada
aconteceria.
Durante
esses momentos de terror, nenhum carro da polícia parou ou fez alguma investida
pelas imediações, o que nos causou espanto. Até os turistas sentiram-se
intimidados com aquela situação e depois de longa espera, atravessavam no meio
dos carros, em busca de um táxi em frente ao shopping. O comentário geral era
que as ruas estavam entregues ao tráfico, assim como pairava um clima de
tristeza, presenciando aquelas cenas terríveis. Muitos de nós nos lembrávamos
de um passado não tão distante em que tínhamos a liberdade de transitar
livremente pelo centro de Brasília em busca de diversão com nossas famílias.
Logo depois, voltávamos tranquilamente para nossas casas, incólumes, no fim de
semana.
À
medida que o tempo passava, todos iam se juntando ali num espaço pequeno,
tentando se resguardar, assim como proteger a família: mulheres com crianças de
colo, pessoas mais idosas, famílias, casais de namorados, jovens que saíram do
shopping, assim como funcionários. Minha filha respirava forte e aflita, não só
pelo que testemunhou como também pela demora do ônibus. Eu a acalmei, porém
também estava também aterrorizada com o que via. Todos passavam pelo mesmo
sentimento de terror e revolta. A perplexidade era enorme com o que víamos ali
estampados em nossos olhos, em plena noite de domingo. O que dava mais medo era
saber que o transporte demorava mais e o medo aumentava.
Na
tentativa de “fugir” daquele clima ameaçador, tivemos que pegar um ônibus até
Rodoviária do Plano Piloto, a fim de encontrar o ônibus para Sobradinho. Mesmo
assim, verificamos que, embora as ruas estivessem escuras, o local parecia mais
tranquilo e seguro. Ali a ronda policial estava mais intensa e por isso,
talvez, não tenhamos visto cenas deprimentes como as que vimos na W3 Sul. Toda
hora passava uma viatura e o esquema ostensivo de policiais no local, diminuía
o poder de ação dos infratores.
Como
cidadãos honestos que somos, pagamos altos impostos e taxas exorbitantes. Nessa
hora, não temos o retorno disso, que ao menos se resumiria a uma ronda policial
mais intensa, afastando aqueles indivíduos. Ao menos, poderiam zelar pela nossa
integridade física e moral. Minha sensação de cidadã caiu por água a abaixo. O
clima de insegurança da gente e a noção de impunidade daqueles menores e jovens
infratores fazem com que as ruas sejam cada vez mais lotadas de gente como
essa. Foi deprimente ver nossos familiares compartilharem esse clima de
insegurança. Usuários fumavam ali mesmo, na W3 Sul, lugar central e
privilegiado. Traficantes anunciavam e vendiam ao lado de demais pessoas. A
quem recorrer? O que nos esperava?
Apesar
de a mídia divulgar, amplamente sobre a violência do centro da cidade, isto é,
que as ruas de Brasília estão entregues aos meliantes, menores infratores e
usuários de drogas, é difícil de acreditar. A ideia que temos é que há exagero
nessas informações para ganhar pontos na audiência diária nas emissoras.
Entretanto, o que vimos e passamos foi exemplo de que, realmente, a
imprensa está certa. Infelizmente são dados concretos de que as vias públicas
estão se tornando, cada vez mais palcos de impunidade por parte de pessoas
inescrupulosas e que estão ali para “comercializarem” todo o tipo de produto
ilícito.
Pelo
que eu, minha filha e outras pessoas pagadoras de seus impostos pudemos
testemunhar, o problema da violência urbana está piorando a cada dia. Temo pelo
que poderá acontecer em um futuro próximo. O clima gerado pela tensão só nos
tira a vontade de jamais voltarmos àquele local com nossas famílias. Também foi
fator negativo para os turistas, que, provavelmente farão um comercial negativo
lá fora. Além disso, estamos prestes a receber dois grandes eventos: a Copa das
Confederações em junho de 2013 e, em 2014, a Copa do Mundo. Brasília, portanto,
a cidade sediará eventos internacionais dessa importância e precisa se adaptar
à nova realidade, dando segurança, conforto e bem estar aos seus moradores, aos
turistas nacionais e estrangeiros.
Depois
do que passamos, continuo a afirmar que o caso da violência no centro da cidade
está grave. Chegou o momento de as autoridades, urgentemente, tomarem medidas
eficazes em favor de nossa segurança. O intuito de tais ações efetivas é
garantir mais qualidade de vida aos usuários do transporte urbano e também a
outras pessoas. Deve haver maior fiscalização dos horários dos ônibus, aumento
da frota e punição das empresas pelo descaso e descumprimento de horários, a
fim de não deixarem os passageiros expostos a qualquer ameaça.
É
imprescindível também que haja, por meio dos poderes públicos, mais
sensibilização para com os cidadãos. A carga tributária é muito alta e o
retorno muito pouco ou quase nada em termos
de segurança, saúde, educação e transporte, não só
para os turistas, mas também para os habitantes dessa cidade, centro das
grandes decisões e exemplo de modernidade para o resto do país. Com todos esses
problemas vão se esvaziando ainda mais, a W3 Sul, a W3 Norte, o Setor Comercial
Sul e Norte, as quadras e entrequadras da moderna Brasília. Aos poucos também
vai morrendo um passado de glória e tradição em 52 anos de fundação da cidade.
Brasília agoniza, pedindo socorro urgente às autoridades públicas, antes que
morra à míngua, entregue à violência e entregue à sua própria sorte.
Entendendo o artigo:
01 – Qual é o principal acontecimento motivador
que impulsionou a autora a redigir este artigo de opinião?
O evento motivador foi a vivência de momentos de medo, terror e insegurança na noite de domingo de 14 de outubro de 2012, no centro de Brasília (W3 Sul e Setor Comercial Sul). A autora e sua filha, ao retornarem de um passeio, ficaram presas em uma parada de ônibus escura, mal localizada e tomada por traficantes, usuários de drogas e menores infratores, sem o apoio de policiamento ostensivo.
02 – De que maneira a autora caracteriza a
infraestrutura do transporte público e as condições urbanas locais no trecho
inicial de seu relato?
A autora aponta sérias falhas estruturais, como o fechamento precoce do metrô aos domingos (às 19h), paradas de ônibus mal localizadas e mal iluminadas, ausência de fiscais de trânsito para ordenar veículos estacionados irregularmente e grande demora na circulação dos ônibus. Essa combinação deixou os passageiros vulneráveis, expostos e aglomerados em locais desprotegidos.
03 – Como o Setor Comercial Sul e a W3 Sul
foram transformados, segundo a percepção e o relato testemunhal da autora?
Os locais foram apropriados por traficantes, usuários e menores de idade de todas as idades, que comercializavam drogas abertamente, disputavam pontos de venda, intimidavam os pedestres e ocupavam completamente os bancos das paradas de ônibus. A praça e as vias públicas funcionavam, na prática, como um "shopping popular" do crime, provocando a fuga dos criminosos apenas de forma momentânea quando viaturas distantes eram avistadas.
04 – Qual era o sentimento predominante entre
os cidadãos, famílias e turistas que aguardavam o transporte público naquele
momento?
O sentimento geral era de profundo terror, revolta, perplexidade e forte tensão. As pessoas se mantinham aglomeradas e juntas para tentar se proteger mutuamente, enquanto crianças, idosos, casais e turistas compartilhavam o temor de sofrer roubos ou agressões físicas diante da inércia das autoridades.
05 – Qual é a crítica central que a autora faz
em relação à atuação do Estado e ao retorno dos impostos pagos pela população?
A autora critica duramente a falta de retorno prático da alta carga tributária paga pelos cidadãos honestos. Ela aponta a total ausência de rondas policiais ostensivas nas áreas críticas, o que gera uma forte sensação de impunidade para os infratores e destrói o sentimento de cidadania e segurança da população que financia a máquina pública.
06 – Como a experiência vivida modificou a
visão prévia da autora em relação às notícias veiculadas pela imprensa sobre a
criminalidade na capital?
Inicialmente, a autora e grande parte da população acreditavam que a mídia exagerava nos dados sobre a violência urbana no centro de Brasília com o objetivo exclusivo de alavancar a audiência diária. Contudo, após vivenciar diretamente o terror e a criminalidade escancarada nas ruas, ela concluiu que os jornais estavam corretos e que os dados divulgados são reais e concretos.
07 – Quais medidas urgentes a autora sugere que
sejam tomadas pelas autoridades governamentais para sanar o problema antes da
chegada de eventos internacionais?
A autora exige ações eficazes de segurança pública, aumento
da fiscalização e da frota de ônibus, punição para empresas de transporte
negligentes, intensificação das rondas policiais e investimentos reais que
garantam o bem-estar dos moradores e dos turistas que visitariam a cidade para
a Copa das Confederações (2013) e a Copa do Mundo (2014).
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