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domingo, 26 de julho de 2026

CONTO DE FICÇÃO CIENTÍFICA: IMPASSE - ISAAC ASIMOV - COM GABARITO

 Conto de ficção científica: Impasse

 

        “Gregory Arnfeld não estava propriamente moribundo, mas não lhe restava muito tempo de vida. Tinha um câncer inoperável e havia recusado com firmeza todas as sugestões para que tentasse um tratamento de radiação ou quimioterapia.  

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi3cd5kDjuQmBJ7w4gElOpfXFk1zS8l6BlbNzdliKrNrb07YO0TBMi2mtn1r00PcLhAd7yzVTFraB3ODB1cpt94wbfJGF46p1zMmmjCzJQgUYtCpkIa5YjLJ9hFqdxFEIDCmy-oRYDsdFSPjMZXpjx7aEfggRHJGLmQZdnStwQi_IsKKV2jO6VmdieOj5c/s320/images.jpg


        Sorriu para a mulher, sem levantar a cabeça do travesseiro, e disse:

        -- Sou o caso perfeito, Tertia. Mike cuidará de mim. Tertia não sorriu. Parecia terrivelmente preocupada. 

        -- Existem tantas coisas que podem ser feitas, Gregory. Mike deve ser considerado como o último recurso. Talvez não haja necessidade de usá-lo. 

        -- Não, não, quando acabarem de me afogar com produtos químicos e de me encharcar de radiação, estarei tão doente que não será um teste justo. 

        -- Estamos no século XXII, Greg. Existem tantos tratamentos para o câncer.

        -- Verdade, mas Mike é um deles, e o melhor, na minha opinião. Estamos no século XXII e sabemos do que os robôs são capazes. Eu, pelo menos, sei muito bem. Sou a pessoa mais chegada a Mike. Você sabe disso. 

        -- Sei, mas não deve usá-lo apenas por orgulho. Além disso, como pode ter tanta confiança na miniaturização? É uma ciência ainda mais nova que a robótica.

        Arnfeld assentiu. 

        -- De acordo, Tertia, mas os rapazes da miniaturização me parecem extremamente confiantes. Podem diminuir o tamanho do corpo ou fazê-lo voltar ao normal de forma quase rotineira e os controles que tornam isso possível foram implantados no corpo de Mike. Ele pode aumentar ou diminuir de tamanho à vontade, sem afetar as coisas que o cercam.

        -- De forma quase rotineira – repetiu Tertia, com ironia. 

        -- Isso é tudo o que podemos pedir, na verdade. Pense nisso, Tertia. Tenho sorte de ser parte da experiência. Vou passar para a história como o principal responsável pelo projeto de Mike, mas isso será secundário. Meu maior feito será o de ter sido tratado com sucesso por um mini-robô, e por minha livre e espontânea vontade. 

        -- Sabe que é perigoso. 

        -- Tudo na vida é perigoso. Os remédios e a radiação têm graves efeitos colaterais. Podem retardar a progressão da doença, sem curá-la. Ficarei reduzido a uma existência limitada, quase vegetativa. E se não fizer nada, certamente morrerei em pouco tempo. Por outro lado, se Mike cumprir a sua missão, minha saúde voltará ao normal, e se houver uma recaída, bastará recorrer novamente a ele. 

        Estendeu a mão para segurar a da esposa.

        -- Tertia, sabíamos que o momento estava próximo, eu e você. Vamos tirar proveito desta oportunidade, será uma experiência gloriosa.

        Neste momento, Louis Secundo, do grupo de miniaturização, disse:

        -- Não, Sr. Arnfeld. Não podemos garantir o sucesso. O processo de miniaturização está intimamente ligado à mecânica quântica e, portanto, existe uma componente probabilística. Enquanto o MIK-27 estiver diminuindo de tamanho, há sempre a possibilidade de ocorrer uma expansão súbita, não planejada, o que naturalmente matará o paciente. Quanto maior a redução de tamanho, quanto menor o robô se tornar, maior a probabilidade de que essa expansão ocorra. E quando ele começar a voltar ao tamanho normal, a probabilidade de uma expansão descontrolada será ainda maior. Na verdade, essa será a fase mais perigosa de toda a experiência. 

        Tertia sacudiu a cabeça.

        -- Acha que isso vai acontecer? 

        -- É muito pouco provável, Sra. Arnfeld, mas não impossível. É preciso que a senhora compreenda isso

        -- E se Mike for reduzido a um tamanho pequeno demais por causa de algum erro ou falha no mecanismo? Nesse caso, a expansão súbita seria inevitável, não seria? 

        -- Não exatamente. Continuaria a ser um fenômeno estatístico. A probabilidade aumenta à medida que o tamanho de Mike diminui. Entretanto, quanto menor ele se torna, menor a sua massa. A partir de um certo ponto, a massa do robô ficará tão pequena que qualquer movimento o fará sair voando com uma velocidade próxima da luz. 

        -- E isso não mataria meu marido? 

        -- Não. A essa altura, Mike seria tão pequeno que poderia passar por entre os átomos do doutor sem afetá-los. 

        -- Mas qual seria a probabilidade de que ele sofresse uma expansão súbita ao atingir um tamanho tão reduzido? 

        -- Quando o MIK-27 chegasse ao tamanho de um neutrino, digamos, sua meia vida seria de alguns segundos. Em outras palavras, haveria uma probabilidade de cinquenta por cento de que sofresse uma expansão dentro de alguns segundos, mas a essa altura já estaria a uma distância de centenas de milhares de quilômetros da Terra, em pleno espaço sideral, de modo que a explosão resultante produziria apenas uma pequena chuva de raios gama para intrigar os astrônomos. Só que nada disso vai acontecer. O MIK-27 vai seguir as instruções e reduzir-se apenas ao tamanho necessário para realizar a operação. 

        A Sra. Arnfeld conhecera Mike pouco depois de o robô ter ficado pronto, quando estava sendo submetido aos primeiros testes. Não era um robô bem-proporcionado. A cabeça era muito pequena, os quadris largos demais. Tinha uma forma quase cônica, com o vértice para cima. A Sra. Arnfeld sabia que isso se devia ao fato de o mecanismo de miniaturização, juntamente com o cérebro localizado no abdômen, o que aumentava a rapidez dos reflexos. Como o marido lhe explicara, seria inadequado instalar o cérebro na parte superior da máquina. Entretanto, a forma escolhida fazia Mike parecer ridículo, quase um retardado mental.

        -- Tem certeza de que compreende bem qual é sua missão, Mike?

        -- Perguntou a Sra. Arnfeld ao conhece-lo.

        -- Compreendo perfeitamente, Sra. Arnfeld. Devo eliminar todas as células cancerosas. Quando eu estiver do tamanho certo, poderei reconhecer facilmente as células cancerosas e matá-las, destruindo o núcleo da doença.

        -- Disse Mike, em tom solene.

 

ASIMOV, Isaac. Visões de robôs. Trad. Ronaldo Sérgio. Rio de Janeiro: Editora Record. 2002.

 

Entendendo o conto:

01 – Qual é o dilema de saúde enfrentado por Gregory Arnfeld e qual alternativa de tratamento ele escolhe?

      Gregory tem um câncer inoperável e recusa categoricamente os tratamentos tradicionais (quimioterapia e radiação) por conta dos graves efeitos colaterais. Ele opta por ser submetido a uma técnica experimental: o uso de um robô miniaturizado chamado Mike (MIK-27), reprogramado para entrar em seu corpo e destruir diretamente as células cancerosas.

 

02 – Por que a esposa de Gregory, Tertia, hesita em aceitar a escolha do marido?

      Tertia considera que o robô deve ser o último recurso, pois a ciência da miniaturização ainda é muito recente e experimental ("quase rotineira"). Ela se preocupa com a segurança do marido e teme que o orgulho de Gregory por ter ajudado a criar Mike o esteja cegando para os riscos reais da experiência.

 

03 – Segundo o especialista Louis Secundo, qual é o maior risco do processo de miniaturização?

      Devido às leis da mecânica quântica, o processo tem caráter probabilístico. O maior perigo é a ocorrência de uma expansão súbita e descontrolada do robô. Se essa expansão ocorrer enquanto Mike estiver dentro do corpo do paciente, resultará na morte imediata de Gregory. O risco é ainda maior na fase em que o robô precisa retornar ao seu tamanho normal.

 

04 – O que aconteceria se o robô sofresse uma falha e encolhesse a um tamanho excessivamente pequeno?

      Se Mike encolher a ponto de ter a massa drasticamente reduzida (como o tamanho de um neutrino), qualquer movimento o faria voar para o espaço a uma velocidade próxima à da luz. Ele atravessaria o corpo do paciente sem machucá-lo (passando entre os átomos) e, caso sofresse a expansão súbita no espaço, causaria apenas uma pequena chuva de raios gama a centenas de milhares de quilômetros da Terra.

 

05 – Por que a forma física do robô Mike é descrita como "cônica" e "ridícula"?

      Mike tem uma cabeça pequena e quadris muito largos. O motivo dessa estrutura é técnico: o mecanismo de miniaturização e seu cérebro posicionado no abdômen exigiam esse espaço na parte inferior para otimizar e acelerar os reflexos da máquina. Apesar de parecer desproporcional, o design atende a uma necessidade funcional.

 

06 – Além do desejo de cura, qual é a motivação pessoal de Gregory para aceitar o procedimento?

      Gregory deseja entrar para a história. Ele já é reconhecido como o principal responsável pelo projeto do robô Mike, mas enxerga como seu maior feito a oportunidade de ser o primeiro ser humano a ser tratado e curado por um mini-robô por livre e espontânea vontade, considerando isso uma "experiência gloriosa".

 

07 – Qual é a missão exata que o robô Mike afirma compreender ao final do trecho?

      Mike afirma que sua missão é ser reduzido ao tamanho ideal para entrar no organismo, identificar as células cancerosas com facilidade e eliminá-las uma a uma, destruindo o núcleo da doença para restabelecer a saúde de seu criador.

 

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