Poema: Errante
Florbela
Espanca
Meu coração da cor dos rubros vinhos
Rasga a mortalha do meu peito brando
E vai fugindo, e tonto vai andando
A perder-se nas brumas dos caminhos.
Meu coração o místico profeta,
O paladino audaz da desventura,
Que sonha ser um santo e um poeta,
Vai procurar o Paço da Ventura...
Meu coração não chega lá decerto...
Não conhece o caminho nem o trilho,
Nem há memória desse sítio incerto...
Eu tecerei uns sonhos irreais...
Como essa mãe que viu partir o filho,
Como esse filho que não voltou mais!
Florbela Espanca, in
"A Mensageira das Violetas".
Entendendo o poema:
01
– Que imagem do "coração" é construída no primeiro quarteto e o que o
título "Errante" sugere sobre ele?
O coração é
descrito como "a cor dos rubros vinhos", sugerindo paixão,
intensidade e dor profunda. Ele "rasga a mortalha" do peito, o que
indica um ímpeto violento de libertação de um corpo sufocado. O título
"Errante" e os versos finais da estrofe revelam que esse coração se
move sem rumo fixo, andando "tonto" e "a perder-se nas
brumas", simbolizando uma busca cega e desorientada.
02
– No segundo quarteto, quais títulos ou identidades o eu lírico atribui ao seu
próprio coração?
O eu lírico
personifica o coração atribuindo-lhe três identidades distintas e elevadas:
"O místico
profeta": Aquele que enxerga além, ligado à espiritualidade e ao destino.
"O paladino audaz da
desventura": Um guerreiro corajoso, mas cuja sina ou missão é o sofrimento
(a desventura).
Aquele que "sonha ser
um santo e um poeta": Uma busca pela pureza espiritual máxima combinada
com a expressão artística ideal.
03
– O que representa o "Paço da Ventura" que o coração do eu lírico
decide procurar?
O "Paço da
Ventura" (sendo paço um palácio e ventura sinônimo de felicidade ou boa
sorte) funciona como uma metáfora para a plenitude, a felicidade idealizada e a
realização dos sonhos. É o destino utópico onde o coração acredita que
encontrará o alívio para as suas dores e a coroação dos seus desejos.
04
– No primeiro terceto, qual é a constatação do eu lírico a respeito da busca
empreendida pelo coração?
O eu lírico
assume uma postura de absoluto ceticismo e desilusão, decretando o fracasso da
jornada: "Meu coração não chega lá decerto...". A justificativa para
essa certeza é o total desconhecimento do caminho e a própria natureza
intangível desse destino, classificado como um "sítio incerto" do
qual não se tem memória real, restando apenas o isolamento.
05
– Como a imagem da mãe e do filho no último terceto coroa o sentimento de perda
definitiva do poema?
A comparação com
"essa mãe que viu partir o filho" e com o "filho que não voltou
mais" constrói uma das imagens mais dolorosas da poesia florbeliana. Ela
simboliza a separação eterna e irreversível entre o desejo e a realidade. Assim
como a mãe fica presa à dolorosa tarefa de tecer "sonhos irreais"
sobre alguém que jamais retornará, o eu lírico conforma-se em viver de ilusões
sobre uma felicidade que ele sabe que seu coração errante nunca alcançará.
Nenhum comentário:
Postar um comentário