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segunda-feira, 8 de junho de 2026

CRÔNICA: ADOLESCÊNCIAM- ALCIONE ARAÚJO - COM GABARITO

 Crônica: Adolescência

                   Alcione Araujo

           Já era outono e nós tínhamos o espírito suave da primavera. Aos 15, 16 anos, podíamos ser o que a nossa imaginação alcançasse. A realidade era intangível e desnecessária. Era uma imposição contra a qual nos rebelávamos. Era uma interdição ao nosso sonho. Mais do que interdição, era o fim do nosso sonho. Na realidade, não há grandes paixões, não somos gênios, não somos heróis, nem mártires, nem santos. Na realidade, somos reduzidos a adolescentes espinhentos, a quem ninguém dá ouvidos. A realidade é o princípio da morte.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiUvEDBGqC1QzZP0KfpX_dipCbD_vjSBHMBeZzJOTI5t4UWLKLuqs0EWzOHgYpKnedbGY1DMXo4udhBN3B79kkpJLlDyTBelbaJXKlL0QxRqhAtQeOZMHjBf-i4_Oy6n2zqx-0k7e0TroPVEGdLQs2q1UlI6su6SNXSDK788_MyEW-HwtR2NNPtOqorgvU/s1600/adolescente.jpg


             Nós, adolescentes, morríamos a todo momento, sufocados pela realidade. E éramos sepultados no chão duro da realidade. Mas tínhamos mais vidas que o gato. Sete vezes sete vidas. E logo ressuscitávamos, fugíamos das grades da realidade, rasgávamos a camisa-de-força da realidade, e mergulhávamos outra vez no sonho. E com as nossas sete vezes sete vidas, nos tornávamos James Dean, Pelé, Napoleão, Bethoven, Jesus Cristo, Dostoievski, e tantos outros, que surgiam e se apagavam tão depressa, que não deixavam nenhuma luz no mundo.

             E fui tantos e quantos, que perdi a conta. Qualquer romance eu era dois três. Qualquer filme, mais dois ou três. Em qualquer festa, eu era um ou dois. Fui tantos! E fui me construindo com esses cacos que a minha adolescência juntava, com esses retalhos de alma, dessa poeira que se acumula com o tempo. E fui me fazendo com o que sobrava dos outros (…). Não é que eu viva no passado, é que o passado está em mim.

             Mesmo sendo fruto desta colagem, ela foi se misturando de uma maneira singular. Havia mais resignação no lado direito, mais revolta no esquerdo, mais firmeza no caráter, mais incertezas quanto ao certo. Mais convicção quanto à arte, menos quanto ao amor. Que alegria, se eu conseguisse ser eu!

             Certamente, seria outro, outra síntese de outros. E mesmo entre nós, adolescentes, uns eram ídolos de outros. Por pouco tempo, é verdade. Mas em rodízio. Algum, capaz de um ato de coragem, atraía os olhares de admiração dos mais medrosos. O que arranjava namorada, era invejado, copiava-se até o penteado do seu cabelo. Andava-se com pente no bolso de trás e, no bolsinho de moedas, espelhinho oval, com foto de mulher nua, ou escudo do time preferido. Servia para pentear cabelo, espremer cravo e pôr sobre o sapato enquanto as meninas passavam de saia – embora nunca tenha visto esse uso. Eu não me encontrava em lugar algum. Parecia o fantasma de um cão adestrado. Ia para um lado e outro, sempre seguindo a decisão de alguém, na solidão dos que vão atrás.

             As garotas não sabem o que é adolescência. Elas saltam de uma etapa para outra, sem ninguém perceber. De repente, pronto: eis a mulher! Nariz empinado, muda a maneira de vestir e de conversar. E isso inclui ignorar até os irmãos. Quando se é um adolescente, nenhuma garota tem a sua idade. Ou melhor, ninguém tem a sua idade. Você é a única criatura no mundo que (…) ninguém confia, ninguém dá dinheiro e, à primeira coisa errada que aconteça, você é suspeito de ser o autor.

             Que fase maravilhosa, a adolescência! Você próprio está se construindo. Um ser em obras, com andaimes, latas de tinta e pincéis. Tudo é um vir-a-ser. Vida, profissão, amor, família, tudo é futuro. Por isso, pode voar em sonhos e mergulhar em delírios. Em sonhos e delírios, você é o que quiser. Se ninguém entende e reclama de você fica na sua. Mas bem na sua mesmo. Esconda-se naquele lugar onde ninguém vai lhe achar, nem mesmo você sabe onde é direito. Vai para lá no automático. E fica lá em silêncio consigo mesmo. Afinal, nem você mesmo se entende. Mas os que se queixam de você, não se entendem entre si também.

             Sempre se diz que a adolescência é a fase mais difícil, porque deixou-se de ser uma coisa e ainda não se é outra. Não se deu assim comigo. Se me fosse dado voltar no tempo, eu voltaria para a adolescência. Foi o período mais alegre da minha vida. Eu tinha tão pouco e precisava de tão menos, que do nada havia sobra. Era a aventura e a alegria, a curiosidade e as descobertas, a gratuidade de uma vida que ainda não era. Vivi mais perto de mim, com mais paz, e mais perto de ser feliz. Para quem não tem nada, menos que pouco pode ser o bastante. Ou até demais.

Entendendo o texto

01. No primeiro parágrafo, o autor afirma que a "realidade" era uma inimiga dos adolescentes. Por que ele pensava assim?

a) Porque na realidade eles eram obrigados a trabalhar e ganhar o próprio dinheiro.

b) Porque a realidade reduzia os jovens a "adolescentes espinhentos" e destruía a grandiosidade de seus sonhos.

c) Porque a realidade exigia que eles fossem heróis, santos e gênios o tempo todo.

d) Porque os pais controlavam tudo o que eles faziam no mundo real.

02. Para explicar a capacidade do adolescente de se recuperar dos problemas e voltar a sonhar, o autor faz uma comparação com:

a) Um fantasma de um cão adestrado.

b) Um edifício cheio de andaimes e latas de tinta.

c) Um escudo do seu time preferido de futebol.

d) As sete vidas de um gato.

03. O autor utiliza uma metáfora marcante para descrever o processo de crescimento e autoconhecimento na adolescência. Ele diz que o jovem é:

a) Um ser em obras, cheio de andaimes, latas de tinta e pincéis.

b) Um livro antigo com páginas rasgadas.

c) Uma camisa-de-força difícil de desamarrar.

d) Um ator de cinema que esqueceu o roteiro do filme.

04. De acordo com a visão do narrador sobre as garotas da mesma idade, elas:

a) Passavam pela adolescência de forma muito mais lenta e dolorosa que os meninos.

b) Sempre confiavam nos garotos e os ajudavam a espremer cravos.

c) Não sabiam o que era a adolescência, pois se transformavam em mulheres de repente.

d) Gostavam de usar roupas infantis para parecerem mais novas.

05. Ao contrário do que muitas pessoas dizem, qual é a opinião final do autor sobre a adolescência quando ele olha para o passado?

a) Foi a fase mais difícil e triste de sua vida, pois ele nunca se entendia.

b) Foi um período violento do qual ele prefere esquecer e não voltar no tempo.

c) Foi o período mais alegre de sua vida, onde ele precisava de muito pouco para ser feliz.

d) Foi uma época sem importância, já que ele vivia imitando os outros garotos.

 

 

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