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domingo, 21 de junho de 2026

CONTO: O CAPOTE II - PARTE 2 - NICOLAI GOGÓL - COM GABARITO

 Conto: O CAPOTE II – PARTE 2

          Nicolai Gogól

 

        Enquanto caminhava, roçou por ele um limpa-chaminés, que o sujou no ombro, e caiu-lhe também em cima um pedaço de argamassa de uma casa em construção. Não se apercebia de nada, e, mais tarde, quando tropeçou contra um guarda municipal, ao mudar este a espingarda para tirar tabaco do bolso, despertou ao ouvir o mesmo admoestá-lo:

        -- Porque te metes debaixo do meu nariz? Não te chega a rua?

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiG8tV-qmSJAKqetR0jmyPvKhhJhC7EwP9Jm0ueiv_hrEEa0vYXPs2WAM6ea8EUY5EwxBngB3lmImesHZC1a6WfBIfEg56Gxdq_NKZ5GQgDgOgJtPWDmxco7uaP4-_z5_t0vty8kUhPhTEnKdke4xO8ortTX7kUXZm5VMOJXkcl5KwICwlFNF1rgNiFQ7A/s320/CAPOTE.jpg


        Aquilo obrigou-o a refletir e a dirigir-se a casa. Só então lhe foi dado concentrar os seus pensamentos e viu com clareza a sua presente situação; começou a falar com os seus botões, sem a anterior incoerência, mas meditando com lógica, como se revelasse a um amigo inteligente o mais íntimo segredo do seu coração.

        "Não", monologava Acaqui Acaquievich. "Não convém hoje tratar com Petrovich. Hoje, a mulher... deve ter-lhe dado uma sova. O melhor será voltar domingo de manhã: depois da bebedeira da véspera estará ainda com o olho pisco e sonolento, e, como precisa de voltar a beber e a mulher não lhe dá dinheiro, se eu lhe passar uns rublos para a mão, deixa-se convencer e conserta-me o capote."

        Assim ia monologando e assim se ia animando Acaqui Acaquievich. Esperou até ao domingo seguinte e, depois de ver a mulher de Petrovich sair de casa, entrou com ar decidido.

        Custava muitíssimo a Petrovich, com efeito, abrir o seu único olho depois do que bebera na véspera, e cabeceava, sonolento; mas, apenas soube do que se tratava, pareceu que se apossara dele o Diabo.

        -- Não pode ser! – disse. – Tem de se lazer outro novo.

        Acaqui Acaquievich meteu-lhe uns copeques na mão.

        -- Obrigado, senhor. Agora poderei fortalecer-me um pouco à sua saúde – disse o alfaiate. – E não se preocupe você com o capote: não serve para nada. Far-lhe-ei um novo; e, quanto ao preço, havemos de entender-nos.

        Acaqui Acaquievich preferia que ele lhe cosesse o velho, mas Petrovich não fazia caso das suas palavras e insistia:

        -- Far-lhe-ei um novo, com toda a perfeição; tenha confiança em mim, farei quanto puder. E, se for preciso, até lhe ponho botões de prata, pois agora estão na moda.

        -- E Acaqui Acaquievich, vendo que não tinha outra solução senão fazer um capote novo, sentia um grande pavor na sua alma. Era necessário, tinha de ser, mas o dinheiro? Podia, certamente, contar com a gratificação que receberia nas próximas festas, mas esse dinheiro estava há muito já destinado. Necessitava fazer umas calças novas, pagar ao sapateiro uma dívida antiga de umas meias solas e, além disso, tinha de mandar fazer, sem falta, três camisas novas, duas das quais brancas; numa palavra, o dinheiro estava já destinado, e, ainda que tivesse um diretor compreensivo, capaz de conceder uma gratificação de quarenta e cinco ou cinquenta rublos, em vez de quarenta, o restante seria apenas uma insignificância para a soma de que necessitava para o capote – uma verdadeira gota de água no oceano.

        Sabia perfeitamente que Petrovich costumava fazer preços exorbitantes, de tal modo que até a mulher não podia conter-se e exclamava: "Mas tu estás com o juízo todo? Umas vezes aceitas o trabalho por nada, e agora atreveste a pedir um preço que nem tu próprio vales." E sabia perfeitamente também que Petrovich acabaria por fazer-lhe o capote por oitenta rublos; entretanto, donde haviam de vir-lhe esses oitenta rublos? Metade ainda podia arranjar-se: metade, sim, e talvez um pouco mais; mas onde conseguir a outra metade? Antes de prosseguirmos, deve o leitor ficar a saber donde lhe podia vir a primeira metade.

        Acaqui Acaquievich tinha o costume de reservar uma pequena quantia por cada rublo que gastava num mealheiro pequeno e fechado, com uma larga abertura. Ao cabo de cada meio ano contava o dinheiro em cobre e trocava-o por moedas de prata. Assim procedera durante muito tempo, e, desta maneira, ao fim de alguns anos reunira uma soma superior a quarenta rublos. A metade, por conseguinte, encontrava-se nas suas mãos; mas a outra metade? Onde obter os outros quarenta rublos?

        Acaqui Acaquievich pensava, pensava, e chegou à conclusão de que o único recurso era reduzir até ao extremo possível todos os gastos ordinários durante um ano, abolir o hábito de tomar chá à noite, não acender a luz e, quando precisasse de copiar qualquer coisa, ir ao quarto da patroa e trabalhar à luz da sua vela; ao caminhar pela rua, fazer por andar o mais cuidadosamente possível e evitar as pedras ou pedaços de ferro, para não gastar rapidamente as solas dos sapatos; dar à lavadeira a roupa branca com a menor frequência possível e, para que se não gastasse, tirá-la logo ao chegar a casa e substitui-la pela camisa de dormir, que era de algodão, muito velha, e não podia durar muito mais.

        Para dizer inteiramente a verdade, consignaremos que, a princípio, lhe custou muito habituar-se a todas estas privações, mas depois, uma vez acostumado, chegou até a suprimir a refeição da noite; em compensação, alimentava-se espiritualmente, pensando no seu futuro capote. 

        A partir daí pareceu encontrar um complemento do seu ser, como se fora casar, ou como se se sentisse outro, como se não estivesse sozinho na vida, como se tivesse encontrado uma companheira que aceitasse seguir juntamente com ele pela estrada da vida; ora esta companheira não era outra senão o seu capote, de grosso forro, sem a menor passagem. 

        Tornou-se mais animado e de caráter mais firme, como um homem que se propôs um fim determinado. Do seu rosto e até dos seus passos desapareceram a dúvida e a indecisão. No seu olhar aparecia mesmo um certo lampejo; no cérebro passavam-lhe, como relâmpagos, pensamentos audazes e temerários: "Porque não havia de pôr a gola de marta?" Com estas ideias tornou-se um tanto distraído. Uma ocasião, ao copiar um oficio, esteve a ponto de fazer um erro; quase gritou em voz alta "ai!" e fez o sinal da cruz.

        Uma vez por mês, pelo menos, visitava Petrovich, com o propósito de lhe falar acerca da memória começa a fraquejar e os nomes das ruas de Sampetersburgo misturaram-se-me de tal maneira na cabeça que me é muito difícil ordená-las. Seja como for, o fato é que vivia numa das melhores artérias da cidade, bastante longe de Acaqui Acaquievich.

        Teve este de seguir primeiramente através de ruas solitárias, de iluminação escassa; mas, à medida que se aproximava do domicílio do funcionário, as ruas eram mais animadas, a iluminação maior e mais intensa; os viandantes iam e vinham, mais frequentes, multiplicavam-se as mulheres elegantemente vestidas; os homens levavam golas de pele de castor; quase não se viam já os bancos de madeira esburacada; os cocheiros, de libré dourada e gorro de veludo carmesim, sobre os trenós envernizados e forrados de peles, vagueavam pelas ruas... Acaqui Acaquievich admirava tudo aquilo como uma novidade; há muitos anos que não saía à noite. 

        Cheio de curiosidade, deteve-se diante de uma montra para ver o quadro de uma mulher belíssima a descalçar um sapato, mostrando assim toda a perna escultural; por detrás dela assomava a uma porta um sujeito de patilhas e com uma bonita barba ao gosto espanhol. Acaqui Acaquievich abanou a cabeça, sorrindo, e prosseguiu o seu caminho. 

        Porque sorria ele? Talvez por lhe serem desconhecidas todas as pessoas com quem cruzava, ou talvez por um sentimento oculto em relação a esse ambiente, ou então porque pensava como pensam funcionários: "Vá! Estes Franceses! O que se diz! Que inveja causa! Há que ver, precisamente e tal!...", ou então seria isto que pensava: que não é possível perscrutar a alma de um homem e apreender tudo quanto pensa. Chegou por fim à casa em que habitava o ajudante do chefe. Este vivia à grande: a escadaria era iluminada por um magnífico candelabro; a habitação ficava no segundo andar.

 Nicolai Gogól. Parte 2. Da lista dos cem melhores contos do mundo. É a história de um funcionário público que com grande sacrifício consegue comprar um capote novo e é roubado no mesmo dia...

Entendendo o conto:

 01 – Qual foi a estratégia lógica que Acaqui Acaquievich planejou para convencer o alfaiate Petrovich a consertar seu capote velho em vez de fazer um novo?

      Acaqui decidiu não falar com Petrovich imediatamente porque deduziu que a esposa dele devia ter lhe dado uma sova. Ele planejou voltar no domingo de manhã, pois calculou que, após a bebedeira de sábado, o alfaiate estaria sonolento, com o "olho pisco" e precisando de dinheiro para continuar bebendo. Acaqui acreditava que, ao passar alguns rublos direto para a mão dele sem a esposa ver, Petrovich cederia e aceitaria fazer o conserto.

 02 – Acaqui tinha uma quantia guardada que cobria metade do valor do novo capote (quarenta rublos). Como ele conseguiu reunir esse dinheiro ao longo dos anos?

      Ele tinha o hábito de poupar uma pequena quantia (em moedas de cobre) para cada rublo que gastava, depositando-as em um pequeno mealheiro fechado com uma abertura larga. A cada seis meses, ele contava esse dinheiro acumulado e trocava o cobre por moedas de prata.

 03 – Quais foram as privações extremas que Acaqui se impôs no dia a dia para conseguir economizar a outra metade do dinheiro (os outros quarenta rublos)?

      Ele cortou o chá da noite; aboliu o uso de velas (indo copiar no quarto da patroa para usar a luz dela); passou a andar com extremo cuidado na rua para não gastar as solas dos sapatos nas pedras ou ferros; reduziu a frequência das lavagens de roupa e passou a tirar o uniforme logo ao chegar em casa para não gastar o tecido, substituindo-o por uma camisa de dormir de algodão muito velha. Eventualmente, ele suprimiu até a refeição da noite.

 04 – De que maneira a obsessão pelo novo capote alterou a psicologia e a postura de Acaqui Acaquievich no cotidiano?

      O capote transformou-se em uma "companheira" existencial. Pensar nele fez com que Acaqui se alimentasse espiritualmente, tornando-se mais animado, firme e decidido. A dúvida e a indecisão sumiram de seu rosto e de seus passos, e seus olhos ganharam um lampejo. Ele começou a ter pensamentos audazes (como colocar gola de marta) e ficou tão distraído que quase cometeu um erro de escrita na repartição.

 05 – Por que Acaqui não pôde contar inteiramente com a gratificação de fim de ano do diretor para pagar o capote, mesmo que ela fosse maior do que o esperado?

      Porque aquele dinheiro já estava totalmente comprometido com outras necessidades básicas e urgentes acumuladas: ele precisava fazer calças novas, pagar uma dívida antiga ao sapateiro por meias solas e mandar fazer três camisas novas (sendo duas brancas). Assim, o dinheiro da gratificação seria apenas "uma gota de água no oceano".

 06 – Como o narrador descreve a mudança de cenário urbano à medida que Acaqui se deslocava de seu bairro em direção à casa do ajudante do chefe?

      Acaqui sai de ruas solitárias e de escassa iluminação para adentrar uma das melhores artérias da cidade, onde as ruas eram muito movimentadas e intensamente iluminadas. O cenário muda para a ostentação: pedestres bem-vestidos, homens com golas de pele de castor, cocheiros de libré dourada e gorro carmesim conduzindo trenós envernizados, além de lojas com grandes montras, culminando na casa do chefe, que tinha uma escadaria iluminada por um magnífico candelabro.

07 – Diante de uma montra iluminada na parte rica da cidade, o que chamou a atenção de Acaqui e qual foi a sua reação?

      Chamou sua atenção o quadro de uma mulher belíssima descalcando um sapato e exibindo a perna escultural, com um homem de barba espanhola a observando por trás de uma porta. Acaqui reagiu abanando a cabeça e sorrindo, um comportamento raro para quem passou anos sem sair à noite ou prestar atenção nas distrações da rua.

 

 

 

 

 

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