Conto: O CAPOTE II – PARTE 2
Nicolai Gogól
Enquanto
caminhava, roçou por ele um limpa-chaminés, que o sujou no ombro, e
caiu-lhe também em cima um pedaço de argamassa de uma casa em construção.
Não se apercebia de nada, e, mais tarde, quando tropeçou contra um guarda
municipal, ao mudar este a espingarda para tirar tabaco do bolso,
despertou ao ouvir o mesmo admoestá-lo:
-- Porque te metes debaixo do meu nariz? Não te chega a rua?
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiG8tV-qmSJAKqetR0jmyPvKhhJhC7EwP9Jm0ueiv_hrEEa0vYXPs2WAM6ea8EUY5EwxBngB3lmImesHZC1a6WfBIfEg56Gxdq_NKZ5GQgDgOgJtPWDmxco7uaP4-_z5_t0vty8kUhPhTEnKdke4xO8ortTX7kUXZm5VMOJXkcl5KwICwlFNF1rgNiFQ7A/s320/CAPOTE.jpg Aquilo
obrigou-o a refletir e a dirigir-se a casa. Só então lhe foi
dado concentrar os seus pensamentos e viu com clareza a sua presente
situação; começou a falar com os seus botões, sem a anterior incoerência,
mas meditando com lógica, como se revelasse a um amigo inteligente o
mais íntimo segredo do seu coração.
"Não",
monologava Acaqui Acaquievich. "Não convém hoje tratar com Petrovich.
Hoje, a mulher... deve ter-lhe dado uma sova. O melhor será voltar domingo
de manhã: depois da bebedeira da véspera estará ainda com o olho pisco e
sonolento, e, como precisa de voltar a beber e a mulher não lhe dá
dinheiro, se eu lhe passar uns rublos para a mão, deixa-se convencer e
conserta-me o capote."
Assim
ia monologando e assim se ia animando Acaqui Acaquievich. Esperou até ao
domingo seguinte e, depois de ver a mulher de Petrovich sair de casa,
entrou com ar decidido.
Custava
muitíssimo a Petrovich, com efeito, abrir o seu único olho depois do que
bebera na véspera, e cabeceava, sonolento; mas, apenas soube do que se
tratava, pareceu que se apossara dele o Diabo.
-- Não pode ser! – disse. – Tem de se lazer outro novo.
Acaqui
Acaquievich meteu-lhe uns copeques na mão.
-- Obrigado, senhor. Agora poderei fortalecer-me um pouco à sua saúde – disse
o alfaiate. – E não se preocupe você com o capote: não serve para nada.
Far-lhe-ei um novo; e, quanto ao preço, havemos de entender-nos.
Acaqui
Acaquievich preferia que ele lhe cosesse o velho, mas Petrovich não fazia caso
das suas palavras e insistia:
-- Far-lhe-ei um novo, com toda a
perfeição; tenha confiança em mim, farei quanto puder. E, se for preciso,
até lhe ponho botões de prata, pois agora estão na moda.
-- E Acaqui Acaquievich, vendo que não tinha outra solução senão fazer
um capote novo, sentia um grande pavor na sua alma. Era necessário, tinha
de ser, mas o dinheiro? Podia, certamente, contar com a gratificação
que receberia nas próximas festas, mas esse dinheiro estava há muito
já destinado. Necessitava fazer umas calças novas, pagar ao sapateiro
uma dívida antiga de umas meias solas e, além disso, tinha de mandar
fazer, sem falta, três camisas novas, duas das quais brancas; numa
palavra, o dinheiro estava já destinado, e, ainda que tivesse um diretor
compreensivo, capaz de conceder uma gratificação de quarenta e cinco ou
cinquenta rublos, em vez de quarenta, o restante seria apenas uma
insignificância para a soma de que necessitava para o capote – uma verdadeira
gota de água no oceano.
Sabia
perfeitamente que Petrovich costumava fazer preços exorbitantes, de tal
modo que até a mulher não podia conter-se e exclamava: "Mas tu
estás com o juízo todo? Umas vezes aceitas o trabalho por nada, e agora
atreveste a pedir um preço que nem tu próprio vales." E sabia
perfeitamente também que Petrovich acabaria por fazer-lhe o capote por
oitenta rublos; entretanto, donde haviam de vir-lhe esses oitenta rublos?
Metade ainda podia arranjar-se: metade, sim, e talvez um pouco mais; mas
onde conseguir a outra metade? Antes de prosseguirmos, deve o leitor ficar
a saber donde lhe podia vir a primeira metade.
Acaqui
Acaquievich tinha o costume de reservar uma pequena quantia por cada rublo
que gastava num mealheiro pequeno e fechado, com uma larga abertura. Ao
cabo de cada meio ano contava o dinheiro em cobre e trocava-o por moedas de
prata. Assim procedera durante muito tempo, e, desta maneira, ao fim de
alguns anos reunira uma soma superior a quarenta rublos. A metade, por
conseguinte, encontrava-se nas suas mãos; mas a outra metade? Onde obter
os outros quarenta rublos?
Acaqui
Acaquievich pensava, pensava, e chegou à conclusão de que o único recurso
era reduzir até ao extremo possível todos os gastos ordinários durante um
ano, abolir o hábito de tomar chá à noite, não acender a luz e, quando
precisasse de copiar qualquer coisa, ir ao quarto da patroa e trabalhar à
luz da sua vela; ao caminhar pela rua, fazer por andar o mais
cuidadosamente possível e evitar as pedras ou pedaços de ferro, para não
gastar rapidamente as solas dos sapatos; dar à lavadeira a roupa branca
com a menor frequência possível e, para que se não gastasse, tirá-la logo
ao chegar a casa e substitui-la pela camisa de dormir, que era de algodão,
muito velha, e não podia durar muito mais.
Para
dizer inteiramente a verdade, consignaremos que, a princípio, lhe custou
muito habituar-se a todas estas privações, mas depois, uma vez acostumado,
chegou até a suprimir a refeição da noite; em compensação, alimentava-se
espiritualmente, pensando no seu futuro capote.
A
partir daí pareceu encontrar um complemento do seu ser, como se fora
casar, ou como se se sentisse outro, como se não estivesse sozinho na
vida, como se tivesse encontrado uma companheira que aceitasse seguir
juntamente com ele pela estrada da vida; ora esta companheira não era
outra senão o seu capote, de grosso forro, sem a menor passagem.
Tornou-se
mais animado e de caráter mais firme, como um homem que se propôs um
fim determinado. Do seu rosto e até dos seus passos desapareceram a dúvida
e a indecisão. No seu olhar aparecia mesmo um certo lampejo; no
cérebro passavam-lhe, como relâmpagos, pensamentos audazes e
temerários: "Porque não havia de pôr a gola de marta?" Com estas
ideias tornou-se um tanto distraído. Uma ocasião, ao copiar um oficio,
esteve a ponto de fazer um erro; quase gritou em voz alta "ai!"
e fez o sinal da cruz.
Uma
vez por mês, pelo menos, visitava Petrovich, com o propósito de lhe falar
acerca da memória começa a fraquejar e os nomes das ruas de Sampetersburgo misturaram-se-me
de tal maneira na cabeça que me é muito difícil ordená-las. Seja como for, o
fato é que vivia numa das melhores artérias da cidade, bastante longe de
Acaqui Acaquievich.
Teve
este de seguir primeiramente através de ruas solitárias, de iluminação
escassa; mas, à medida que se aproximava do domicílio do funcionário, as
ruas eram mais animadas, a iluminação maior e mais intensa; os viandantes
iam e vinham, mais frequentes, multiplicavam-se as mulheres elegantemente
vestidas; os homens levavam golas de pele de castor; quase não se viam já
os bancos de madeira esburacada; os cocheiros, de libré dourada e gorro de
veludo carmesim, sobre os trenós envernizados e forrados de peles,
vagueavam pelas ruas... Acaqui Acaquievich admirava tudo aquilo como uma
novidade; há muitos anos que não saía à noite.
Cheio
de curiosidade, deteve-se diante de uma montra para ver o quadro de uma
mulher belíssima a descalçar um sapato, mostrando assim toda a perna
escultural; por detrás dela assomava a uma porta um sujeito de patilhas e
com uma bonita barba ao gosto espanhol. Acaqui Acaquievich abanou a
cabeça, sorrindo, e prosseguiu o seu caminho.
Porque
sorria ele? Talvez por lhe serem desconhecidas todas as pessoas com quem
cruzava, ou talvez por um sentimento oculto em relação a esse ambiente, ou
então porque pensava como pensam funcionários: "Vá! Estes Franceses! O que
se diz! Que inveja causa! Há que ver, precisamente e tal!...", ou
então seria isto que pensava: que não é possível perscrutar a alma de um
homem e apreender tudo quanto pensa. Chegou por fim à casa em que habitava
o ajudante do chefe. Este vivia à grande: a escadaria era iluminada por um
magnífico candelabro; a habitação ficava no segundo andar.
Entendendo o conto:
Acaqui decidiu não falar com Petrovich imediatamente porque
deduziu que a esposa dele devia ter lhe dado uma sova. Ele planejou voltar no
domingo de manhã, pois calculou que, após a bebedeira de sábado, o alfaiate
estaria sonolento, com o "olho pisco" e precisando de dinheiro para
continuar bebendo. Acaqui acreditava que, ao passar alguns rublos direto para a
mão dele sem a esposa ver, Petrovich cederia e aceitaria fazer o conserto.
Ele tinha o hábito de poupar uma pequena quantia (em moedas
de cobre) para cada rublo que gastava, depositando-as em um pequeno mealheiro
fechado com uma abertura larga. A cada seis meses, ele contava esse dinheiro
acumulado e trocava o cobre por moedas de prata.
Ele cortou o chá da noite; aboliu o uso de velas (indo copiar
no quarto da patroa para usar a luz dela); passou a andar com extremo cuidado
na rua para não gastar as solas dos sapatos nas pedras ou ferros; reduziu a
frequência das lavagens de roupa e passou a tirar o uniforme logo ao chegar em
casa para não gastar o tecido, substituindo-o por uma camisa de dormir de
algodão muito velha. Eventualmente, ele suprimiu até a refeição da noite.
O capote transformou-se em uma "companheira"
existencial. Pensar nele fez com que Acaqui se alimentasse espiritualmente,
tornando-se mais animado, firme e decidido. A dúvida e a indecisão sumiram de
seu rosto e de seus passos, e seus olhos ganharam um lampejo. Ele começou a ter
pensamentos audazes (como colocar gola de marta) e ficou tão distraído que
quase cometeu um erro de escrita na repartição.
Porque aquele dinheiro já estava totalmente comprometido com
outras necessidades básicas e urgentes acumuladas: ele precisava fazer calças
novas, pagar uma dívida antiga ao sapateiro por meias solas e mandar fazer três
camisas novas (sendo duas brancas). Assim, o dinheiro da gratificação seria
apenas "uma gota de água no oceano".
Acaqui sai de ruas solitárias e de escassa iluminação para
adentrar uma das melhores artérias da cidade, onde as ruas eram muito
movimentadas e intensamente iluminadas. O cenário muda para a ostentação:
pedestres bem-vestidos, homens com golas de pele de castor, cocheiros de libré
dourada e gorro carmesim conduzindo trenós envernizados, além de lojas com
grandes montras, culminando na casa do chefe, que tinha uma escadaria iluminada
por um magnífico candelabro.
07 – Diante de uma montra iluminada na parte rica da cidade, o que chamou a atenção de Acaqui e qual foi a sua reação?
Chamou sua atenção o quadro de uma mulher belíssima
descalcando um sapato e exibindo a perna escultural, com um homem de barba
espanhola a observando por trás de uma porta. Acaqui reagiu abanando a cabeça e
sorrindo, um comportamento raro para quem passou anos sem sair à noite ou
prestar atenção nas distrações da rua.
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