Conto: O CAPOTE I – PARTE 1
NICOLAI GOGÓL
Na Repartição de... Mas será melhor não
a nomearmos, porque nada há mais susceptível do que os nossos empregados
públicos, desde os amanuenses aos chefes de repartição. Atualmente, cada um
sente-se em particular como se na sua pessoa toda a sociedade tivesse sido
ofendida.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiZNqqkwcB-srr7Km_940nOlrSnFxFyqEz4dGo3k4HdqCug8IoRmVodyngVO_rI1KykY9ibXXFRz-AYSI2XItNLODwrw7CsohJq9yZYTLc3ObuKlBUhyphenhyphenrYAFtZ67iiINol_zhGRgOJIm8G7Hx2uNV1R7pHSpc9gN7RM1NQXcixowVFYJ_HWyOeNTxYR8i0/s320/capote.jpg Diz-se
que um capitão da polícia apresentou, ainda não há muito tempo, uma queixa –
não me recordo em que cidade isto se passou – revelando claramente que os
decretos imperiais eram desdenhados por toda a gente e que o santo nome de um
oficial era proferido com desprezo. E juntava, como prova, o volumoso tomo de
certa novela em que, de dez em dez páginas, aparecia um capitão da polícia, e,
o que é demais, em completo estado de embriaguez. Deste modo, para evitar
desgostos, em vez de indicar a repartição onde ocorreu o facto, é preferível
dizer apenas: "Numa repartição..."
Por conseguinte, "numa
repartição" servia "um funcionário". Esse funcionário, é justo
dizê-lo, era muito distinto: de estatura baixa, um pouco picado das bexigas e
igualmente um pouco curto de vista, com uma pequena calva a principiar na
testa, rugas nas duas faces e, no rosto, essa cor característica do hemorroidal
... Que se lhe há de fazer: A culpa era do clima de Sampetersburgo. Pelo que se
refere à sua categoria (pois é entre nós a primeira coisa que se menciona), era
o que se designa por "conselheiro titular perpétuo", um daqueles com
que satirizam certos escritores que têm o benemérito hábito de cair a fundo
sobre os inofensivos.
O nosso funcionário tinha o apelido de
Blaquemaquine (sapateiro), e já por esse apelido se vê qual tinha sido a sua
ascendência; mas quando, onde e de que maneira tal apelido surgira ninguém o
sabia; sabia-se apenas que pai, o avô e até mesmo o cunhado, e em geral todos
os Blaquemaquines, tinham ascendentes sapateiros.
Chamava-se Acaqui Acaquievich. Ora é
possível que o leitor considere este nome um pouco estranho e pretensioso, mas
pode crer que não é assim: ele foi-lhe posto nas circunstancias mais naturais e
é fácil ver que não poderia ter sido outro.
Acaqui Acaquievich nasceu na noite de
23 de março. A sua defunta mãe, esposa de um funcionário, muito boa mulher,
dispôs as coisas para que o menino fosse batizado segundo as praxes. A mãezinha
estava ainda da cama em frente da porta; à direita, de pé, o padrinho, Ivan
Ivanovitch Erochquine, excelente homem, chefe de uma secretaria do Senado, e a
madrinha, Arina Semenovna Bielobriuchkova, esposa de um oficial e mulher de
extraordinárias virtudes. Apresentaram à parturiente três nomes para que
escolhesse aquele de que mais gostasse: Moquia, Sosia, ou então o nome do
mártir Josdasata. "Não!", pensou a doente. "Que nomes!"
Para lhe serem agradáveis, levantaram a folhinha do calendário e leram, noutro
lugar, mais três nomes: Trifili, Dula e Varaiasi. "Que castigo
este!", comentou a mulher. “São tão bonitos como os outros! Nunca ouvi
esses nomes! Ainda se fosse Varadat, ou Varui, mas agora Trifili e
Varaiasi!"
Voltaram mais uma folhinha do
calendário e deparou-se-lhes: Pafsicai e Vaitisi. "Já vejo", disse,
"é o destino que o quer! Nesse caso, prefiro que tenha o nome do pai. O
pai chamava-se Acaqui, e o nome do filho será,portanto, Acaqui." Resultou
dessa maneira Acaqui Acaquievich.
O menino foi batizado, chorou e fez
grandes caretas, como se pressentisse que teria de ser conselheiro titular. Foi
isso que aconteceu.
Contamos isto com o propósito de levar
o leitor a compreender por si próprio como foi fatal a impossibilidade de lhe
dar outro nome. Quando teria sido colocado na repartição e quem o teria nomeado
são coisas de que ninguém se recorda. Todos os diretores e todos os chefes de
repartição que por lá passaram viram-no sempre no mesmo lugar, na mesma posição
e com a inalterável dignidade de um burocrata que compulsa requerimentos; ao
vê-lo, poderia julgar-se que assim nascera neste mundo, completamente
burocratizado, de uniforme e calvo.
Ninguém na repartição o respeitava. O
porteiro não só não se levantava à sua passagem como nem sequer se dignava
lançar-lhe um olhar: importava-se tanto com Acaqui como com uma mosca. Os chefes
aproximavam-se dele com uma frieza autoritária. Qualquer ajudante do chefe de
secretaria metia-lhe um oficio debaixo do nariz sem lhe dizer sequer:
"Copie!", ou "Aqui tem você um belo trabalhinho, uma tarefa
interessante", ou outra qualquer coisa amável, como é estrito dever dos
funcionários inferiores bem-educados dizerem. O nosso homem pegava no ofício,
olhava-o, sem mesmo reparar em quem lho entregara ou se aquele trabalho lhe
competia, e punha-se imediatamente a escrever.
Os empregados mais jovens elegiam-no
por tema de zombarias e chacotas e os amanuenses, que se presumiam de
espirituosos, contavam, na sua presença e de diversos modos, a sua própria
história e a da sua hospedeira, velhota dos seus 70 anos, que, segundo diziam,
o espancava; e perguntavam quando era o casório, atirando-lhe à cabeça pequenos
pedaços de papel, a fingir de flocos de neve. Acaqui Acaquievich não respondia
uma só palavra às zombarias, como se ali estivesse sozinho. Essas chalaças
nem sequer exerciam influência na tarefa que o absorvia: apesar de todas as
impertinências de que era objeto, não fazia um único erro de escrita. Só quando
a brincadeira se tornava insuportável e lhe batiam no cotovelo, desviando-lhe a
atenção. exclamava:
-- Deixem-me! Por que zombam de mim?
E havia alguma coisa de
estranho nas suas palavras e na voz alterada com que as pronunciava.
Alguma coisa soava nelas que despertava compaixão; e, por isso, um jovem
colocado na repartição havia pouco tempo, que, seguindo o exemplo dos demais,
se permitia zombar dele, deteve-se, impressionado, e modificou, a partir
de certa altura, o seu comportamento, como se tudo, repentinamente,
se tivesse transformado.
Que forca sobrenatural o elevava acima de todos os seus
companheiros, a quem, até então, considerara pessoas corretas
e civilizadas! E muito tempo depois, no meio das suas alegrias e
prazeres, detinha-se, perplexo, a recordar o funcionário baixo, de calva a
principiar na testa, e ouvia-lhe as penetrantes palavras: "Deixem-me!
Porque me vexam?" E juntamente com essas palavras penetrantes
ressoavam outras: "Sou vosso irmão!" E o jovem cobria o rosto
com as mãos e estremecia intensamente, vendo quanta desumanidade existe no
homem e quanta grosseria se disfarça sob a polidez, a educação e as
maneiras da gente fina.
"Deus meu! Até mesmo aquele
cavalheiro a quem toda a gente considera digno e honrado..." Dizer
que servia com zelo não basta; deve dizer-se: servia com amor.
Ali, naquelas cópias, revia-se como num mundo tranquilo e feliz. O
prazer gritava-lhe na face. Havia letras que eram suas favoritas e, quando
as escrevia, ficava como que excitado: sorria, devorava-as com os olhos
e acompanhava a tarefa soletrando com os lábios, de maneira que era
quase possível ler-lhe no rosto cada uma das letras que com a pena
escrevia.
Se tivesse sido proposta, uma
recompensa proporcional à sua diligência, talvez que, com espanto seu, já
tivesse sido nomeado conselheiro de Estado. Mas tudo quanto ouviu foi uma
cruel alusão dos seus companheiros irônicos: que em vez de uma
condecoração na lapela tinha hemorroidas noutro sítio. E era assim a
consideração que mostravam ter por ele.
Um diretor, homem de bom coração,
desejando recompensá-lo pelos seus diligentes serviços, ordenou que lhe
dessem alguns trabalhos de mais importância do que as simples cópias
vulgares; encarregaram-no de informar outra repartição acerca dos
documentos passados naquela a que pertencia, consistindo a sua tarefa em
mudar os títulos e passar os textos da primeira pessoa gramatical para a
terceira. Isto exigia-lhe tamanho esforço que, sem exagero, transpirava;
esfregando a testa, exclamou por fim: "Não; é melhor que
me deem um trabalho de cópia." E desde então ficou, para sempre,
copista.
Fora do mundo das cópias de ofícios,
nada para ele existia. Nem sequer se preocupava com o vestuário; o seu
uniforme perdera a cor amarela e tinha agora um tom desbotado e
indefinido; a gola do casaco era estreita e baixa, de modo que o pescoço,
apesar de ser um pouco gordo, parecia de uma extraordinária altura,
lembrando aqueles gatitos de gesso que movem a cabeça.
Trazia sempre qualquer coisa agarrada
ao uniforme, fossem palhas ou palitos, pois tinha tanta sorte, ao ir pela
rua, que passava debaixo de uma janela no preciso momento em que deitavam
fora uma lata vazia, e trazia sempre no chapéu de chuva pevides e cascas
de melão, ou coisas semelhantes. Nem uma só vez na vida prestara atenção
ao que se passava ou sucedia diariamente na rua.
Nisso era muito diferente dos
jovens funcionários, que, de olhar extremamente móvel e
penetrante, imediatamente notavam quem levava os fundilhos das calças um
pouco coçados, sorrindo com irônico prazer das alheias misérias.
Acaqui Acaquievich, embora
divagando o olhar por tudo isso, via exclusivamente os seus ofícios
corretos, copiados com uma letra esmerada, e só por casualidade, quando
lhe roçava pelo ombro o focinho de um cavalo e o vento lhe soprava no
rosto, só então, dava conta de que se não encontrava no meio de um
parágrafo, mas no meio da rua.
Ao chegar à casa, sentava-se à mesa,
levava rapidamente à boca umas tantas colheradas de sopa, comia a carne de
vaca com cebola, sem atender sequer ao paladar: era capaz de comê-la com
moscas e tudo. Quando verificava que começava a ter o estômago cheio,
levantava-se da mesa, ia buscar um pequeno tinteiro e copiava os papéis
que trouxera da repartição para trabalhar em casa; se não trouxera
trabalho, ocupava-se então a copiar por gosto e divertimento, e fazia-o
com uma íntima satisfação, não derivada apenas do belo talhe de letra que
possuía, mas da importância da pessoa a quem imaginava que o ofício se
dirigia.
Até quando se obscurece totalmente o
céu nevoento de Sampetersburgo e toda a multidão de empregados ceia
segundo as suas possibilidades, conforme os vencimentos e os gostos
particulares de cada qual; quando todos descansam de ouvir o incessante
arranhar da pena no papel e do constante vaivém da vida diária, quer das
andanças realizadas por motivo da profissão, quer de todas quantas
empreendem homens insatisfeitos e inquietos; quando os funcionários se
apresentam a dedicar o tempo que lhes resta em distrações várias – uns no
teatro, outros na rua, observando certas sombrinhas elegantes, outros
ainda adorando uma bela e modesta dama, estrela de um pequeno círculo de
empregados, e, ainda mais frequentemente, algum outro em casa de um colega
que habita no segundo ou terceiro andar, em dois diminutos compartimentos,
tais como uma antessala e uma cozinha e uma lâmpada ou qualquer outro
objeto que ostensivamente pretende estar na moda e que custou muitos
sacrifícios, renúncias a prazeres e divertimentos –, numa palavra, à hora
em que todos os burocratas se dispersam pelas exíguas habitações dos
amigos, para jogar o whist, bebendo aos golos pequenos chá com açúcar,
apertando-se uns contra os outros no ambiente denso do fumo que se evola
dos grandes cachimbos, contando o resultado de qualquer intriga da alta
sociedade, coisa a que nunca o Russo, e em qualquer condição, pode
renunciar, ou então, quando não há outro assunto, repetindo uma velha
anedota acerca de um comandante a quem vieram dizer que tinha sido cortado
o pescoço do cavalo do monumento de Pedro, o Grande; em suma, até nos momentos
em que todos procuram divertir-se, Acaqui Acaquievich não se entregava a
divertimento algum. Ninguém podia afirmar tê-lo visto num sarau.
Depois de copiar o mais que podia,
deitava-se, antecipadamente se regozijando a pensar no dia seguinte. "Que
lhe ofereceria Deus para copiar amanhã?"
Assim se escoava a vida do homem
pacífico a quem bastaria uma modesta aposentação para fazer feliz e que
teria de prosseguir a mesma vida até à mais proveta idade se não sucedesse
qualquer das desgraças que não surgem apenas na vida de um titular, mas
também na dos próprios conselheiros secretos efetivos e na dos
conselheiros da coroa, inclusive na daqueles que não dão conselho algum e
de quem, de resto, nem se aceitam.
Em Sampetersburgo existe um
poderosíssimo inimigo de todos os que recebem uns quatrocentos rublos de
vencimentos anuais. Esse inimigo não é outro senão o frio do Inverno, que
é, aliás, considerado, por alguns, muito sadio.
Às dez da manhã, ou seja, à hora em que
as ruas se enchem de todos os que se dirigem para as respectivas
repartições, começa o vento a distribuir fortes zurzidelas, que cortam
todos os narizes à direita e à esquerda, sem seleção de nenhuma espécie,
de maneira que os pobres funcionários não sabem onde e como os podem
resguardar. À hora em que até aos mais altos empregados dói a cabeça com
frio e em que as lágrimas lhes saltam irresistivelmente dos olhos os
pobres conselheiros titulares encontram-se, por vezes, indefesos. A única
salvação consiste em caminhar o mais depressa possível, embrulhados nos
finos capotes, percorrendo cinco ou seis ruas, e deixar depois arrefecer
os pés na portaria, perdendo assim a única vantagem da ofegante caminhada.
Acaqui
Acaquievich andava há tempos a sentir intensas picadas nas costas e nos
ombros, apesar de se esforçar por transpor as distâncias o
mais rapidamente possível. Começou a pensar se o responsável disso não
seria o seu capote. Ao chegar à casa, examinou-o cuidadosamente e
descobriu que a fazenda estava puída em dois ou três lugares, precisamente
nas costas e nos ombros, de tal modo que se tornara uma rede, e em virtude
de o forro se encontrar também esgarçado. Convém saber que o capote de
Acaqui Acaquievich servia também de motivo de chacota aos
funcionários; chegaram até a recusar-lhe o nobre nome de capote e a
chamarem-lhe capinha.
Tinha, efetivamente, uma forma pouco
comum nos capotes, visto que a gola diminuía de ano para ano, porque era
utilizada para remendar o resto. Quanto aos remendos, não demonstravam
gosto algum da parte do alfaiate; demonstravam, muito pelo contrário,
grosseria e fealdade.
Tendo Acaqui Acaquievich considerado
ponderadamente os prós e os contras, decidiu-se a levar o capote a Petrovich,
um alfaiate que habitava num quarto andar sem sol e que, apesar de zarolho
e bexiguento, se ocupava, com bastante habilidade, em consertar calças e
fraques de funcionários, isto, é claro, nos momentos em que não se
encontrava em estado de completa embriaguez e não alimentava na sua cabeça
outras ideias.
Não faria falta, dir-se-á, falar deste
alfaiate, mas, já que é costume dar a conhecer plenamente em todas as
histórias o caráter de uma personagem, não deve haver inconveniente em que
apresentemos aqui Petrovich. Começara por se chamar simplesmente Gregório, e
era então um homem equilibrado, servo de um senhor. O nome Petrovich data
da época em que alcançara a liberdade e em que dera em
emborrachar-se valentemente todos os dias de festa; primeiro só nos dias
grandes, e depois, sem destrinças, em todos os dias santificados, sempre
que no calendário encontrasse uma cruz. Permanecia, por este lado, fiel
aos costumes dos antepassados, e, ralhando com a mulher, chamava-lhe
mundana e tudesca.
Já que citamos a consorte, conviria
dizer duas palavras acerca dela: por desgraça, tudo quanto se sabe a seu
respeito é que era mulher de Petrovich, que usava gorro à russa e não
lenço; não parecia distinguir-se pela sua beleza, e o mais que aconteceu
foi encontrarem-se duma vez com ela os soldados da guarda ao regimento,
mirarem-na por baixo do gorro, fazerem trejeitos com a boca e proferirem
certas palavras que não podemos repetir.
Subindo a escada que conduzia a casa de
Petrovich – escada essa que, para dizer a verdade inteira, estava cheia de
pequenas poças de água de cheiro nauseabundo e penetrante, vencendo esse
odor estonteante que faz até arder os olhos e que, como se sabe, constitui
característica inseparável de todos os andares interiores das casas de
Sampetersburgo –, subindo a escada, meditava Acaqui Acaquievich naquilo
que podia pedir-lhe Petrovich, e a si mesmo jurava não dar mais de dois
rublos. A porta estava aberta.
A mulher do alfaiate cozinhava
peixe e provocara tal fumarada na cozinha que não era sequer possível
descortinar as baratas.
Acaqui Acaquievich passou junto da
cozinha sem que a mulher o notasse e chegou ao quarto, onde encontrou
Petrovich sentado sobre uma grande mesa de madeira, com as pernas cruzadas
como um paxá. Estando de pés descalços, como é costume entre sapateiros
quando estão a trabalhar, despertavam atenção, pelo seu tamanho, os
artelhos, bem conhecidos de Acaqui Acaquievich, com as unhas enormes,
espessas e fortes como carapaças de tartaruga.
Em volta do pescoço tinha fios de
linha e de seda e estendidos nas pernas farrapos velhos de variegadas
cores. Havia três minutos já que tentava enfiar a agulha, sem o conseguir,
e por isso praguejava exaltadamente contra a obscuridade e contra a
maldita linha, gritando em altos berros: "A imbecil não entra na
agulha! Esta maldita cai-me das mãos!"
Era para Acaqui Acaquievich
extremamente desagradável chegar ali no momento exato em que Petrovich
experimentava um tal assomo de cólera: preferiria encarregá-lo do trabalho
noutra altura, quando tivesse perdido a fúria ou, como dizia a mulher,
quando esse diabo torto estivesse adormecido pela aguardente. Nessas
ocasiões, Petrovich mostrava-se relativamente afetuoso e aquiescente,
chegando mesmo a conceder um cumprimento ou a agradecer. A mulher vinha, é
claro, ato contínuo, a chorar, dizer que o marido estava embriagado e que,
por isso, ajustara o trabalho por uma ninharia; mas, juntando dez copeques
ao preço estipulado, o assunto ficava resolvido.
Neste momento, Petrovich encontrava-se,
segundo parecia, num dos seus dias de temperança, e, por conseguinte, rígido,
pouco falador e disposto a pedir preços exorbitantes. Compreendendo-o, Acaqui
Acaquievich ainda pensou em retroceder, sem ser visto; mas era demasiado tarde.
Petrovich virou para ele o seu único olho e Acaqui Acaquievich disse, sem
querer:
-- Bom dia, Petrovich!
-- Muito bom dia, cavalheiro! –
replicou Petrovich, desviando o olho em direção às mãos de Acaqui Acaquievich,
a ver que bela prenda lhe traria.
-- Venho a tua casa, Petrovich,
efetivamente...
Convém saber que Acaqui Acaquievich se
exprimia quase sempre mediante partículas gramaticais sem qualquer significado.
Se o assunto era muito complicado, tinha por costume não terminar a frase, de
modo que os elementos principais da oração eram precedidos das palavras
"coisa, com efeito, absolutamente...", e calava-se depois, supondo
ter já dito tudo quanto pretendia.
-- Quê? Vamos lá a ver... – interpôs Petrovich,
observando naquele instante, com o seu único olho, toda a fatiota, desde a gola
às mangas, desde as costas à labita e às pernas das calças, tudo tão seu
conhecido, como produto da virtuosidade das suas mãos. Era o que, como um
verdadeiro alfaiate, fazia antes de mais conversa.
-- Pois eu, o caso é este, Petrovich...
este capote, a fazenda... como vês, está ainda boa em todos os sítios... um
pouco coçada, é certo, e com aspeto de velha, embora seja nova ainda, se
exceptuares neste sítio um rasgãozito, uma coisa pequena aqui... nas costas...
e também aqui... neste ombro, um pouquinho puído. E só isto, vês? Não é grande
coisa.
Petrovich pegou no capote, estendeu-o
em cima da mesa, examinou-o durante largo tempo, abanou a cabeça e estendeu a
mão para uma velha caixa de rapé que tinha na tampa o retrato de um general,
cujo nome não é possível precisar por a sua fisionomia estar suja dos dedos do
possuidor.
Depois de tomar uma pitada, Petrovich
pôs o capote contra a luz e voltou a abanar a cabeça: tornou a pegar na caixa
que tinha o general na tampa e, introduzindo o rapé no nariz, fechou-a e pô-la
de lado, dizendo finalmente:
-- Não, não tem conserto; isto é um
monte de trapos.
Ao ouvir estas palavras, a Acaqui
Acaquievich oprimiu-se-lhe o coração.
-- Por que dizes isso, Petrovich? –
murmurou ele quase implorativamente, com a sua voz infantil. – Só está um pouco
puído aqui nos ombros, mas tu, certamente, hás-de ter algum pedaço que...
-- Não seria essa a dúvida, ainda tenho
dessa fazenda – disse Petrovich. – Mas a dificuldade reside no cosê-lo; está
completamente podre, tão podre que não aguenta a linha.
-- Podes aproveitá-lo, cosendo uns
remendos por cima.
-- Uns remendos por cima! Mas não se
segura numa fazenda neste estado! O próprio vento é capaz de o arrancar.
-- Nesse caso, reforça então a fazenda
por dentro, e ficará bem...
-- Não – objetou Petrovich com decisão –,
nada se pode fazer. O melhor, visto que se aproxima agora o maior frio do
Inverno, será você fazer umas polainas desta fazenda. Sempre lhe resguardarão
as pernas melhor do que as meias, que são apenas invenção dos Alemães para
ganhar dinheiro. (Agradava a Petrovich aproveitar a ocasião para insultar os
Alemães.) – Quanto ao capote, o melhor é
mandar fazer um novo.
Ao ouvir a palavra "novo",
toldaram-se os olhos de Acaqui Acaquievich, que começou a ver andar à roda de
si tudo quanto se encontrava naquela sala.
Só via claramente a figura do general
na caixa do rapé.
-- Novo? – dizia como em sonho. –
Desgraçadamente, não tenho dinheiro para tal.
-- Sim, novo – repetia Petrovich com
uma calma brutal.
-- E, sendo novo, a quanto montaria? –
Quanto custaria?
-- Teria de gastar uns cento e
cinquenta rublos – disse Petrovich, cerrando os lábios.
Era partidário dos efeitos fortes;
agradava-lhe desconcertar por completo alguém e lançar um olhar de soslaio para
observar a cara do assustado ao ouvi-lo.
-- Cento e cinquenta rublos pelo
capote! – exclamou o pobre Acaqui Acaquievich, sendo talvez este o primeiro
grito desde que nasceu, já que, geralmente, se conservava em silêncio.
-- Naturalmente – afirmou Petrovich. –
E isso conforme seja o capote. Se levar gola de marta e bandas de seda, atira a
uns duzentos.
-- Por Deus, Petrovich! – disse Acaqui
Acaquievich com voz suplicante, sem escutar nem pretender considerar as
palavras de Petrovich ou os seus efeitos. – Arranja-me este como puder ser,
para que ainda me sirva algum tempo.
-- De modo nenhum; seria perder
trabalho e dinheiro – respondeu Petrovich.
Depois de ouvir aquelas palavras,
Acaqui Acaquievich saiu, acabrunhado.
Petrovich viu-o caminhar pela rua e
permaneceu largo tempo de pé, com os lábios cerrados, sem fazer caso do
trabalho, tal era o seu contentamento por não se ter rebaixado nem traído a sua
nobre arte de alfaiate.
Quando Acaqui Acaquievich chegou à rua,
encontrava-se como num sonho.
"Alguém viu já semelhante
coisa?", dizia ele com os seus botões, "Nunca pensaria que podia
chegar a tal..." E logo, após um silêncio, acrescentou: "Ora aí está!
Cheguei finalmente a isto! Nunca teria suposto que fosse assim." E, depois
de outro largo silêncio, voltou a exclamar: "Assim é, pois! Já não há
esperança possível... Acabou-se... As circunstâncias requerem-no!"
E, dito isto, em vez de ir para casa,
seguiu na direção contrária, sem se dar de maneira alguma conta disso.
Nicolai Gogól. Parte 1. Da lista dos cem melhores contos do mundo. É a
história de um funcionário público que com grande sacrifício consegue comprar
um capote novo e é roubado no mesmo dia...
Entendendo
o conto:
01 – Por que o narrador decide
não nomear explicitamente a repartição pública onde o protagonista trabalha?
O narrador opta
por não nomear a repartição porque os funcionários públicos da época eram
extremamente suscetíveis e orgulhosos. Ele ilustra isso contando a história de
um capitão da polícia que se sentiu pessoalmente ofendido e insultado por causa
de uma novela literária que retratava um capitão bêbado. Assim, para evitar
desgostos e problemas, prefere usar a generalização "numa
repartição".
02 – Qual é o nome do
protagonista e qual a curiosa justificativa para a escolha desse nome por sua
mãe?
O protagonista
chama-se Acaqui Acaquievich. A escolha ocorreu porque a mãe dele rejeitou todos
os nomes sugeridos pelo calendário nas primeiras folhas consultadas (como
Moquia, Sosia, Trifili e Varaiasi), achando-os estranhos e feios. Ao virar mais
uma página e encontrar "Pafsicai e Vaitisi", ela desistiu e
considerou um sinal do destino dar ao menino o mesmo nome do pai, que também se
chamava Acaqui.
03 – Como os outros
funcionários da repartição (colegas e chefes) tratavam Acaqui Acaquievich no
dia a dia?
Ele era tratado com total desprezo, frieza e desrespeito. O
porteiro nem sequer olhava para ele; os chefes agiam com frieza autoritária; os
ajudantes jogavam papéis em sua mesa sem dizer uma palavra amável; e os
funcionários mais jovens zombavam dele constantemente, faziam piadas sobre sua
vida pessoal e jogavam pedacinhos de papel em sua cabeça.
04 – Qual frase dita por
Acaqui Acaquievich causou um profundo impacto em um jovem funcionário
recém-chegado e o que esse jovem percebeu a partir disso?
A frase foi:
"Deixem-me! Por que zombam de mim?" (e a variação gravada na memória
do jovem: "Deixem-me! Porque me vexam? / Sou vosso irmão!"). Ao ouvir
o tom de sofrimento na voz de Acaqui, o jovem funcionário parou de zombar dele
e percebeu quanta desumanidade, grosseria e falta de compaixão existiam no ser
humano, mesmo sob o disfarce da polidez e da educação da "gente
fina".
05 – Como era a relação de
Acaqui Acaquievich com o seu trabalho de copista? Ele gostava do que fazia?
Ele não apenas
trabalhava com zelo, mas servia com verdadeiro amor. O mundo das cópias era o
seu refúgio tranquilo e feliz; ele tinha letras favoritas e sorria, movia os
lábios e se entusiasmava ao escrevê-las. Ele gostava tanto que, mesmo em casa,
copiava papéis por puro gosto e divertimento.
06 – O que aconteceu quando um
diretor de bom coração tentou dar a Acaqui uma tarefa de maior importância do
que as cópias vulgares?
A tarefa consistia
em fazer um relatório para outra repartição, o que exigia mudar os títulos e
alterar o texto da primeira pessoa gramatical para a terceira pessoa. Esse
trabalho exigiu tanto esforço mental de Acaqui que ele começou a transpirar,
esfregou a testa e acabou pedindo para voltar a fazer apenas cópias. Desde
então, permaneceu copista para sempre.
07 – Como o narrador descreve
a atitude de Acaqui em relação às ruas de Sampetersburgo e ao seu próprio
vestuário?
Acaqui era
totalmente alheio ao mundo exterior. Ele não reparava nas roupas que vestia
(seu uniforme estava desbotado e a gola era curta demais) e andava na rua tão
absorto em seus pensamentos sobre os ofícios que frequentemente ficava com
palhas, pevides e cascas de melão presas à roupa sem perceber. Ele só se dava
conta de que estava na rua quando o focinho de um cavalo esbarrava em seu ombro
ou o vento forte lhe batia no rosto.
08 – Qual é o
"poderosíssimo inimigo" dos funcionários públicos que ganham baixos
salários em Sampetersburgo e como ele afeta Acaqui?
O inimigo é o
rigoroso frio do inverno de Sampetersburgo. O vento forte da manhã corta o
rosto dos funcionários e causa dores de cabeça. No caso de Acaqui, ele começou
a sentir fortes picadas nas costas e nos ombros porque seu velho capote estava
extremamente desgastado e puído.
09 – Por que o capote de
Acaqui era chamado de "capinha" pelos seus colegas e qual era o
estado real da peça de roupa?
Era chamado de
"capinha" de forma irônica porque já não parecia um capote de
verdade. A fazenda estava tão gasta nas costas e nos ombros que parecia uma
rede, o forro estava esgarçado e a gola diminuía a cada ano porque o alfaiate
usava os pedaços dela para fazer remendos grosseiros e feios no resto da peça.
10 – Qual foi o veredicto do
alfaiate Petrovich ao examinar o capote e qual foi o impacto disso sobre
Acaqui?
Petrovich afirmou
categoricamente que o capote não tinha conserto porque a fazenda estava
totalmente podre e não aguentaria a linha, dizendo que o melhor seria fazer
polainas dele e encomendar um capote novo por 150 rublos. Ao ouvir a palavra
"novo" e o preço exorbitante, os olhos de Acaqui ficaram toldados,
ele ficou chocado (chegando a dar um grito, algo raro para ele) e saiu do
ateliê completamente atordoado e caminhando sem rumo, como se estivesse em um
sonho.
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