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sexta-feira, 22 de maio de 2026

MINICONTO: A HORTA DO ESTEVES - AUTOR DESCONHECIDO - COM GABARITO

 Miniconto: A horta do Esteves

        Dois coelhos do mato miravam, a uma respeitável distância, a horta do senhor Esteves.

        -- Que lindeza de couves! E as alfaces tão apetitosas... – dizia o coelho mais novo.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiIaX5YKHcnMlQ-lkq9JcJhlfW9s0VCGkpSfMDbW4B-DuCrwJ4Yr7d9BYR0Mhoegx0Ya3ehcpFZ8g4Td-LL-SyaAWu6ZHBXsE6q-BBsdun1UJw1Pzwh8Rp3v9D8kWRhzRZBYvMN2J9eg1ZD3Ox7-i7gEy8ZOQh6jf9hPhKIJv3rcL2oza7pEdE2MUrhdHc/s320/horta.jpg


        -- Mas não te chegues – aconselhava-o o coelho mais velho. – O Esteves, se te apanha a roer-lhe alguma couve, não te perdoa.

        -- Uma folha só, que mal faz? – dizia o mais novo.

        E ia-se chegando para a horta.

        -- Eu aviso-te. O Esteves não é para brincadeiras – gritava-lhe, já de longe, o coelho mais velho. – Quando era da tua idade, também me tentei e ainda guardo, de recordação, um chumbo na perna.

        Mas o coelho mais novo já não o ouviu.

        O mais velho, a internar-se no mato e a ouvir um estampido.

        -- A espingarda do Esteves – exclamou e fugiu a sete pés, embora não fosse nada com ele.

        Não correu muito, porque o chumbinho antigo ainda se fazia sentir. Alapado num brejo, esperou.

        O amigo ter-se-ia escapulido? Ou já estaria a ser esfolado, para, daí a pouco, entrar na panela, onde a cebola e o azeite faziam fe, fe, fe, na cantoria do refogado? Vida espinhosa a dos coelhos do mato, sobretudo a dos que não seguem os conselhos dos mais sabedores.
Nisto pensava o coelho velho, quando ouviu um gemido por perto. Era o aventureiro, que até ali se arrastara, a esvair-se em sangue.

        -- Quando fores da minha idade, também vais ter para contar aos mais novos – dizia-lhe o velho companheiro, enquanto com ervas frescas lhe estancava as feridas.

        O coelhinho dava-se ao tratamento e só respondia com um ai, de quando em vez.

        -- Ao menos diz-me: as alfaces eram tão tenras como parecem? – perguntou o mais velho, a fingir indiferença.

        -- Mal provei – suspirou o coelhinho

        -- O que a nós nos vale é que o Esteves continua sem pontaria, senão nem sobrava um coelho que avisasse os mais novos – concluiu o velho coelho e concluiu muito bem.

Autor desconhecido.

Entendendo o miniconto:

 

01 – O que desencadeou o conflito no miniconto e qual era a posição de cada um dos coelhos no início da narrativa?

      O conflito foi desencadeado pela tentação do coelho mais novo em entrar na horta do senhor Esteves, atraído pela beleza das couves e pelo aspeto apetitoso das alfaces. No início, as posições eram opostas: o coelho mais novo demonstrava ingenuidade e impulsividade, minimizando o perigo, enquanto o coelho mais velho agia com prudência e sensatez, mantendo uma distância segura e aconselhando o jovem a não se aproximar.

02 – Que argumento de autoridade e experiência pessoal o coelho mais velho utilizou para tentar travar o mais novo?

      O coelho mais velho partilhou uma experiência do seu próprio passado, revelando que, quando tinha a idade do mais novo, cedeu à mesma tentação e acabou por ser baleado pelo agricultor. Como prova real do perigo, ele mencionou que ainda guardava, como recordação dolorosa, um chumbo alojado na perna.

03 – O que o coelho mais velho imaginou que pudesse ter acontecido ao seu jovem companheiro logo após ouvir o estampido da espingarda?

      Enquanto estava escondido num brejo, o coelho mais velho imaginou dois cenários dramáticos: no melhor deles, o amigo teria conseguido escapar por pouco; no pior, o jovem já estaria morto, a ser esfolado pelo senhor Esteves para acabar cozinhado numa panela, fazendo parte de um refogado com cebola e azeite.

04 – Como se pode interpretar a pergunta final do coelho mais velho ("as alfaces eram tão tenras como parecem?") e o que ela revela sobre a natureza dos coelhos?

      A pergunta, feita "a fingir indiferença", revela que, apesar de toda a sua sabedoria e prudência adquiridas com a idade, o coelho mais velho ainda sentia a mesma tentação e curiosidade em relação aos frutos proibidos da horta. Isso demonstra que o desejo pelas hortaliças é intrínseco à natureza dos coelhos, e que a única diferença entre o jovem e o velho é a capacidade de autocontrolo gerada pelo medo do castigo.

05 – Explique a conclusão do coelho mais velho: "O que a nós nos vale é que o Esteves continua sem pontaria..."

        O coelho velho concluiu que a sobrevivência de ambos se devia à má pontaria do senhor Esteves. Se o agricultor fosse um atirador exímio, teria matado o coelho mais velho no passado e o mais novo no presente. Graças aos tiros de raspão do Esteves, o coelho velho sobreviveu para aconselhar os jovens e o coelho novo sobreviveu para, no futuro, poder passar a mesma lição de prudência às próximas gerações.

 

 

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