Conto: O pequeno Édipo
O HOMEM tamborilou os dedos no balcão. Pediu, com
uma voz cinzenta:
- Uma cerveja.
Pediu como quem pede ao ar. Isto é, sem dar inteira conta nem da mulher de
preto, sentado no banquinho, nem do miúdo, jogando guêime.
A mulher abriu uma média. O homem ignorou aquela, e apalpou as garrafas no
fundo da caixa térmica. O rapazito suspendeu o jogo, e olhou-o com cara de
poucos amigos.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhaTlpB8YYa9ul3niETeW3VPfX8hPV38NBCGkCPMUVaYQo8lHbaOku05VjrFLKITvi9urIJv6Y0cBzfFGiSpJO2sOrSPA26-YzBvlA5CCYQoet1gADjaWst8SycNYh_7Sl7unLHrgOQYqIB_tTnZXti5yXu39Ps_JoBGPYw2-w10EXeLLdPmzW0P55DAU4/s1600/EDIPO.jpg- Vá brincar lá dentro – berrou a mulher, indicando a saída que dava para o resto da casa. Por sinal a única porta da barraca.
O balcão-janela dava para a rua, e estava, assim, o cliente, único àquela hora, de costas para a rua. Decidiu-se pela cerveja que a mulher lhe estendia. Afinal, estava tudo gelado por igual, e a quente, e a sede, tanta, que ele virou o primeiro copo num instante.
- Que tal? – perguntou a mulher, tentando animá-lo.
Ia já no mar alto da vida. Navegação difícil, pelos vistos. Emanava dela uma discreta tenacidade, a dor sem queixume, a arte de sobreviver. Não há remo mais lesto que o coração feminino.
- Que tal, é boa?
O homem tinha a língua presa. O humor azedo, ao fim de um dia de trabalho, é coisa normal. Ainda bem; por estes anos, de repente, Deus trocou-nos cogumelos por barraca. Entre o “chapa” e a casa, uma pausa para relaxar.
À terceira média, soltou, mesmo a língua, dizendo:
- Boa.
A mulher parou de acender a vela, e encarou-o. Melhor, encararam-se. À luz tremelicante do fósforo, ela surgiu da roupa da viuvez. Era como acender a própria beleza.
O menino estava à porta, espiando aquele momento mágico. A mulher virou-se para o garoto. Pela primeira vez, conheceu nele a cólera.
- Suca daqui! – ordenou a viúva.
Mas o puto voltaria sempre: mãe o meu guêime, mãe: tem um rato dentro da pasta; mãe um refresco; estou com fome, mãe…
- Dá-lhe um pacote de “Maria” – disse o cara. E acrescentou, peremptório: – na minha conta.
Mas isso, se é que ele não sabia, não o compraria. Quando muito, o seu momentâneo sumiço.
À quinta média, o cliente tinha já, não só a língua mas também o espírito solto, um verdadeiro poeta. Mudou-se para o canto do balcão onde à luz da vela, a mulher escolhia folhas de couve para o jantar. Como se o bafo da cevada fosse o suco da própria poesia, cochichou:
- Boa como a própria dona?
Nisso o menino reentrava. Não gostou daquela súbita intimidade. O peito cheio de ar, incapaz de falar, fixou o cliente com olhos de cobra.
- Xixi cama! – berrou o homem.
O puto deu um passo em frente. E descarregou os pulmões:
- Rua-rua-rua!
Pegando num vasilhame, avançou para o balcão. Estava em causa não propriamente o lugar do seu pai, mas o seu próprio. Qual pequeno Édipo, avançou pois, disposto a morrer. Eterno é o labirinto dos afectos, e por isso, estória sem desfecho, esta.
Conto de Moçambique
Entendendo o texto
01. No início do
conto, como é descrito o estado de espírito e o comportamento do homem que
chega à barraca?
a) Ele estava alegre e comunicativo, fazendo piadas
com a mulher e o menino.
b) Ele demonstrava pressa e impaciência, exigindo
ser atendido antes de todos.
c) Ele apresentava um humor azedo e uma
atitude distante, pedindo a cerveja "como quem pede ao ar".
d) Ele estava emocionado ao reencontrar a mulher,
que não via há muitos anos.
02. A mulher é
descrita como alguém que atravessa o "mar alto da vida". O que essa
expressão e a "roupa de viuvez" sugerem sobre ela?
a) Que ela é uma marinheira que vive de viagens
constantes.
b) Que ela é uma pessoa que enfrentou
muitas dificuldades e perdas, mas mantém a tenacidade.
c) Que ela é uma mulher rica que gosta de usar
roupas pretas por ostentação.
d) Que ela detesta trabalhar na barraca e deseja
mudar-se para a cidade.
03. Qual é a principal
causa do conflito entre o cliente e o menino (o "rapazito")?
a) O fato de o homem ter se recusado a pagar o
pacote de bolachas para o garoto.
b) O barulho que o menino fazia com o seu
"guêime", que impedia o homem de relaxar.
c) A aproximação íntima e o comentário
galanteador do homem em direção à mãe do menino.
d) O desejo do menino de querer beber a cerveja que
o homem estava consumindo.
04. Por que o narrador
chama o menino de "pequeno Édipo" no final do texto?
a) Porque o menino gostava de ler mitos gregos
enquanto jogava seus jogos.
b) Porque, como no mito, o menino
demonstra um instinto de proteção extrema pela mãe e rivalidade com a figura masculina
estranha.
c) Porque o menino era muito inteligente e
conseguia resolver qualquer enigma.
d) Porque o menino tinha um problema de visão e
precisava de ajuda para caminhar.
05. Como termina o
confronto entre o cliente e o garoto na barraca? a) O homem pede desculpas e
vai embora calmamente após terminar a cerveja.
b) A mãe expulsa o homem da barraca para proteger o
filho de um ataque.
c) O menino reage com fúria, gritando
para que o homem saia e avançando com um vasilhame, deixando o desfecho em aberto.
d) O homem e o menino fazem as pazes após comerem
juntos um pacote de bolacha Maria
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