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domingo, 26 de abril de 2026

CONTO: O BURRO E OS DONOS - TRADUÇÃO DE CURVO SEMEDO - COM GABARITO

 Conto: O burro e os donos

Tradução de Curvo Semedo


O burro de um hortelão

À Sorte se lamentava.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgN-Q0MU2jUKBi5YZLH4sR5TjFT2Jly_UujN4uTazNgFvPRqMgpz2T4upNbKZYYwBbplq0n6nECSKFT_s2TBRXula37gQbn5VFWmMUbomh5tbiOcUFxUVhH_VlOqK_BEv_zmlsSUwN8YE-1BYT35t4eLoNPU4R4FN2ekEDobI9qyCx196yrFtk7mcWydZ8/s320/BURRO.jpg


Dizendo que madrugava
Fosse qual fosse a estação,
Primeiro que os resplendores
Do sol trouxessem o dia.
«Os galos madrugadores –
O néscio burro dizia –
Mais cedo não abrem olho.
E porquê? Por ir à praça
C’uma carga de repolho,
Um feixe de aipo, ou labaça,
Alguns nabos e b’ringelas;
E por estas bagatelas
Me fazem perder o sono.»
A Sorte ouviu seu clamor,
E deu-lhe em breve outro dono,
Que era um rico surrador.
Eis de couros carregado,
Sofrendo um cruel fedor,
Já carpia ter deixado
O seu antigo senhor:
«Naquele tempo dourado –
Dizia – andava eu contente;
Cada vez que ia ao mercado
Botava à cangalha o dente,
Lá vinha a couve, a nabiça,
A chicarola, o folhado,
E outras castas de hortaliça;
Mas se hoje, fraco do peito,
O meu dente à carga deito,
Em vez da viçosa rama
Da celga, do grelo, ou nabo,
Só acho dura courama
Que fede mais que o diabo!»
Prestando às queixas do burro
A Sorte alguma atenção,
Lhe deu por novo patrão
Um carvoeiro casmurro.
Entrou em nova aflição
O desgostoso jumento.
Vendo faltar-lhe o sustento,
E em negro pó de carvão
Andando sempre afogado,
Tornou a carpir seu fado.
«Que tal! – diz a Sorte em fúria
– Este maldito sendeiro,
Com sua eterna lamúria,
Mais me cansa, mais me aflige
Que um avaro aventureiro
Quando fortunas me exige!
Pensa acaso este imprudente
Que só ele é desgraçado?
Por esse mundo espalhado
Não vê tanto descontente?
Já me cansa este marmanjo!
Quer que eu me ocupe somente
Em cuidar no seu arranjo?»
Foi justo da Sorte o enfado,
Que é propensão do vivente
Lamentar-se do presente,
E chorar pelo passado:
Que ninguém vive contente,
Seja qual for seu estado.

Entendendo o texto

 

01. Sobre a estrutura externa do texto, como ele se organiza formalmente?

a) o texto é organizado em parágrafos e frases contínuas, sem preocupação com a sonoridade.

b) o texto é composto por versos (linhas) e estrofes (conjuntos de versos), apresentando rimas ao longo da narrativa.

c) trata-se de um texto dramático, feito exclusivamente para ser encenado por atores em um palco.

d) é um texto puramente informativo, que utiliza uma linguagem técnica para descrever a vida dos burros.

02. O que se pode afirmar sobre as rimas presentes na primeira estrofe (hortelão/estação e lamentava/madrugava)?

a) são chamadas de rimas pobres, pois as palavras pertencem a classes gramaticais diferentes.

b) são rimas internas, pois ocorrem sempre no meio dos versos e não no final.

c) são rimas finais, que conferem musicalidade e ritmo ao poema através da repetição de sons semelhantes.

d) o texto não possui rimas, sendo composto apenas por versos livres e brancos.

03. Quem assume a voz que expressa sentimentos e opiniões dentro do poema (o equivalente ao narrador na prosa)?

a) o eu lírico (ou voz poética), que no desfecho reflete sobre a insatisfação humana.

b) o próprio autor curvo semedo, que entra na história para brigar com o burro.

c) a sorte, que é a única personagem que fala durante todo o texto. d) o hortelão, que expressa sua tristeza por ter perdido seu animal de carga.

04. Qual é o tema central abordado pelo eu lírico através da trajetória do burro?

a) a importância de se trocar de profissão sempre que estiver cansado.

b) a descrição detalhada de como funciona o comércio de hortaliças e carvão.

c) a ingratidão dos donos para com os animais de carga no passado.

d) a eterna insatisfação do ser vivente, que tende a reclamar do presente e valorizar o passado.

05. No trecho "A Sorte ouviu seu clamor", qual recurso de linguagem é utilizado para dar características humanas a um conceito abstrato?

a) metáfora, comparando a sorte a um objeto valioso e brilhante.

b) personificação (ou prosopopeia), atribuindo ações humanas, como ouvir e falar, à "Sorte".

c) hipérbole, pois há um exagero evidente na quantidade de hortaliças mencionadas.

d) aliteração, que é a repetição de sons consonantais para imitar o som do burro.

 

 

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