Relato Autobiográfico: Como e porque sou romancista
José de Alencar
Minha mãe e minha tia se ocupavam com trabalhos
de costuras, e as amigas para não ficarem ociosas as ajudavam. Dados os
primeiros momentos à conversação, passava-se à leitura e era eu chamado ao
lugar de honra.
Muitas vezes, confesso, essa honra me arrancava
bem a contragosto de um sono começado ou de um folguedo querido; já
naquela idade a reputação é um fardo e bem pesado.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhp6aTwgfj6kDIrD5qTtWqNRNheH1qDkzPqZmJbKT6aBU27NYiYkimJ49Ygf7p2m-l82jjryof6tsAhQ1q0U6v_j6CJTX8_1NB3DFx6NI-iNdId78MKvjiwU0NkeWmz4MnHPOtTAjFBBdWu96N0Gz8ZFsnh2HLrFULoqtWL4P9a7tKunk6i9ayKGXNQxsE/s1600/JOSE.jpgLia-se até a hora do chá, e tópicos havia tão
interessantes que eu era obrigado à repetição. Compensavam esse excesso, as
pausas para dar lugar às expansões do auditório, o qual desfazia-se em
recriminações contra algum mau personagem, ou acompanhava de seus votos e
simpatias o herói perseguido.
Uma noite, daquelas em que eu estava mais
possuído do livro, lia com expressão uma das páginas mais comoventes da
nossa biblioteca. As senhoras, de cabeça baixa, levavam o lenço ao rosto, e
poucos momentos depois não puderam conter os soluços que rompiam-lhes o
seio.
Com a voz afogada pela comoção e a vista
empanada pelas lágrimas, eu também cerrando ao peito o livro aberto, disparei
em pranto e respondia com palavras de consolo às lamentações de minha mãe e
suas amigas.
Nesse instante assomava à porta um parente
nosso, o Revd.º Padre Carlos Peixoto de Alencar, já assustado com o choro que
ouvira ao entrar – Vendo-nos a todos naquele estado de aflição, ainda mais
perturbou-se:
- Que aconteceu? Alguma desgraça? Perguntou arrebatadamente.
As senhoras, escondendo o rosto no lenço para
ocultar do Padre Carlos o pranto e evitar seus 1remoques, não proferiram
palavra. Tomei eu a mim responder:
- Foi o pai de Amanda que morreu! Disse,
mostrando-lhe o livro aberto.
Compreendeu o Padre Carlos e soltou uma
gargalhada, como ele as sabia dar, verdadeira gargalhada homérica, que mais
parecia uma salva de sinos a repicarem do que riso humano. E após esta, outra e
outra, que era ele inesgotável, quando ria de abundância de coração, com o
gênio prazenteiro de que a natureza o dotara.
Foi essa leitura contínua e repetida de novelas
e romances que primeiro imprimiu em meu espírito a tendência para essa forma
literária [o romance] que é entre todas a de minha predileção?
Não me animo a resolver esta questão
psicológica, mas creio que ninguém contestará a influência das primeiras
impressões.
JOSÉ DE ALENCAR
Como e porque sou romancista. Campinas: Pontes, 1990.
01.
Qual era o papel do jovem José de Alencar durante as reuniões de costura de sua
mãe e tia?
a.
Ele ajudava a costurar os vestidos e franjas das clientes.
b. Ele ocupava o "lugar de honra" para realizar a leitura
de livros em voz alta para as senhoras.
c.
Ele era responsável por servir o chá e os doces para as convidadas.
d.
Ele ficava brincando no jardim para não atrapalhar o silêncio da casa.
02.
No segundo parágrafo, o autor afirma que "a reputação é um fardo e bem
pesado". O que ele quis dizer com isso?
a.
Que ele se sentia muito importante e orgulhoso por ser um leitor famoso.
b. Que a obrigação de ler para os outros muitas vezes o tirava de
momentos de lazer ou de sono que ele preferia ter.
c.
Que os livros que ele carregava eram fisicamente muito pesados para uma
criança.
d.
Que ele tinha medo de errar a leitura e ser castigado pelo Padre Carlos.
03.
Como o "auditório" (as senhoras que ouviam a leitura) reagia às
histórias lidas por Alencar?
a.
Com indiferença, pois elas preferiam focar apenas no trabalho da costura.
b. Com muita emoção, fazendo recriminações aos vilões e torcendo
pelos heróis perseguidos.
c.
Com sono, pois as leituras eram muito longas e cansativas.
d.
Com risadas constantes, pois os livros escolhidos eram sempre de piadas.
04.
O que causou a cena de choro coletivo descrita no meio do texto?
a.
Uma briga familiar que aconteceu durante o jantar.
b.
A notícia real de que um parente próximo havia falecido naquela noite.
c. A comoção causada pela leitura de uma página triste do livro, que
narrava a morte do pai de uma personagem (Amanda).
d.
O medo que todos sentiram quando o Padre Carlos bateu à porta de repente.
05.
Qual foi a reação do Padre Carlos ao descobrir o motivo de tanta aflição e
choro na sala?
a.
Ele ficou furioso porque as senhoras estavam perdendo tempo com bobagens.
b.
Ele também começou a chorar, pois conhecia a personagem do livro.
c. Ele soltou uma "gargalhada homérica", achando graça da
situação ao perceber que o choro era por causa de uma história de ficção.
d.
Ele fez um sermão religioso sobre a importância de não ler romances.
06.
De acordo com a parte final do texto, qual a importância que Alencar dá a essas
leituras de infância?
a.
Nenhuma, ele acredita que sua carreira de escritor não tem relação com o
passado.
b. Ele acredita que essas "primeiras impressões" e a
leitura contínua de novelas influenciaram sua tendência para ser romancista.
c.
Ele acha que ler muito na infância o prejudicou nos estudos de psicologia.
d.
Ele afirma que só começou a gostar de romances depois que ficou adulto e saiu
de casa.
07.
O texto menciona que Alencar lia com tanta "expressão" que chegava a
ser interrompido por soluços. O que isso demonstra sobre a relação dele com o
livro?
a.
Que ele era um leitor mecânico e não entendia o que estava lendo.
b. Que ele se envolvia profundamente com a narrativa, sentindo a dor
das personagens como se fosse real.
c.
Que ele estava apenas fingindo para ganhar mais doces na hora do chá.
d.
Que ele lia muito rápido para acabar logo e poder voltar a brincar.
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