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sábado, 14 de março de 2026

CRÔNICA: EPIDEMIA POLISSILÁBICA - OTTO LARA RESENDE - COM GABARITO

 Crônica:  Epidemia polissilábica

                Otto Lara Resende

          RIO DE JANEIRO - Já se disse que a crise é de dicionário. Paulo Rónai denunciou a existência de uma geração sem palavras. Uma só, não, digo eu. Várias. A crise é semântica, disse um professor na Sorbonne, que convocou um seminário. Pode ser, diz o Pedro Gomes. Mas é também polissilábica. E me expõe a sua tese: nenhum país aguenta tantos palavrões como os que circulam agora por aí. Palavrão no sentido estrito de palavra grande.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg75ympSr7WAdI-6mYb39z1SJpzRU9MpNFrzeZDpH8yimv8jE9xqNR70S4jrFwsCR_5mOSFoThYNhPgcbMSNsPQVsGS2Zm2bqhmGwUfth5IU6Is7dmOt4DpPWdffOQnx7tCEKd_QsEuy_aWsUhppF0sXg6WUvo53Ww9Bj9-axTwBzEfEe7Rk26EeY0XdVM/s320/cronicas-otto-lara-resende.jpg


             A maior delas, como aprendemos na remota infância, tem até governado o Brasil. É essa mesmo: inconstitucionalissimamente. Depois deste advérbio, no seu hoje modesto pioneirismo, apareceram verdadeiros bondes vocabulares. Autênticos minhocões. São cada vez mais numerosos e compridos, como a composição ferroviária que transporta minérios. A perder de vista, todos têm de cinco sílabas para cima. São centopeias de tirar o fôlego e de destroncar a língua.

            Na porta do Jockey, depois do almoço, um sujeito conversava outro dia, sereno, sobre a atratividade do investimento superavitário. Temi pela sua digestão, se é que não foi vítima de uma congestão. Ou de um insulto cerebral. Mas há pessoas insuscetíveis de insulto, sobretudo cerebral. É o caso do cidadão que discorreu sobre o obstaculizado caminho que o Brasil tem de percorrer, se quiser alcançar um nível de competitividade num cenário de internacionalização do livre-cambismo.

                  Até a carta-testamento do Getúlio, obstaculizar não tinha feito a sua aparição triunfal. Dizem que foi ideia do Maciel Filho, que tinha este vezo nacionalista da palavra complicada. Na verdade, é difícil inovar o jargão político. Para atacar José Américo de Almeida, história antiga, Benedito Valladares lançou no mercado a palavra boquirroto. Logo os adversários disseram que era soprado pelo Orozimbo Nonato, um íntimo do Vieira e do Bernardes. Arrazoava com um cunho seiscentista.

             Enfim, tudo hoje em dia gera distorções. Gerar é um verbo-ônibus. Serve para tudo. Confiemos, porém, que a seu tempo, a nível de país, na expressão abominável que hoje é corrente, a solução seja equacionada. A desestabilização extrapola de qualquer colocação. Longe de mim o catastrofismo, mas no caminho polissilábico em que vamos, a ingovernabilidade é fatal. E talvez passemos antes pela platino-dolarização contingencial.   (Folha de S. Paulo, 22/07/91)

 

Entendendo o texto

 

01. No início do texto, o autor cita Paulo Rónai e um professor da Sorbonne para introduzir o tema da "crise". Segundo a tese de Pedro Gomes, apresentada e defendida por Otto Lara Resende, qual é a natureza específica dessa crise?

a. Uma crise de falta de termos técnicos para descrever a economia moderna.

b. Uma crise semântica causada pela ausência total de palavras no vocabulário dos jovens.

c.  Uma crise "polissilábica", caracterizada pelo uso excessivo de palavras muito longas e complexas.

d. Uma crise política gerada pela incapacidade de traduzir dicionários estrangeiros.

 

02. O autor utiliza metáforas como "bondes vocabulares", "autênticos minhocões" e "centopeias de tirar o fôlego" para se referir a certas palavras. O que essas figuras de linguagem revelam sobre a opinião do autor?

a. Admiração pela criatividade da língua portuguesa em criar termos extensos.

b. Crítica ao tamanho exagerado e à artificialidade de certas palavras modernas.

c. Apoio ao uso de termos ferroviários dentro do jargão político brasileiro.

d. Desejo de que a língua se torne mais complexa para alcançar o nível internacional.

 

03. Ao mencionar expressões como "atratividade do investimento superavitário" e "internacionalização do livre-cambismo", qual é a intenção principal do cronista?

a. Demonstrar erudição e conhecimento sobre o mercado financeiro.

b. Exemplificar como o discurso técnico e burocrático se tornou refém da "epidemia" de palavras longas.

c. Defender que o Brasil só alcançará competitividade se utilizar um vocabulário mais robusto.

d. Mostrar que a digestão humana é afetada pela leitura de jornais de economia.

 

04. O texto menciona que o verbo "gerar" tornou-se um "verbo-ônibus". O que essa classificação significa no contexto da crítica de Otto Lara Resende?

a. Que é um verbo que deve ser usado apenas por pessoas que utilizam transporte público.

b. Que é uma palavra de movimento que impulsiona a economia do país.

c. Que é um verbo de sentido vago e genérico, usado excessivamente para substituir termos mais precisos.

d. Que é a palavra mais comprida e difícil de pronunciar encontrada no dicionário.

 

05. Qual é a conclusão satírica (irônica) que o autor apresenta no último parágrafo sobre o futuro do Brasil diante desse cenário linguístico?

a. O país se tornará uma potência se adotar o "livre-cambismo" linguístico.

b. A simplificação do dicionário é a única forma de salvar a economia.

c. O uso de termos como "desestabilização" e "ingovernabilidade" levará o país a uma "platino-dolarização contingencial".

d. A solução para os problemas do país será finalmente "equacionada" através de seminários na Sorbonne.

 

 

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