Artigo de Opinião: Herói na contemporaneidade
Fernando Chuí
Quando eu era criança, passava todo o tempo
desenhando super-heróis.
Recorro ao historiador de mitologia Joseph
Campbell, que diferenciava as duas figuras públicas: o herói (figura pública
antiga) e a celebridade (a figura pública moderna). Enquanto a celebridade se
populariza por viver para si mesma, o herói assim se tornava por viver servindo
sua comunidade. Todo super-herói deve atravessar alguma via crucis.
Gandhi, líder pacifista indiano, disse que, quanto maior nosso sacrifício,
maior será nossa conquista. Como Hércules, como Batman.
Toda história em quadrinhos traz em si alguma
coisa de industrial e marginal, ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. Os filmes
de super-herói, ainda que transpondo essa cultura para a grande e famigerada
indústria, realizam uma outra façanha, que provavelmente sem eles não
ocorreria: a formação de novas mitologias reafirmando os mesmos ideais heroicos
da Antiguidade para o homem moderno. O cineasta italiano Fellini afirmou uma
vez que Stan Lee, o criador da editora Marvel e de diversos heróis populares,
era o Homero dos quadrinhos.
Toda boa história de super-herói é uma história
de exclusão social. Homem-Aranha é um nerd, Hulk é um monstro amaldiçoado,
Demolidor é um deficiente, os X-Men são indivíduos excepcionais, Batman é um
órfão, Super-Homem é um alienígena expatriado. São todos símbolos da
solidão, da sobrevivência e da abnegação humanas.
Não se ama um herói pelos seus poderes, mas
pela sua dor. Nossos olhos podem até se voltar a eles por suas habilidades
fantásticas, mas é na humanidade que eles crescem dentro do gosto popular. Os
super-heróis que não sofrem ou simplesmente trabalham para o sistema vigente
tendem a se tornar meio bobos, como o Tocha-Humana ou o Capitão América.
Hulk e Homem-Aranha são seres que criticam a
inconsequência da ciência, com sua energia atômica e suas experiências
genéticas. Os X-Men nos advertem para a educação inclusiva. Super-Homem é
aquele que mais se aproxima de Jesus Cristo, e por isso talvez seja o mais
popular de todos, em seu sacrifício solitário em defesa dos seres humanos, mas
também tem algo de Aquiles, com seu calcanhar que é a kriptonita. Humano e
super-herói, como Gandhi.
4Não houve nenhuma literatura que tenha me
marcado mais do que essas histórias em quadrinhos. Eu raramente as leio hoje em
dia, mas quando assisto a bons filmes de super-heróis eu lembro que todos temos
um lado ingênuo e bom, que pode ser capaz de suportar a dor da solidão por um princípio.
FERNANDO CHUÍ
Adaptado de http://fernandochui.blogspot.com
Entendendo o texto
01. Qual é a principal
diferença entre um "herói" e uma "celebridade", segundo o
historiador Joseph Campbell citado no texto?
a.
A celebridade é mais famosa que o herói nos dias de hoje.
b. A celebridade vive para si mesma, enquanto o herói vive para
servir à sua comunidade.
c.
O herói sempre tem superpoderes e a celebridade apenas muito dinheiro.
d.
O herói é uma figura moderna e a celebridade é uma figura pública antiga.
02. Por que o cineasta
Fellini comparou Stan Lee (criador da Marvel) ao poeta grego Homero?
a.
Porque ambos escreviam histórias sobre alienígenas e tecnologia.
b.
Porque os dois viveram na mesma época e eram amigos pessoais.
c.
Porque Stan Lee desenhava os seus próprios livros de forma industrial.
d. Porque Stan Lee, assim como Homero na Antiguidade, criou grandes
mitologias que refletem ideais heroicos para a sua época.
03. O autor afirma que
"toda boa história de super-herói é uma história de exclusão social".
Qual exemplo do texto justifica essa afirmação?
a. O Homem-Aranha, que é retratado como um nerd, e o Demolidor, que
é um deficiente.
b.
O Capitão América, que trabalha para o sistema vigente.
c.
O Tocha-Humana, que é considerado um herói muito popular e sério.
d.
O herói que vive cercado de amigos e nunca se sente sozinho.
04. De acordo com o
texto, o que faz com que os super-heróis cresçam no "gosto popular"?
a.
A quantidade de vilões que eles conseguem derrotar em cada filme.
b.
As suas habilidades fantásticas e poderes impossíveis.
c. A sua humanidade e a capacidade de sentir dor, e não apenas seus
poderes.
d.
O fato de eles trabalharem sempre para o governo e para o sistema.
05. Por que o autor
compara o Super-Homem tanto a Jesus Cristo quanto a Aquiles?
a.
Porque ele é um alienígena que gosta de história antiga e religião.
b.
Porque ele é o herói mais forte de todos e nunca sofreu nenhuma derrota.
c.
Porque ele foi criado por Stan Lee para ser um deus na Terra.
d. Pelo seu sacrifício solitário em defesa dos humanos (como Cristo)
e por possuir uma fraqueza específica, a kriptonita (como o calcanhar de
Aquiles).
06. Qual é a crítica
social que personagens como Hulk e Homem-Aranha representam, segundo o autor?
a.
Uma crítica à falta de segurança nas grandes cidades.
b. Uma crítica à inconsequência da ciência, como as experiências
genéticas e a energia atômica.
c.
Uma crítica ao preço elevado das histórias em quadrinhos nas bancas.
d.
Uma crítica aos jovens que não gostam de estudar biologia.
07. Ao final do texto, o
que o autor sente quando assiste a bons filmes de super-heróis?
a. Ele lembra que todos temos um lado bom e ingênuo, capaz de
suportar a solidão por um princípio.
b.
Ele sente vontade de voltar a desenhar como fazia quando era criança.
c.
Ele percebe que a literatura clássica é muito melhor que os quadrinhos.
d.
Ele fica triste por não ter os mesmos poderes que os personagens do cinema.
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