Conto: Passeio
João Anzanello Carrascoza
Aconteceu que o pai, à mesa de jantar,
disse de repente: Sábado vamos lá. A menina, mais rápida que o irmão,
perguntou, Lá onde, pai?, e ele, Não posso falar, é surpresa, e o
garoto, Fala, pai, aonde a gente vai?, e ele, já vendo a felicidade futura
dos filhos, sorriu, enigmático, Sábado, à tarde!, e continuou a comer,
como se nada tivesse acontecido – o mundo de sempre funcionando. Aquela era só
a notícia, a hora de vivê-la seria adiante; a mãe, mesmo sem saber qual o plano
do marido, disse, em seu auxílio, A semana passa depressa!, e, com efeito,
já estavam em sua metade.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgm7mTCVDhlhxQStD9joZxFfmLQ5xgCtQmwzsUByvs4Num6YyM7Fb6IW-I2LeqdNddDMp7BfxrCyAov2-umnM3VX-aTRsdh6Vd-oNP3OjbzcCfmVPY_ImNe1Yo2aQXPjwJBHNCjz6qFSFaFuU4frUh_LC8BUM4rCoUMby2E6vY6aiFi4LP0F6F0oSh7N5k/s320/playcenter-4.jpeg Mas os filhos queriam tudo imediato da
vida e ficaram atiçados, aquele “láˮ tinha sido vento em brasa, eles ardiam de
curiosidade, o garoto mais, por ser menor; a menina, no seu canto, esperta,
pensando, pensando, Vou descobrir! Fosse a praça, redonda, onde
alugavam bicicleta e faziam piquenique; ou o parque, grande, de tanto verde,
que não entrava de uma só vez em seus olhos; já estariam contentes.
Mas lá, lá onde seria?
Não podiam se conter, os dois estavam
além dessa noite. E era hora de dormir. Como manter a calma com aquela alegria,
ainda sem forma, lá na frente? Sonhavam sem sono em suas camas. Reviravam-se,
igual, nas dobras do lençol e da imaginação.
Sorriam no escuro, só sentindo essa
dúvida boa, onde?, onde?. O pai era mesmo de revelar aos poucos, para que
vissem tudo, devagar, na sua inteireza. O cansaço, contudo, pedia-lhes mais
corpo. E ganhou. O garoto foi o primeiro a dormir: arquitetava desejos e fatos,
mesclando-os quando, de súbito, já ressonava alto; a respiração forte, no sonho
certamente ele corria, era a sede dos dias seguintes. A menina, em seguida: nos
lábios, o som silente de umas palavras adivinhas: shopping, karaokê,
Playcenter. O que seria? O passeio, misterioso! Mas como são grossas as camadas
da certeza, a menina não podia penetrá-las e ficou só na sua superfície,
inventando lugares menores, se comparados à realidade. Bocejou uma vez. Duas.
Dormiu.
E, de súbito, já era o dia seguinte.
E depois a noite desse dia.
E logo outro dia.
E a sua noite correspondente.
No meio dessas horas todas, entre sol e
sono, os dois irmãos reouviam, na memória, o anúncio do pai, Sábado vamos lá, e
experimentavam a mesma feliz aflição, de saber já o quê e o quando, mas não o
onde ainda encoberto. E como o eco retornava, também se reesqueciam, tinham as
suas urgências. Mas aí, de repente, relembravam. O garoto rodeava o pai, Aonde
a gente vai?, a menina jogava verde com a mãe, Na quermesse?, insistiam,
insistiam, e nada. Melhor era viver sem expectativas a chegada do sábado.
E esperaram assim, sem perceber,
cuidando do que era próprio de sua idade ‒ os deveres da escola, o direito às
brincadeiras. E o sábado chegou.
Dia claro, o sol abriu cedo a manhã.
Ninguém se lembrava do passeio, mas o passeio estava lá nas suas profundezas.
Bastava atirar a primeira palavra para acordá-lo, e foi o pai — só podia ser
ele — quem o fez no café da manhã, dizendo: Vamos sair às três!
E aí o sorriso de um canto a outro da
mesa, a curiosidade vívida das crianças, o mistério, enfim, com a sua hora do
parto marcada.
Ainda havia uma chance de descobrir, e
o garoto não a deixou passar, Posso levar skate? O pai, Melhor não. A resposta
já reduzia as opções, não era campo, praça, parque. A menina perguntou, Posso
levar um gibi? O pai, Lá você não vai querer ler, e completou, só se for no
caminho. E antes que replicassem, ele completou, é meio longe, vamos de ônibus!
A mãe observava os filhos, também ignorava qual o programa, e achou prudente
perguntar, Preparo uns lanches?, ao que o marido respondeu, Não, não precisa, a
gente come lá!
O mistério prosseguia. O pai com o
novelo da surpresa só para ele. Então, cada um foi gastar com alguma coisa a
leveza de seu sábado: o garoto com o cachorro no quintal, a menina com seus
CDs, a mãe com as providências para o almoço. Assim, o devagar das horas passou
depressa enquanto eles ocupavam as mãos e, sobretudo, a mente.
E pronto: já era o tempo de ir.
A mãe queria tirar umas dúvidas: Com
que roupa? O marido, à porta do quarto, Confortável, e ela, Vestido ou calça
jeans?, e ele, Vestido, e ela, Bolsa grande ou pequena?, e ele, Pequena, e ela,
com um fiozinho de impaciência, Mas, afinal, aonde vamos?, e ele, Mais uns
minutos e você saberá.
Deu a hora combinada.
Lá foi a família. O pai à frente, rebocando
a mulher e os filhos até o ponto de ônibus. Esperaram em pé, o orgulho no
olhar. Passou um, passou outro. Era o terceiro. O pai viu, É aquele, e acenou,
vamos, vamos! O ônibus encostou e abriu a porta: entraram, rápidos, e se
sentaram ao fundo. A realidade junto, generosa naquele instante, passeio
iniciado. Os dois irmãos continuavam sem saber onde era lá, mas já provavam uma
alegria modesta. E trataram de engordá-la: uma freada do ônibus os atirou um
sobre o outro, e eis que riram, gargalharam. A mãe de olho, Cuidado, segurem
firme!, o pai feliz também, era isso o que desejava, os filhos daquele jeito, o
bom da diversão era ela toda ‒ o caminho.
Primeiro, da janela, viram o bairro de
sempre, Olha, olha, o supermercado, a igreja, a escola: tudo há muito
conhecido, embora fosse um ver novo, com o contentamento. Depois, o ônibus os
levou pela primeira vez a umas ruas nervosas, edifícios velhos dos dois lados,
até desembocar numa praça cercada de árvores. Aí foram dar numa avenida de
tráfego veloz, depois passaram por uns bairros bonitos; parecia outra cidade:
casarões imponentes, alamedas, jardins. E essa outra cidade os via dentro do
ônibus, à espera do que vinha. O garoto provocava a menina para aumentar a
graça da viagem; o pai e a mãe sorrindo-se e, de repente, de mãos dadas, o
vento suave nos cabelos.
Então, uma sombra enorme cobriu a
avenida por onde o ônibus seguia e, depois de sumir, deixou-a como antes. Logo
à frente, puderam ver no céu o que era — Nossa! —, um avião. Rasante, planava
quase a tocar os prédios: o ventre bojudo de metal, as asas estalando ao sol, o
som trovejando atrás feito um rabicho. Admiradas, as crianças esticaram os
olhos para ver no seu rever o avião, imenso, sumindo sobre os edifícios, era lá
o seu pouso. Até então tinham visto os aviões só pequenos, no muito alto do
céu, entre nuvens, sem os detalhes de agora e — descobriam, naquele momento —
que eram, em verdade, sempre grandes. Tão despropositada era essa visão, que
cutucaram o pai e a mãe perguntando o óbvio, se também tinham visto, como se o
avião fosse um passarinho e só o olhar atento, de criança, pudesse percebê-lo
na paisagem.
O ônibus fez urna curva, pegou urna rua
lateral e eis um novo redemoinho de excitação: no horizonte, vindo da esquerda,
outro avião sobrevoava baixinho os edifícios e seguia rugindo para a mesma
direção. O pai disse, É no próximo ponto!, e se levantou com a mãe. Os filhos o
imitaram com atraso, flertando ainda o avião em seus pormenores, o bico, as
asas…
Saltaram do ônibus no meio de uma longa
avenida. Atravessaram-na por uma passarela e, já do outro lado, caminharam
algum tempo. Antes que o pai dissesse, os irmãos já sabiam. Era lá, o pleno
passeio. O coração deles estremecia, com os primeiros encantos… Dali, podiam avistar
a entrada principal do aeroporto, a torre de controle, um trecho da pista onde
um avião taxiava lentamente, sem que soubessem se era sua partida ou chegada.
Também não importava: só queriam vê-lo, com os olhos da certeza, aquele era o
instante, sem o antes e o depois, o imediato real ‒ o avião, sólido, movia-se,
mais e mais, fora da neblina do sonho. A família, igualmente, seguia
devagarinho pela calçada, rumo ao seu destino.
O pai, no comando, conduziu-os à área
de desembarque. Gente e mais gente afluía de várias direções, com bolsas a
tiracolo, mochila às costas, malas sobre carrinhos. O frenesi excitava e
entontecia. A mãe se pôs entre os filhos, dando-lhes as mãos para que não se
perdessem entre as pessoas. Chegaram a uma porta de vidro, que se abriu,
automaticamente. Entraram. O pai, Vamos, é lá em cima, e seguiu para a escada
rolante, margeando os guichês das companhias aéreas.
Subiram, a curiosidade acelerada. Um
andar mais calmo, e também eles num novo estado, acima. Ali, o mirante. Uma
aglomeração de pessoas em frente à imensa janela panorâmica. Todas para ver
além do vão do seu dia. Os irmãos achataram o nariz no vidro, como se quisessem
transpô-lo. Latejava nos dois a felicidade, e era muita: até incômoda.
Assistiam àquele trecho do mundo, inteiros, que tudo o mais era de força menor.
O quadro se fazia e se refazia, móvel: dezenas de jatos estacionados com as
portas abertas; ao redor, um ir e vir de tratores e ônibus, o sol atrás dos
prédios, e, tocando a pista, agora pousava um avião, Olha lá, olha lá! Chegava,
enfim, a hora máxima.
CARRASCOZA, João Anzanello. Passeio. Aquela água toda. Rio de
Janeiro: Alfaguara, 2018. p. 66-74.
Fonte: Set Brasil.
Ensino Fundamental, anos finais, 7º ano, livro 2. Thaís Ginícolo Cabral – São
Paulo: Moderna, 2019. p. 13-15.
Entendendo o conto:
01 – De acordo com o texto,
qual o significado das palavras abaixo:
-- Frenesi: atividade, agitação interna.
-- Playcenter: nome de um parque de diversão que funcionou na cidade de São
Paulo, de 1973 a 2012.
-- Silente: silencioso.
02 – Qual é a surpresa que o
pai anuncia à família à mesa de jantar?
O pai anuncia que
no sábado eles iriam "lá", um lugar misterioso que ele não revela
para manter a surpresa e atiçar a curiosidade dos filhos.
03 – Por que o mistério sobre
o lugar do passeio desperta tanta curiosidade e aflição nas crianças?
O mistério causa
uma "feliz aflição" nas crianças porque elas sabiam o quê (o passeio)
e o quando (sábado à tarde), mas não o onde, o que as faz sonhar acordadas e
tentar, sem sucesso, adivinhar o destino.
04 – Que lugares a menina
chega a imaginar que poderiam ser o destino do passeio?
A menina chega a
cogitar que o passeio poderia ser no shopping, no karaokê ou no Playcenter.
05 – Quais foram as dicas
dadas pelo pai que ajudaram as crianças e a mãe a reduzir as opções do destino,
pouco antes de saírem?
O pai deu as
seguintes dicas: Não era bom levar skate (eliminando campo, praça, parque). Não
seria um lugar onde se gostaria de ler (gibi), exceto no caminho. Era meio
longe, e eles iriam de ônibus. Não precisava preparar lanches, pois eles
comeriam lá.
06 – Qual é o meio de
transporte utilizado pela família para ir ao local misterioso?
A família se
dirige ao local de destino de ônibus.
07 – Durante a viagem de
ônibus, o que acontece que aumenta a alegria e a diversão das crianças?
Uma freada do
ônibus atirou os dois irmãos um sobre o outro, o que os fez rir e gargalhar,
percebendo que "o bom da diversão era ela toda ‒ o caminho".
08 – O que a família vê pela
primeira vez de uma forma grandiosa e detalhada, o que os leva a questionar os
pais?
Eles veem um
avião em voo rasante, com "o ventre bojudo de metal, as asas estalando ao
sol", o que os faz descobrir que os aviões eram, na verdade, sempre
grandes e não apenas pequenos pontos no céu como viam antes.
09 – Ao saltarem do ônibus e
caminharem pela passarela, as crianças conseguem, finalmente, identificar qual
é o destino. Que lugar é esse?
O destino do
passeio é o aeroporto.
10 – Qual é a primeira coisa
que as crianças veem no aeroporto que lhes traz o "imediato real"?
Eles avistam a
entrada principal do aeroporto, a torre de controle e "um trecho da pista
onde um avião taxiava lentamente".
11 – Onde o pai conduz a
família para que todos possam assistir plenamente ao movimento do aeroporto e
de seus aviões?
O pai os conduz
ao mirante, no andar de cima, em frente à imensa janela panorâmica, onde podiam
ver a pista, os jatos estacionados e o pouso de um avião.
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