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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

ROMANCE: A HORA DA ESTRELA - FRAGMENTO - CLARICE LISPECTOR - COM GABARITO

 Romance: A hora da estrela – Fragmento

                Clarice Lispector

Trecho I

        Escrevo neste instante com algum prévio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa tão exterior e explícita. De onde no entanto até sangue arfante de tão vivo de vida poderá quem sabe escorrer. [...]

        Como é que sei tudo o que vai seguir e que ainda o desconheço, já que nunca o vivi? É que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina. Sem falar que eu em menino me criei no Nordeste. Também sei das coisas por estar vivendo. Quem vive sabe, mesmo sem saber que sabe. [...]

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhk5eE4nVXM9SVD2xwnEOVXKJsZeBPsS6-zUMyIZV_wyszsW8YJmJLAUZn3hXr2ilgLjhtM2V1KODQK2OYc8nxIYrGifSxiTBmrH8rv52ZcRJ1lnz2ANq23yJOl0eVp0ecDq9TR0sNVutqjVZuXlL2HgcOUXfGIMH08BgLGJr4zrnW5mcCkKjTp6JSzQH4/s320/images.jpg


        Proponho-me a que não seja complexo o que escreverei. [...].

        O que escrevo é mais do que invenção, é minha obrigação contar sobre essa moça entre milhares delas. É dever meu, nem que seja de pouca arte, o de revelar-lhe a vida. [...]

        Quero antes afiançar que essa moça não se conhece senão através de ir vivendo à toa. Se tivesse a tolice de perguntar “que sou eu?” cairia estatelada e em cheio no chão. É que “que sou eu?” provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto.

Clarice Lispector. A hora da estrela. Rio de Janeiro: José Olympio, 1981, pp. 16-20.

Trecho II

        Quanto à moça, ela vive num limbo impessoal, sem alcançar o pior nem o melhor. Ela somente vive, inspirando e expirando, inspirando e expirando. Na verdade – para que mais que isso? O seu viver é ralo. Sim. [...]

        Ela nascera com maus antecedentes e agora parecia uma filha de um não-sei-o-quê com o ar de se desculpar por ocupar espaço. [...] Ninguém olhava para ela na rua, ela era café frio. [...]

        Essa moça não sabia que ela era o que era, assim como um cachorro não sabe que é cachorro. Daí não se sentir infeliz. A única coisa que queria era viver. Não sabia para que, não se indagava. [...]

        Talvez a nordestina já tivesse chagado à conclusão de que vida incomoda bastante, alma que não cabe bem no corpo, mesmo alma rala como a sua.

Clarice Lispector. Idem, pp. 30-40.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 234.

Entendendo o romance:

01 – No Trecho I, o narrador expressa um sentimento de dever em relação à história da moça nordestina. Qual é a principal motivação apresentada por ele para escrever essa narrativa?

a) A necessidade de resgatar memórias autobiográficas de sua infância no Nordeste.

b) A intenção de criar uma obra de ficção complexa e repleta de mistérios insolúveis.

c) O desejo de demonstrar sua alta habilidade e virtuosismo técnico na arte literária.

d) O compromisso ético e a obrigação de dar visibilidade à vida da moça.

02 – De acordo com as reflexões do narrador no Trecho I, por que a pergunta 'que sou eu?' seria perigosa para a protagonista?

a) Porque a questionamento gera uma necessidade de sentido que a personagem não saberia como satisfazer.

b) Porque essa pergunta a faria perceber que era mais inteligente do que as pessoas ao seu redor.

c) Porque o autoconhecimento a levaria a abandonar imediatamente sua vida no Rio de Janeiro.

d) Porque o ato de se questionar exigiria dela o aprendizado de teorias filosóficas complexas.

03 – No Trecho II, a expressão metafórica 'ela era café frio' é utilizada para descrever a moça. O que essa metáfora sugere sobre a percepção social da personagem?

a) A sua total insignificância e invisibilidade aos olhos das pessoas que passavam por ela.

b) O seu temperamento calmo e controlado diante das adversidades do cotidiano.

c) O seu ressentimento silencioso contra as injustiças da grande cidade.

d) A sua constante busca por momentos de descanso e pausa durante o trabalho.

04 – A analogia entre a moça e um cachorro ('assim como um cachorro não sabe que é cachorro'), apresentada no Trecho II, tem como finalidade explicitar:

a) O desprezo e a agressividade com que ela costumava tratar as pessoas ao seu redor.

b) A ausência de autoconsciência da personagem, o que a preservava de se sentir infeliz.

c) A incapacidade biológica da moça de se comunicar com outros seres humanos.

d) A fidelidade incondicional da personagem em relação aos seus patrões e colegas.

05 – Qual opção sintetiza adequadamente o modo de existência da moça descrito ao longo do Trecho II?

a) Uma trajetória marcada pela busca constante de ascensão social e realizações pessoais.

b) Uma postura de confronto aberto e revolta permanente diante da exclusão social.

c) Uma vida dominada por angústias filosóficas profundas e dor existencial diária.

d) Uma vivência puramente biológica e alienada, pautada no simples ato de vegetar ou respirar.

 

TEXTO: COMO ATINGIR UM BOM NÍVEL DE REDAÇÃO

 Texto: COMO ATINGIR UM BOM NÍVEL DE REDAÇÃO

 

        Dicas para fazer da redação uma tarefa mais natural e menos temerosa:

        -- Ler sobre todos os assuntos é o primeiro passo. Ninguém consegue transmitir qualquer coisa, sem que obtenha informações sobre ela. Há vários temas que podem ser cobrados, e não existe uma tendência ou previsão. A preparação deve ser completa;

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiJRA-GKAf0LWJxWycQbVvhU7dImCjNBGdxgYKD-7-g-ey3keFeLFIKYOZejHoCWth1Iq1Ry9hrSC8CZdPbhReRODRd0he4TSDrBYfKX7CoGckxQqD0Lrl8tr3uIwVkgHxZFtrkUkwvtKm5yOZCJXB_23pO8sZufNgIuKaQMuMLkEPBZLkGJkZbl-4U23w/s320/images.jpg 


        -- Escrever corriqueiramente. Se você ler e não praticar, não vai adiantar muita coisa. É preciso converter as informações recebidas em construções textuais. E isso deve ser feito com um prazo de, no máximo, uma semana de descanso. Se passar disso, a acomodação começa a ganhar espaço;

        -- Ser objetivo, claro, conciso. Não se admitem mais textos truncados, que se apoiam única e exclusivamente em demonstrar conhecimento vocabular. De nada serve utilizar as palavras mais hilárias sem que estejam contextualizadas com a situação;

        -- Definir uma linha de raciocínio e não fugir dela. Misturar temas ou desviar-se do foco pode, inclusive, eliminar o candidato;

        -- Escrever de forma legível. Isso não significa dizer que seja preciso "desenhar" a letra. O aluno deve, simplesmente, tornar claros os períodos que compõem o texto, para possibilitar uma avaliação fiel daquilo que está sendo analisado;

        -- Não se posicionar de forma exageradamente subjetiva. O texto, qualquer que seja seu gênero, deve trazer uma carga de impessoalidade, que significa não tomar partido de um assunto por questões pessoais. É preciso equilíbrio, até para poder encontrar argumentos convincentes;

        -- Evitar expressões coloquiais, quando o texto for de natureza DISSERTATIVO-ARGUMENTATIVA. Isso não se adequa à situação;

        -- Saber diferenciar a estrutura conforme os gêneros: Carta exige um modelo, Artigo exige uma outra esquematização, Notícia tem suas particularidades. E assim por diante;

        -- Reescrever sempre o texto que não foi bem avaliado. Essa atitude talvez seja a mais importante e, infelizmente, a menos praticada.

        Espero que essas dicas possam contribuir àqueles que estão conscientes da importância da redação na nota final do vestibular.

 

 

 

BIOGRAFIA: SE A MEMÓRIA NÃO ME FALHA - A HERANÇA - FRAGMENTO - CLAUDIA ORTHOF PEREIRA LIMA - COM GABARITO

 Biografia: Se a memória não me falha – A herança – Fragmento

        Mamãe nasceu no Rio, no Hospital dos Estrangeiros, em 03 de setembro de 1932, filha de um casal de judeus austríacos, que tinham deixado Viena entre as duas guerras, em busca de paz e trabalho. Seu pai, Vovô Geraldo (Gerhard Orthof), era de uma família de artistas, ele próprio pintor. Seu tio materno foi o músico Arnold Schoenberg, e a mãe, Malvine, era casada com um letrista de operetas vienenses. Esta avó, Vovó Malva, como mamãe dizia, influenciou muito a adolescente Sylvia, com sua irreverência e liberdade. A mãe de Mamãe, Vovó Trude (Gertrud Alice Goldberg, depois Orthof), foi pintora e ceramista. Era de uma família burguesa e rica de Viena, que perdeu tudo na guerra e veio para o Brasil, fugindo do nazismo. Sua mãe, a Vovó Clara de Mamãe, tocava piano e cantava... e chorava a perda de sua terra natal.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhQb5iLvf8FuRlmwc0kxi1f8xahggJU9FfXpfjlc86lYGuW1ZGIq73W2YqNPRF9VMvGv6_JUWf97XztHQ7BXCs6SN9egLAJ7QqG6Lf4aR0UifgpO7cDW32fAhQZvMnwQackPhSe-EXwRQ-RY7ceZ7HqX7N079o2e1N61jY8cpizQA1KOoslUQduJM7CBZA/s320/images.jpg


        Mamãe teve uma infância difícil. Aprendeu a falar primeiro alemão e falava português com sotaque e errado até a idade escolar. Filha única, numa família de imigrantes pobres, que recebia seus avós e tios, chegados da Áustria em guerra. Além de tudo, quando tinha sete anos, seus pais se separaram, numa época em que isto era muito incomum. Meu avô se casou e a sua segunda esposa tinha uma filha da idade de Mamãe. Ela ficou vivendo com Vovó Trude. Não falavam para a menina Sylvia que ela era judia, por temer o preconceito, não falavam alemão na rua para não serem confundidos com nazistas, num Brasil então em guerra, lutando com os aliados. Na escola, as meninas faziam Primeira Comunhão e Mamãe também quis... e fez, sendo batizada por uma família não religiosa.

        Adolescente, conheceu o Teatro do Estudante, de Paschoal Carlos Magno, e aos quinze anos foi a “Julieta” de Shakespeare. Tio Paschoal, como nós o chamávamos, foi uma figura paterna para Mamãe, e para nós um avô louco e divertido, que telefonava sempre com um apelido diferente, geralmente impublicável. Quando crianças, saíamos do Planalto Central, em Brasília, onde moramos, para fazer as visitas montanhosas aos avós: Vovô Geraldo, pai de Mamãe, em Petrópolis, Vovó Trude, mãe de Mamãe, em Teresópolis, Vovó Adalgisa, mãe de Papai, em Petrópolis, e Paschoal em Santa Tereza.

        Aos 18 anos foi estudar teatro em Paris, onde estreitou os laços com a única irmã de Vovó Trude, a famosa Tia Hedy, que havia fugido para a França durante a guerra. Tia Hedy, depois da morte de vovó, ficou sendo a mãe de Mamãe, e hoje ainda vive em Paris, aos 95 anos, e me falou ontem, por telefone, que estaria agora reunida a nós, em pensamento. Seu filho, Harry, hoje vivendo em Milão, foi o irmão que a Mamãe não teve. Um primo que a ajudou muito pela vida afora, inclusive nos últimos tempos da doença.

        Um ano depois voltou ao Brasil e trabalhou como atriz no Teatro Brasileiro de Comédia, em São Paulo (o TBC), e no Rio com os grandes nomes do teatro e da TV, como Cacilda Becker, Walmor Chagas, Ziembinsky, Sérgio Britto, Cleyde Yáconis, Sérgio Cardoso e muito mais.

        Aos 25 anos, falava com Cacilda, no camarim, que estava cansada daquela vida de teatro de noite, ensaio de madrugada, dormir de manhã, televisão (ao vivo – sem videoteipe) à tarde. Queria casar e ter filhos. Papai, Sávio Pereira Lima, estava na plateia. Era um médico amigo de artistas, e Cacilda os apesentou. Pouco depois, Mamãe deixou o teatro e, apaixonada, acompanhou meu pai para uma aldeia de pescadores, Marobá, hoje Nova Viçosa, no sul da Bahia, onde viveu seus primeiros anos de casada, e eu meu primeiro ano de vida. Papai tinha 40 anos, tinha ficado viúvo muito jovem, com um filho pequeno, tinha se casado, tido outro filho e se separado. Com esta vida atribulada, desgostoso com seu destino, se refugiou em Nova Viçosa, onde trabalhava como médico de uma empresa madeireira, único médico da região. [...]

        Dois anos depois fomos morar em Petrópolis, onde nasceu meu irmão Geraldo, e onde conheceu os amigos Pola e Tato Gostkorzewicz e Zilah e Luís Tranin, amigos da vida inteira.

        Em 1959, Juscelino anunciava a construção de Brasília e a mudança da capital. O espírito aventureiro de Papai fez com que nos mudássemos para lá, o início de 60, onde vivemos a vida dos candangos pioneiros de Brasília. Lá nasceu meu irmão Pedro. Papai era médico pediatra da Câmara dos Deputados, foi secretário de Saúde do Distrito Federal, e nossa vida se estabilizou, dentro do que era possível para aquela família ser estável. Mamãe tinha 32 anos, três filhos, dois enteados, um marido respeitado profissionalmente e uma enorme insatisfação profissional.

        Começou a usar sua criatividade na TV Brasília com um programa infantil de fantoches, o Teatro do Candanguinho. Contava histórias infantis na Rádio MEC, era júri do concurso de Miss Brasília e desenhava fantasias para o cabeleireiro Augusto, nos bailes carnavalescos, onde ele ganhava todos os prêmios da categoria “originalidade”. Foi professora na UnB, sem nunca ter sido universitária, e criou um grupo de teatro amador com operários, no SESI, onde encenou “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, numa montagem com atores operários que entusiasmou Paulo Autran, que viajava com a mesma peça numa turnê nacional. [...].

        Nas férias, íamos para o Festival de Inverno de Ouro Preto, onde Mamãe dava cursos de teatro, ou para Festival de Arcozêlo, com Paschoal Carlos Magno e suas inacreditáveis irmãs italianas, tia Aurora, tia Orlanda e a terceira? “Se a memória não me falha...” Era divertido, mas não era fácil. Conciliar o inconciliável... Ser filho de Sylvia Orthof era mais divertido para quem via de fora. De dentro, tivemos tempos difíceis. A liberdade cerceada, a censura dificultava o trabalho de Mamãe. A pressão aumentava e em 1966, aos 34 anos, ela fugiu para Paris, com Vovó Trude, Geraldo e eu, para os braços da Tia Hedy. Mamãe “deu um tempo”, como se diz hoje em dia. Pedro, com 2 anos, e Papai ficaram em Brasília. [...]

        Depois de 4 meses, Papai foi nos buscar. Voltamos à vida familiar em Brasília. Prosperamos junto com a “corrente pra frente, Brasil”, mudamos para uma casa no Lago, mas o cerceamento da liberdade, o cerco militar, a censura e a tortura não deixavam nossa família ser feliz. [...]

        Mais tempos duros vieram. Papai descobriu que estava com câncer e resolveu devolver Mamãe e os filhos ao velho Orthof. Mudamos em 1971 para Petrópolis. Nossa casa em Brasília foi vendida e o dinheiro aplicado na Bolsa, que ruiu naquele ano. Retomamos o convívio familiar com as famílias Orthof e Pereira Lima, e os velhos amigos de Petrópolis. Por pouco tempo, pois alguns meses depois Tato perdia sua mulher e as duas noras num trágico acidente de automóvel. Mais alguns meses e nós voltávamos à Brasília para tentar atender às necessidades da doença de Papai. Mamãe ficou viúva aos 40 anos. Voltamos à Petrópolis, e então os dois amigos viúvos, Mamãe e Tato, se encontraram e se casaram.

        Começou aí a segunda etapa da vida de Mamãe. Recém-casada com Tato, voltou ao Rio e retornou sua vida profissional. Escreveu e dirigiu no MAM (Museu de Arte Moderna), do Rio, a premiada peça infantil “A Viagem do Barquinho”, em que toda a família trabalhava. Do teatro passou à literatura infantil e começou a sua carreira de sucesso como escritora. O casamento fez com que Tato, aposentado como arquiteto, e também ele um artista, retomasse a pintura e o desenho, passando a ilustrador da maioria dos livros de Mamãe. Alguns foram ilustrados por ela própria, outros por meu irmão Gê, e outros por vários desenhistas. [...]

        Mamãe tinha a vida cada vez mais voltada para a literatura, sendo reconhecida como escritora. Pedro cresceu, Mamãe e Tato mudaram para Petrópolis e produziram mais de cem livros. [...]

        Mamãe teve uma vida plena e rica, e neste inevitável inventário, é bom ver que ela fez a sua parte, o seu melhor possível. Foi casada por 15 anos com Papai, e por 24 com Tato. Fez o melhor que pôde o papel de madrasta dos dois filhos de cada marido. Foi sincera e tentou superar as dificuldades. Teve nós três, seus filhos, seus quatro netos e mais todos os outros emprestados, filhos dos enteados, do genro, da nora. Foi generosa. Criou, trabalhou, usou seu potencial, não desperdiçou seu talento, foi coerente com sua ideologia de liberdade e de paz.

        Agora, no início do ano passado, quando descobrimos o câncer que a levou, imaginávamos que teria poucos meses de vida. Ainda viveu um ano e meio e nesse tempo escreveu vários livros, enfrentando a quimioterapia, os exames, duas cirurgias e três internações hospitalares. Foi pena ter ido agora, com tanto ainda por fazer. [...]

Trechos da biografia lida por Claudia Orthof Pereira Lima, filha de Sylvia Orthof, na  Missa de 7º dia da mãe, realizada na igreja de São Conrado, no Rio de Janeiro, em 31 de julho de 1997. Fonte: www.docedeletra.com.br

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 11-15.

Entendendo a biografia:

01 – Justifique o título da biografia de Claudia Orthof.

      A autora é filha de Sylvia Orthof e está narrando fatos que lhe foram contados pela mãe e outros que ela mesma vivenciou. “Se a memória não me falha” porque foram muitos os momentos importantes e marcantes vividos pela família e talvez ela pudesse se esquecer de citar algum fato, algum nome de pessoa... “A herança” porque para ela todas as experiências vividas ao lado da mãe e o modelo positivo deixado por ela foram o melhor legado que Claudia, como filha, pode receber.

02 – Por que Claudia Orthof usa as iniciais maiúsculas nos nomes Mamãe, Papai, Vovô, Vovó e Tia?

      Porque estão no lugar dos nomes próprios e foram pessoas importantes na vida de Claudia.

03 – Aos 25 anos Sylvia Orthof conheceu Sávio Pereira Lima no Rio de Janeiro. Os dois se uniram e foram morar em Nova Viçosa. Sobre esse fato responda:

a) Em que ano isso aconteceu?

      Em 1957.

b) A partir dessa data, quantas mudanças de cidade aconteceram na vida de Sylvia? Faça um pequeno esquema das mudanças para comprovar sua resposta. Comece assim: Nova Viçosa – 

      Foram 10 mudanças: Nova Viçosa – Petrópolis – Brasília – Paris – Brasília – Petrópolis – Brasília- Petrópolis – Rio – Petrópolis.

04 – Quais figuras importantes do meio artístico e cultural foram fundamentais na formação de Sylvia Orthof durante a sua adolescência?

      Sylvia foi muito influenciada por Paschoal Carlos Magno, criador do Teatro do Estudante, que funcionou como uma figura paterna para ela (aos 15 anos, ela atuou como "Julieta"). Além disso, aos 18 anos, ao estudar teatro em Paris, estreitou laços com sua Tia Hedy, outra referência marcante em sua vida.

05 – Quais fatores tornavam o ambiente familiar de Sylvia bastante atípico e desafiador durante a sua infância?

      Ela era filha única de imigrantes austríacos pobres fugidos do nazismo, que não falavam alemão na rua por medo de preconceito e escondiam a origem judaica. Além disso, enfrentava barreira idiomática (falava português errado até entrar na escola) e lidava com a separação dos pais aos sete anos, algo muito incomum para a época.

06 – Como Sylvia Orthof conseguiu canalizar a sua criatividade e insatisfação profissional no período em que viveu como pioneira em Brasília?

      Sylvia criou o programa infantil de fantoches "Teatro do Candanguinho" na TV Brasília, contava histórias infantis na Rádio MEC, desenhava fantasias carnavalescas premiadas, foi professora na UnB sem curso superior e dirigiu um grupo de teatro amador com operários no SESI.

07 – O que motivou a fuga de Sylvia Orthof com seus dois filhos e sua mãe para Paris no ano de 1966?

      A fuga ocorreu devido à forte pressão do regime militar instaurado no Brasil, que resultou na perda de liberdade, no cerceamento de suas atividades e na censura que dificultava seu trabalho artístico.

08 – De que maneira se deu o surgimento da carreira de Sylvia Orthof como escritora de literatura infantil?

      Após ficar viúva aos 40 anos e se casar com Tato Gostkorzewicz, Sylvia voltou ao Rio de Janeiro e escreveu/dirigiu a premiada peça infantil "A Viagem do Barquinho" no MAM. O sucesso nos palcos serviu de transição para que ela começasse a escrever e publicar literatura infantil.

09 – Qual foi o papel de Tato, segundo marido de Sylvia, na produção literária da autora?

      Tato, que era arquiteto aposentado e artista, passou a ilustrar a grande maioria dos livros infantis escritos por Sylvia durante a fase em que moravam em Petrópolis.

10 – Como a autora do texto descreve a postura de sua mãe durante o último ano e meio de vida, após o diagnóstico do câncer?

      A autora destaca que Sylvia viveu de forma plena e produtiva até o fim. Mesmo enfrentando o tratamento do câncer — incluindo quimioterapia, cirurgias e internações —, Sylvia manteve o ritmo e escreveu vários livros nesse período.

ARTIGO DE OPINIÃO: PSICOLOGIA DA ADOLESCÊNCIA - DESPERTAR PARA A VIDA - FRAGMENTO - FERNANDA PAROLARI NOVELLO - COM GABARITO

 Artigo de opinião: Psicologia Da Adolescência – Despertar Para A Vida – Fragmento

        Fernanda Parolari Novello

        [...]

        Crise da adolescência, fase difícil, idade ingrata... são as taxações mais comuns. Você começa a ter reações que lhe são estranhas. Vêm à tona milhares de dúvidas inesperadas e persistentes que passam a martiriza-lo.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh-DHeCH9Xc71oKP8uXSVrF4wA1FUUndnkhsmpWFOw_q2DCdzNg8RA8LEzG-IOEA_jVaa9FQq1VP9RjO5L2j7wuLJYnTGGu6ToNQZamC9-SJFLF6O-AbPtoRV5e_3Wjo1XpDvhJxYNuofqXvdrdS9wCfkFQamGrJq6XiPnDnZk7TUvhYy3mQ1CuQQmvJSA/s1600/images.jpg


        Durante a infância foi absorvido, sem valorização, seleção ou crítica, todo um cabedal de conhecimentos. Como uma semente, começa a germinar, a brotar uma força interior muito forte que necessita sair de dentro de você para a formação de seu Eu individual.

        Mudam as manifestações afetivas, você adquire maior capacidade de especulação, aguça-se o espírito crítico, a sexualidade evolui, surgem os problemas existenciais e a revolta contra os valores preestabelecidos pelos educadores.

        Tudo isso é natural, pois existe dentro de você a importância da criação de uma filosofia de vida sua, particular, que esteja de acordo com o que você é.

        A confiança e o apoio nos pais desaparecem repentinamente, pois você sempre sente necessidade de se diferenciar deles. Ao tentar adquirir segurança em si mesmo, tudo parece embaralhar-se.

        Você não aceita o que lhe foi imposto, mas também não possui ainda ideias próprias. Contudo, as experiências passadas devem ser aproveitadas quando válidas, levando em conta os prós e os contras vivenciados.

        Você, que deixou de ser criança mas não é ainda adulto, começou uma longa caminhada para ao amadurecimento, que vem lento e gradual. Num entreabrir-se sereno.

        Em fase, embora às vezes lhe pareça uma barreira intransponível, passará mais depressa do que você imagina. Não desanime, tenha paciência e confiança em você. Nada é tão difícil nem impossível que não possa ser bem vivido.

        A convivência continuada com você, adolescente, e com o processo da psicologia moderna, permitem afirmar que as dificuldades são, em linhas gerais, as mesmas para todos os adolescentes, variando apenas de intensidade e duração.

        Indubitavelmente, se acompanhada de esclarecimentos físicos e psicológicos, esta evolução pode ser mais tranquila. Trata-se de preparar-se para enfrentar as dificuldades e prevenir-se contra problemas que podem atingir tanto você, adolescente, como seus pais.

        [...]

Fernanda Parolari Novello. Psicologia da adolescência: o despertar para a vida. São Paulo, Paulinas, 1990. p. 41-3.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 21-22.

Entendendo o artigo:

01 – Quais são as rotulações ou taxações mais comuns atribuídas à adolescência citadas no início do texto?

      As taxações mais comuns são "crise da adolescência", "fase difícil" e "idade ingrata".

02 – Como a autora descreve o processo de transformação interna que o adolescente vivencia em relação aos conhecimentos absorvidos na infância?

      Ela explica que o conhecimento absorvido na infância começa a germinar como uma semente, fazendo brotar uma força interior necessária para a formação do "Eu individual".

03 – Segundo o texto, o que acontece com a relação de confiança e apoio que o jovem tinha com os pais?

      A confiança e o apoio nos pais desaparecem repentinamente, pois o adolescente sente uma necessidade constante de se diferenciar deles para adquirir segurança própria.

04 – Qual é a justificativa da autora para o fato de o adolescente se revoltar contra os valores preestabelecidos?

      Ela afirma que essa revolta é natural, pois existe no jovem a necessidade de criar uma filosofia de vida própria e particular, alinhada com quem ele é.

05 – De acordo com o texto, o que pode tornar a evolução da adolescência um processo mais tranquilo?

      A evolução pode ser mais tranquila se for acompanhada por esclarecimentos físicos e psicológicos, ajudando a prevenir problemas tanto para o adolescente quanto para seus pais.

 

ALGUNS PARÔNIMOS E HOMÔNIMOS - COM GABARITO

 ALGUNS PARÔNIMOS E HOMÔNIMOS

 

        Disponibilizo a seguir alguns casos de palavras semelhantes, que causam muitas dúvidas quando da escrita de textos. São os chamados PARÔNIMOS e HOMÔNIMOS.


acender: atear fogo; ascender: subir.

acerca de: sobre, a respeito de; cerca de: aproximadamente.

arrear: pôr arreios em; arriar: abaixar.

caçar: pegar animais; cassar: anular, tirar o direito de.

cela: pequeno quarto de dormir; sela: arreio.

censo: contagem demográfica; senso: juízo, discernimento.

cerração: nevoeiro espesso.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjfYdUljwcNkFPyVZveCUYc7TjbZdGMmzPeCpLdOuifyCc9YYR3xcDL5FL9EWA49pBAjom9Qg-JqMvW66i6GkM-kV9JX5E7aBiqsmJiDwLbUKATfd66qY6RTa5xhDXrxvvVesD8woC7b6d76lBWVMIHkn7bL0J06OKpp3HoiKMt0kcxBYPYMPzLne1zSJM/s1600/images.jpg


serração: ato de serrar, cortar.

cessão: ato de ceder.

sessão: em reuniões/espetáculos.

seção ou secção: corte, divisão, setor.

comprimento: tamanho; cumprimento: saudação, realização.

conjectura ou conjetura: hipótese, suposição.

conjuntura: situação, circunstância, momento.

descrição: ato de descrever, retratar.

discrição: qualidade de discreto.

dispensa: isenção, licença.

despensa: lugar para mantimentos.

despercebido: não percebido.

desapercebido: desprovido.

emergir: vir à tona. 

Imergir: afundar.

emigrar: sair de um país.

imigrar: entrar em país.

eminente: notável, celebre.

iminente: prestes a ocorrer.

estada: tempo de permanência de uma pessoa.

estadia: tempo de permanência de veículo.

flagrante: evidente, ato de flagrar.

fragrante: cheiroso, perfumado.

fluir: correr. 

fruir: desfrutar.

história: narrativa de fatos reais. 

estória: narrativa de ficção.

imoral: contra a moral.

amoral: sem moral.

infligir: aplicar pena.

infringir: transgredir.

mal: advérbio de modo, substantivo (contrário de bem).

mau: adjetivo (= ruim, antônimo de bom).

precedente: antecedente.

procedente: que procede, proveniente.

previdência: antevidência.

providência: medida; sabedoria divina.

sobrescrever: escrever sobre.

endereçar, subscrever: assinar.

sustar: interromper. 

suster: sustentar, reprimir.

tacha: pequeno prego, tacho grande.

taxa: tributo, imposto.

tráfego: trânsito.

tráfico: comércio, lícito ou não.

vultoso: enorme, volumoso.

vultuoso: vermelho (na face).

 

EXERCÍCIOS:

Preencha a lacuna com uma das formas entre parênteses:

1. Não conseguiu arriar a cortina. (arrear – arriar).

2. O jóquei é um cavaleiro não cavalheiro (cavaleiro – cavalheiro).

3. O prisioneiro sacudia as grades da cela (sela – cela).

4. Durante sua estada em Salvador, não dormiu. (estada – estadia).

5. O diretor queria prorrogar seu mandato (mandato – mandado).

6. Foi suspenso por infligir o regulamento. (infligir – infringir).

7. O cientista deve ser amoral. (amoral – imoral).

8. Ali, poucos conseguem ascender a chefe. (acender – ascender).

9. É iminente o retorno do eminente cientista. (eminente – iminente).

10. Houve cessão de ingressos para esta sessão. (cessão – sessão – secção).

 

MÚSICA(ATIVIDADES): MEU MUNDO E NADA MAIS - GUILHERME ARANTES - COM GABARITO

 Música (Atividades): Meu Mundo e Nada Mais

           Guilherme Arantes

Quando eu fui ferido vi tudo mudar
Das verdades que eu sabia
Só sobraram restos que eu não esqueci
Toda aquela paz que eu tinha

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgLbw6x4cZ5uGj3e3nv5zXETpS8ciiBN4KtTt5fNIKqq88kwR0DTbMaUwPLiQT-hb-aie0Th1pynaZOfjRz7vHeXPoei3LkzlLHJ5WjYNITpiVFmJ4RHG4cuzLmmrbNWPAzk0A8xB43GuGZUrLaDfFH3fmnA68MDV6B6rpQWHGEePfiNzQizYtI8j-xy_U/s320/images.jpg


Eu que tinha tudo hoje estou mudo, estou mudado
À meia-noite, à meia luz, pensando
Daria tudo, por um modo de esquecer

Eu queria tanto estar no escuro do meu quarto
À meia-noite, à meia luz, sonhando
Daria tudo, por meu mundo e nada mais

Não estou bem certo se ainda vou sorrir
Sem um travo de amargura
Como ser mais livre, como ser capaz
De enxergar um novo dia

Eu que tinha tudo hoje estou mudo estou mudado
À meia-noite, à meia luz, pensando
Daria tudo, por um modo de esquecer

Eu queria tanto estar no escuro do meu quarto
À meia-noite, à meia luz, sonhando
Daria tudo, por meu mundo e nada mais

Eu queria tanto estar no escuro do meu quarto
À meia-noite, à meia luz, sonhando
Daria tudo, por meu mundo e nada mais

Eu queria tanto estar no escuro do meu quarto
À meia-noite, à meia luz, sonhando
Daria tudo, por meu mundo e nada mais.

Composição: Guilherme Arantes. Discos com essa música: Guilherme Arantes, 1976. SIGLA/Som Livre; Meu Mundo e Tudo Mais ao Vivo, 1991. CBS/Sony; Maioridade, 1997. Globo/Polydor. Ao Vivo, 2000. PlayArte Music. Guilherme Arantes Ao Vivo, 2001. Sony/Epic. Intimidade, 2007. Som Livre/Coaxo de Sapo (BA).

Entendendo a música:

01 – Qual é o acontecimento que marca o início da transformação do eu lírico (a voz que canta a música) e como ele se sente após esse evento?

      O eu lírico menciona que tudo mudou quando ele foi "ferido". Ele se sente desiludido, pois das verdades que conhecia restaram apenas "restos", e perdeu a paz que tinha antes, ficando "mudo" e "mudado".

02 – Em quais momentos da canção fica evidente o desejo de isolamento do eu lírico? Que expressão da letra confirma esse sentimento?

      O desejo de isolamento fica evidente no refrão, quando ele expressa a vontade de estar no "escuro do meu quarto", "à meia-noite, à meia luz". Ele busca refúgio e proteção em seu próprio mundo diante da dor que sente no mundo exterior.

03 – Na segunda estrofe, o eu lírico faz um questionamento sobre o seu futuro emocional. O que ele dúvida que conseguirá fazer novamente?

      Ele dúvida se ainda será capaz de sorrir sem sentir um "travo de amargura", além de questionar como poderá ser mais livre e capaz de enxergar um "novo dia" com esperança.

04 – Qual é o contraste apresentado no trecho "Eu que tinha tudo hoje estou mudo, estou mudado"?

      O trecho apresenta um contraste (antítese) entre o passado e o presente: no passado, ele sentia que "tinha tudo" (paz, certezas, estabilidade); no presente, perdeu essa plenitude e se encontra "mudo" e sem forças, incapaz de se expressar como antes.

05 – O que a expressão "Daria tudo por meu mundo e nada mais" significa no contexto da canção?

      Significa que o eu lírico valoriza a paz de seu universo interior e de sua privacidade acima de qualquer outra coisa externa. Diante das desilusões do mundo exterior, ele prefere se recolher e ter de volta apenas a sua própria essência e tranquilidade.

 

MÚSICA(ATIVIDADES): TRIBUTO - GUILHERME ARANTES - COM GABARITO

 Música (Atividades): Tributo

          Guilherme Arantes

Eu queria que você soubesse
Que pra mim não existe diferença de cor
Tudo que ainda trago no peito engasgado

Sobre preconceito e raça superior

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh43zqrVrOr56G7upkhc7YG2fzJdK3-O9O2QdGyW0LViiS8p-FjOsl4rX5zP8Eg8yAtC5L2SgQ6887meJ7u-Gehff0gArXC9v2LiXHVtICtzM5X4iszAWBjd_Z52NHajUlei6i0992NY_TUt-qIm_B9cyBAn0ERb8wcCywuhzX_DMhrn6cgxVsW_Mw85Tw/s320/images.jpg


Desde pequeno, eu escutava calado
As façanhas do mito ariano opressor
Homens na sala, meu tio
Depositando as armas na estante
Me enchendo de pavor

As inocentes piada infames
De negros, judeus, muçulmanos, orientais
Índios e latinos, como se não fossemos Também genes misturados
Como se não fossemos
Também discriminados

Mesmo sem saber
Mesmo sem querer, nem saber
Mesmo inconscientemente
Vivendo numa redoma de ilusão
Me feria ver um mundo
Apartado em guetos

Algo me dizia que eu não via futuro
Favelas, distritos, conflito
O bairro dos ricos
O ovo da serpente e a semente do mal

Culto ao fascismo, fascínio do nazismo Hitler, Stalin, Mussolini, Franco e Salazar
E todos os tiranos de qualquer lugar
Fizeram a história aprendida na escola

E quase que passou em branco
O Quilombo de Palmares, saga de Zumbi
Aprendemos mais a Guerra do Paraguai
Chacina, assassinato, nódoa que não sai

Enquanto isso, Repórter Esso
Martin Luther King e o rei Classius Clay
Eu vi as lutas todas, round por round
Nocaute por nocaute
Muhammad Ali

Por aqui, era enrustido, hipocrisia pura
A lenda do povo cordial
Ainda bem que tudo mudou
E tinha que mudar
Meu país, o último da fila da abolição
O primeiro da classe em miscigenação

Hoje eu consigo entender
Porque estrangeiros me fazem
Sempre, estranhas perguntas
Where are you from, are you na Afghan
Are you from Pakistan?
E sinto na pele o que querem dizer

Deve ser a minha herança indígena
No sangue, na cara, na pele vermelha
Dourada de sol, o sol do Brasil
Onde as mulheres são lindas
E tardam a envelhecer

Eu preciso fazer um tributo a você
A todos os amigos de todas as cores
Que me quiserem bem
Que me fizerem ser o que sou
E desprezar a discriminação

Ídolos da minha mocidade
Foram, são e serão, Ray Charles
Chuck Berry, Little Richards, Otis Reding Jimmy Hendrix, Bob Marley, Stevie Wonder
Marvin Gaye, Sly & the Family Stone
Kool and the Gang e por aqui, também
Jorge Ben, ou melhor, Benjor
Milton, Tim Maia, Baden e Gil.

Composição: Guilherme Arantes. ARANTES, Guilherme. Tributo (Cena de Cinema). in Lótus: Som Livre/Coaxo de Sapo: SP/BA, 2007.

Entendendo a música:

01 – Na primeira estrofe da música, o eu lírico relata memórias da infância relacionadas à convivência familiar: "Desde pequeno, eu escutava calado / As façanhas do mito ariano opressor / Homens na sala, meu tio / Depositando as armas na estante / Me enchendo de pavor / As inocentes piada infames...". Analise de que maneira a música aborda o processo de normalização e perpetuação do preconceito no ambiente doméstico e cotidiano.

      A música mostra que o preconceito e o racismo muitas vezes são aprendidos de forma sutil e naturalizada dentro do próprio lar, através de conversas casuais, comportamentos opressores ("mito ariano") e "piadas infames" disfarçadas de inocentes. O eu lírico ressalta o pavor e o incômodo gerados por essa violência velada e reproduzida culturalmente entre gerações.

02 – O eu lírico menciona criticamente o ensino de História que recebeu durante o período escolar: "Fizeram a história aprendida na escola / E quase que passou em branco / O Quilombo de Palmares, saga de Zumbi / Aprendemos mais a Guerra do Paraguai / Chacina, assassinato, nódoa que não sai". Com base no trecho, explique qual é a crítica feita à historiografia tradicional e à forma como a história da população negra e periférica costuma ser retratada no ensino formal.

      O eu lírico critica o eurocentrismo e o foco militar/militarista do ensino de História tradicional, que priorizava guerras e conflitos oficiais (como a Guerra do Paraguai), enquanto invisibilizava e silenciava a resistência negra e as lutas sociais do país (como o Quilombo dos Palmares e a liderança de Zumbi). A crítica aponta para a necessidade de valorizar a história e a identidade afro-brasileira nas escolas.

03 – Em determinado trecho, a canção utiliza a expressão "A lenda do povo cordial" para caracterizar a sociedade brasileira em relação às questões raciais. Explique o significado dessa expressão no contexto da música e como ela se contrapõe à ideia de que o Brasil viveu uma "democracia racial".

      A expressão se refere ao mito do "povo cordial" (ou da democracia racial), a falsa ideia de que o brasileiro é naturalmente pacífico e isento de preconceito racial. A música desmascara esse mito ao qualificá-lo como "hipocrisia pura" e "enrustido", demonstrando que o preconceito existia e atua de maneira velada e dissimulada na estrutura social do país.

04 – No trecho "Meu país, o último da fila da abolição / O primeiro da classe em miscigenação", o autor estabelece um contraste entre dois fatos históricos e sociais marcantes do Brasil. Interprete o significado desse contraste e explique como a miscigenação é abordada na música (inclusive na experiência pessoal do eu lírico no exterior).

      O contraste evidencia o atraso histórico do Brasil no combate à escravidão (sendo o último país das Américas a aboli-la em 1888) em contrapartida ao intenso processo de miscigenação étnica da população. Na música, essa miscigenação faz com que o eu lírico, ao viajar para o exterior, seja confundido com pessoas de diversas nacionalidades (como afegãos ou paquistaneses) devido à sua forte herança indígena e miscigenada refletida na pele e nos traços.

05 – A parte final da música é dedicada a um tributo expresso através do reconhecimento de diversos nomes da música negra nacional e internacional. De que modo essa lista de ídolos reforça a mensagem central da canção e atua como uma forma de reparação e exaltação cultural?

      A citação de grandes artistas negros nacionais (como Jorge Ben, Milton Nascimento, Tim Maia, Gilberto Gil) e internacionais (como Ray Charles, Jimi Hendrix, Bob Marley, Stevie Wonder) reforça que a formação cultural, moral e afetiva do eu lírico foi profundamente impactada pela contribuição intelectual e artística da cultura negra. É um ato de tributo, gratidão e combate à discriminação, reconhecendo a centralidade desses ídolos na história da música mundial.