quarta-feira, 20 de setembro de 2017

TEXTO: A NOVA E A VELHA ÁFRICA - COM INTERPRETAÇÃO/GABARITO

A NOVA E A VELHA ÁFRICA

        “Há sempre algo de novo em África”, disse o escritor romano Plínio. O aparecimento de novos Estados africanos nas últimas décadas origina frequentemente notícias de primeira página nos jornais, mas as tradições deste continente são tão antigas como quaisquer outras, e algumas das mais remotas formas de vida humana foram recentemente descobertas no vale do Grande Rift, na África Oriental. Existem ainda sobreviventes das raças de pigmeus e bosquímanos, povos dos mais antigos da história humana. E, por detrás das modernas doutrinas políticas, há inúmeros mitos e lendas que constituem parte fundamental da maneira de pensar das populações africanas.
        A África é um vasto continente, que se divide naturalmente em duas partes principais. O chamado Norte de África, que se estende do Egipto a Marrocos, e da foz do Nilo até à Etiópia, pertence na sua maior parte ao mundo mediterrânico e tem como religiões básicas o Cristianismo e o Islamismo, que determinam mentalidades e histórias próprias. O deserto do Saara e as florestas tropicais formavam uma barreira intransponível aos europeus, que procuravam conhecer o resto da África, até que os portugueses, na saga dos descobrimentos, contornaram o cabo da Boa Esperança, no final do século XV.
        [...]
        As mitologias grega e indiana são apoiadas por vasta literatura, nascida de tradições orais preservadas em livros, escritos ao longo dos séculos. Para se ficar a conhece-las, é suficiente ler essas obras. No estudo da mitologia africana surge logo à partida um obstáculo de monta: não há livros antigos. Há incontáveis histórias, já que todas as raças africanas adoram conta-las, mas que nunca foram passadas ao papel até aos tempos modernos. E mesmo as coleções hoje existentes estão incompletas.
        [...]
        Como a arte era a única “escrita” conhecida em toda a África Tropical, foi usada para interpretar a vida em todos os seus aspectos. Foi aplicada na vida religiosa, que aliás não se dissociava de outras facetas da vida, para dar significado e função espiritual a objetos destinados em cerimónias ou mesmo em ritos individuais. Foi usada para ilustrar provérbios e para expressar a sabedoria popular. Deste modo, a arte africana proporciona uma espécie de literatura sacra, realçando a beleza e a solenidade da face do homem. É profundamente expressiva e, no entanto, modesta. Não existem grandes templos desafiando os céus, pois a falta de pedras macias e a inexistência de explosivos para quebrar as rochas graníticas eram realidades inelutáveis. A arte africana preocupa-se com a vida humana: os rostos e imagens retratam a natureza do homem e as suas atividades. O homem e a mulher como um casal, às vezes como gémeos, indicam o núcleo da família africana; mesmo quando a poligamia é prática corrente, o casal continua a ser a unidade básica. A interdependência entre o homem e a mulher é fielmente retratada, tanto na escultura como na mitologia.

     Geoffrey Parringer. África; Biblioteca dos grandes mitos e lendas universais.
                              Trad. Raul de Sousa Machado. Lisboa: Verbo, 1987 p. 7-9.

1 – Qual a grande contradição atual do continente africano?
      A convivência simultânea do artigo (mitos, lendas maneiras de pensar) com o moderno (novas doutrinas políticas).

2 – Que descobertas recentes obrigaram o mundo ocidental a repensar seu preconceito contra a África?
      As mais remotas formas de vida humana foram encontradas em escavações na África.

3 – Veja a frase: Por ser uma sociedade ágrafa, a África não pôde preservar suas tradições. Você concorda com essa afirmação? Por quê?
      Resposta pessoal do aluno. O aluno deverá descordar, uma vez que, mesmo não tendo escrita, a cultura africana preservou-se por meio da oralidade ou da arte.

4 – Qual o papel da arte na cultura africana?
      A arte tornou possível a interpretação da vida africana em todos os seus aspectos.

5 – O que o caráter humanístico da arte africana nos revela sobre esse povo?
      A beleza, a grandeza do africano está na sua simplicidade e religiosidade.

6 – “Traduza” a palavra poligamia a partir dos radicais gregos que a compõem.
      Poli = muitos; gamia = casamento.

7 – O que os adjetivos intransponível e inelutável têm em comum? O que poderia facilitar a compreensão do significado dessas palavras?
      Ambos têm prefixo in -, indicando negação, e sufixo –vel, indicando possibilidade de praticar ou sofrer uma ação. Detendo-nos no radical, poderíamos entender as palavras como: intransponível = o que não pode ser transposto; inelutável = aquilo contra o que não se pode lutar.

8 – Encontre no texto uma palavra cujo plural não segue a orientação geral e não aparece no final. Procure descobrir como essa palavra se formou para entender o plural diferente.
      A palavra quaisquer tem plural em seu interior e não no final porque é formada pelo pronome qual (que faz plural quais), seguido do verbo querer conjugado no presente do indicativo.

9 – Você já trabalhou com textos expositivos nas séries anteriores. Já sabe, portanto, que determinadas construções são comuns nesse tipo de texto. É o caso de frases formadas com o verbo haver, empregado com o sentido de existir, e com verbos na voz passiva. Identifique no texto frases em que isso ocorre e explique em seu caderno as razões do emprego desse tipo de construção.
      “... há inúmeros mitos e lendas que constituem...”; “Há incontáveis histórias...”; “Foi usada para interpretar a vida”; “Foi aplicada na vida religiosa...”
      Nos textos expositivos, costumam-se afirmar fatos sem atribuí-los a um sujeito gramatical, como se eles tivessem vida própria. Daí o emprego constante do verbo haver, no sentido de existir. O emprego do sujeito paciente, na voz passiva, também se justifica pelo fato de não se julgar importante citar o agente da ação, frequentemente omitido nesse tipo de construção sintática.

10– O trecho do livro África que você leu foi traduzido em Portugal.
Identifique nele uma construção típica da sintaxe lusitana. Reescreva-a de forma abrasileirada.
“Para se ficar a conhece-las, é suficiente ler essas obras.” No brasil, seria mais comum dizer-se: Para que se possa conhece-las, é suficiente ler essas obras. Comentar o emprego do infinitivo em Portugal em construções do tipo: Estou a estudar a África por exemplo, enquanto aqui no Brasil usamos o gerúndio: Estou estudando a África. Justificar as diferenças na pronúncia, no léxico e na sintaxe do português de Portugal para o nosso.

11 – Você conhece palavras pertencentes ao português de Portugal que não são aqui utilizadas ou que no português do Brasil têm outro significado? Cite algumas, se souber.

      Resposta pessoal do aluno.

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